A Grande Festa da Casa de Chá (Um Espetáculo Literário)
ÍNDICE
Capa..................................................................................................................................1
Índice.................................................................................................................................2
Perfil das personagens:
Ana Lee/Géssica....................................................................................................3
Ângelo....................................................................................................................4
Bira.........................................................................................................................5
Camargo.................................................................................................................7
Cláudio...................................................................................................................9
Damariz................................................................................................................10
Gracinha...............................................................................................................11
Madame Gunda....................................................................................................13
Inácio...................................................................................................................14
Isabel....................................................................................................................15
Marlene................................................................................................................16
Miguel..................................................................................................................18
Nico......................................................................................................................20
Paloma.................................................................................................................22
Ricardo.................................................................................................................23
Sabine...................................................................................................................24
Sérgio...................................................................................................................26
Thomás.................................................................................................................27
Descrição dos palcos:
O Palco da Casa de Chá.......................................................................................29
O Palco do Bar do Adalberto...............................................................................29
A Peça
Primeiro Ato (“O Rendevouz”)...........................................................................30
Segundo Ato (“Vênus & Marte”)........................................................................46
Terceiro Ato (“Pecadillo”)...................................................................................62
Quarto Ato (“O Triclínio”)..................................................................................85
Quinto Ato (“Sublimação”)...............................................................................133
ANA LEE/GÉSSICA
Idade: 34 anos.
Saúde: frágil, vive sempre lânguida e apática. Isso de alguma forma influência em suas freqüentes complicações estomacais e intestinais.
Forma de se vestir: Ao contrário das outras meninas da noite, Ana Lee não usa artigos muito chamativos. Por não possuir um gosto muito apurado na combinação de cores acaba usando roupas escuras. O tamanho pequeno das peças que usa é exigência da profissão. Quanto aos tecidos, Ana dá preferência aos plastificados, pra não ficar quase completamente “insossa”.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Seios grandes, pernas carnudas e bunda redonda. É uma morena mignon de olhar triste e traços indígenas. É melancólica ao falar e não chama atenção o seu andar.
Adora a paz de sua própria casa e ambiente com crianças. Ir ao Ibirapuera com seus filhos é seu hobby preferido. A infância parece remeter a moça a um ambiente sem conflitos, por isso, mesmo quando está sozinha, assiste à filmes infantis para passar o tempo. Não gosta de exageros e de festas “adultas”.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: Não ri quase nunca. É o tipo de pessoa que gosta de falar coisas sobre o cotidiano ou de relacionamentos amorosos.
História pessoal: Nasceu no interior do Paraná. Sua mãe era lasciva e, quando estava casada com seu pai, viviam com problemas financeiros. Sua mãe bebia demais e quase todos os dias tinha briga na casa dela. A mãe dela perdia as rédeas por nada. Seus pais se separaram quando Géssica tinha quinze anos. Aí a situação na sua casa piorou, sua mãe passou a levar tudo quanto era homem para dentro de casa e alguns até chegaram a bater nela na frente da filha. Géssica desenvolveu uma personalidade depressiva e estava decidida em se casar para sair de casa. Quando conseguiu (com dezessete anos) engravidou rápido do primeiro filho, Tiago. Seu casamento durou sete anos e foram dois os filhos, frutos da união.
Enquanto estava no interior Géssica gastou muita sola de sapato atrás de empregos mal-remunerados pra sustentar um casamento de fachada. Resolveu se separar quando percebeu que estava ficando igual aos seus pais: quando ele começou a bater nela, a chifrá-la e a beber demais. Além de tudo isso, as finanças da casa estavam indo para o ralo...
Nos primeiros dias em São Paulo ficou de favor na casa de uns tios. Saía todos os dias para procurar emprego e estava desesperada já quando viu um anúncio em um jornaleco de empregos barato. Tratava-se de uma vaga para recepção de um puteiro (não era a Casa de Chá), mas quando ela chegou lá percebeu que o buraco era mais embaixo, porém, aceitou virar prostituta. Em pouco tempo saiu da casa dos tios, mas não da noite, só que é exatamente por causa disso que ela consegue dar uma vida digna aos filhos.
Nível educacional: É formada em Contabilidade por uma faculdade do interior do Paraná.
Antecedentes sociais e familiares: Foi assediada em um emprego, quando era assistente contábil e está envolvida no processo judicial até hoje.
Preferências amorosas: Gosta de homens corretos, religiosos, imaculados, infantis, feéricos, encantados, tipo os que só existem na cabeça de gente depressiva.
Preconceitos: com pessoas sujas moralmente.
Manias: Chocolate.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: Não consegue mais se envolver emocionalmente, pôs uma muralha entre ela e os outros desde que se desquitou. Além disso, sua estrutura emocional é fragmentada, sendo que, a imagem de seus pais não está no devido lugar.
Necessidades: ...de se doar e de sofrer.
Objetivos: Criar seus filhos (à longo prazo) e montar seu apartamento para que possa se livrar do aluguel e sair da noite definitivamente.
Arrependimentos: Ter se casado e tentado fazer o aborto do primeiro filho.
Rancores: De muitos clientes que a trataram mal e de quem ela se lembra exatamente dos rostos e dos nomes.
Características que podem prejudicá-la ou salvá-la: Ela precisa da salvação de sua alma, de Igreja.
ÂNGELO
Idade: 30 anos.
Saúde: boa.
Forma de se vestir: Nunca consegue se sentir bem ao se vestir, por isso acaba sempre escolhendo as roupas mais sóbrias e que o fazem ficar sem muito destaque entre a multidão. Prefere o estilo grunge: calças “cargo”, bermudões, camisas xadrez e tênis.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Dono de um olhar brilhante e expressivo. Seu porte é magro e sua altura é de mais ou menos 1,80m. Os cabelos são negros e os olhos castanhos.
Apesar de ser meio retraído, seus movimentos são fluidos, harmônicos e delicados – há algo de lisérgico neles. Seu tato é muito apurado.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: O tom de sua voz é quase sempre o de alguém em êxtase, que está recebendo uma mensagem divina (dá pra entender?). O cara é meio iluminado, simples nas palavras, conciso, porém, profundo. Possui certo conhecimento do léxico.
É humilde e carrega uma certa indignação com o que acontece no mundo.
História pessoal: Nasceu em uma família de classe-média baixa e não emitiu nenhum som até os cinco anos. Numa madrugada, depois de ter ido à praia com a família, estranhamente começou a balbuciar dormindo. Na verdade mais pareciam grunhidos doloridos. Sua irmã mais velha, que estava acordada assistindo televisão, assustou-se e foi relatar o caso aos seus pais na mesma hora. Teve dificuldades na escola e não aprendeu fácil a pronunciar os fonemas. Só se libertou do problema quando conheceu Grilo, Thomas e Miguel.
A morte de Grilo fora muito difícil pra ele. Fora o primeiro contato dele com a morte e isso mudou a sua vida. Depois do episódio Ângelo tornou-se displicente e até meio niilista. Passou a dar menos valor à vida do que ao espírito.
Seu primeiro emprego foi com seu pai, que ele mantém até os dias atuais. É assistente administrativo.
Nível educacional: Fez o segundo grau e parou por ali.
Antecedentes sociais e familiares: Sempre foi querido por todos. Todos que o conhecem ficam cativados na mesma hora, tornam-se confidentes, fazem tudo para tê-lo por perto.
Preferências amorosas: Gosta das mulheres da noite, as putas, as decaídas, as alcoólatras, drogadas e estupradas. As que têm dramas pessoais são as que mais o atraem por seus conteúdos emocionais. As interações amorosas na vida dele ocorrem mais no nível espiritual, por isso, muitas de suas namoradas foram atrizes intensas.
Preconceitos: Pessoas que prezam demais o status social e pessoas maltratam animais.
Manias: falar sozinho.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: É muito inocente e não possui defesas contra as coisas que sente.
Necessidades: Religião.
Objetivos: dar uma função para a sua sensibilidade.
Arrependimentos: de ter causado um acidente automobilístico quando estava bêbado.
Rancores: de um ex-amigo de escola que um dia viu ateando fogo em uma galinha.
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: ele é autodestrutivo e isso pode levá-lo à ruína se não equilibrar-se com sua mediunidade.
BIRA
Idade: Mais ou menos 40.
Saúde: Bebe muito – todos os dias. Fuma muito também. Tem uma genética potente e apesar dos pigarros constantes quase nunca fica doente.
Forma de se vestir: Adora uma camisa sempre pra fora da calça, sempre aberta pra mostrar o peito coberto de correntes. Usa calças jeans e sapatos quase sempre com meia-sola. Usa relógio dourado e anéis na mão. Usa o cabelo black-power com costeletas compridas e bigode.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: É um negro robusto, bonitão, alto, de um metro e oitenta e seis, mais ou menos. Ostenta uma grande, dura e quadrada barriga, composta mais de estômago do que de banha.
Pode-se dizer que o Bira é um cara “mole”, porém, seus movimentos são fluidios e coordenados. Possui um jogo natural ao andar e uma certa ginga não muito acentuada (proveniente de seu cerebelo já meio defumado no álcool).
Seu passatempo preferido são os jogos de azar: poker, videobingo, corrida de cavalos, sinuca (com apostas) e futebol (só pra assistir). Além disso é um fã incondicional dos jogos de bar: dominó, palitinho e a brincadeira do “pin” (brincadeira onde os participantes têm de contar os números intercalando-os com a palavra “pin” nos múltiplos pré-determinados no começo da brincadeira. Quem erra toma uma talagada de alguma bebida forte.) O bar é o seu reduto. Papo furado, desde política internacional até novelas são os temas preferidos desde que o pano de fundo seja o bar, passa muitas horas lá.
De vez em quando, quando consegue acordar cedo, costuma ir ao “centrão” pesquisar quinquilharias que só ele dá valor em brechós ou antiquários.
Conteúdo da fala/ritmo e tom da voz: Percebe-se logo ao primeiro contato que Bira é estudado, não é nada ignorante. Seu nível cultural é bem elevado. Usa muitos adjetivos e possui sofisticação no palavreado. Adora uma demagogia, é um vendedor nato. Sabe exaltar as pessoas com muita facilidade, acentua minuciosamente as qualidades do interlocutor, levantando sua moral. Além de ser muito lisonjeiro é persuasivo.
É dono de uma fala macia, bem pontuada e nunca perde seu charme natural.
História pessoal: É filho único de família de classe média paulistana. Morou a vida toda num pequeno prédio do centro, perto da “boca-do-lixo”. Seus pais eram muito batalhadores até se aposentarem.
Bira nunca foi um cara bonito, mas sempre teve muita sorte em todos os aspectos da vida, inclusive com mulheres, companhia que sempre teve toda exclusividade em sua história social. Teve um grande amigo aos dezessete anos, altruísta e íntegro. Punham-se em pé de igualdade em todos os aspectos da relação. Seguiram caminhos diferentes e depois que terminaram a escola nunca mais se encontraram.
Começou a trabalhar aos catorze, de contínuo, porém, nunca teve talento pra ser empregado de ninguém, muito menos da multinacional, que o empregara. Vivia enfiado em mutretas com o jogo do bicho e, de vez em quando, tráfico de pequenas quantidades de maconha.
Entrou na prostituição, como proxeneta, quando abriu seu primeiro boteco na “boca-do-lixo”. Fez tanto dinheiro que um dia, com um conhecido, montou a Casa de Chá. Esse conhecido morreu misteriosamente. Alguns meses depois de adquirir a exclusividade na Casa conheceu Marlene, então uma prostituta que trabalhava lá.
Nível educacional: Começou a faculdade de Comércio Exterior, mas logo viu que essa não era a dele.
Antecendentes sociais e familiares: Raramente se aprofundou em seus relacionamentos. Seus pais, agora aposentados, moram em Catanduva e, esporadicamente falam com ele, apesar de vê-lo quase nunca. Independente disso ele é muito carinhoso com eles.
Preferências amorosas: Adora mulher, mas é um apaixonado confesso de Marlene, sua mulher, mãe e salvadora. Ela possui o perfil que o arrebata: mãezona, que suporta seu jeito infantil, despreocupado e displicente.
O que gosta e o que não gosta: Já foi apaixonado por Arte e Literatura, que gerou seu interesse por antiguidade. Aprecia política, economia, boa comida e enologia. É bem diletante, sabe muito bem o que é o bom vida. Adora animais, mas não se sente capaz de cuidar de um. É um humanista do povo, odeia injustiça e prepotência.
Preconceitos: não possui muitos. É bem esclarecido e tolerante.
Manias: Está sempre limpando debaixo das unhas com alguma coisa.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: É extremamente irresponsável.
Envolveu-se numa briga, um dia, numa comunidade onde morou por tentar amenizar uma situação tensa.
É um péssimo psicólogo e o problema dos outros o incomoda.
Necessidades: Álcool e atenção.
Objetivos: Acordar no outro dia e fazer a Casa de Chá crescer.
Arrependimentos: Não se arrepende de nada.
Rancores: Com uma puta que ajudou e fugiu da Casa depois de uma briga feia, falando como se estivesse ficado encarcerada lá. Bira teve uma quedinha por ela...
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: Nem o jogo, nem o álcool fariam tanta diferença em sua vida se tivesse de abandoná-los quanto faria a falta do contato familiar na Casa de Chá. A alegria entre os seus é seu pão.
CAMARGO
Idade: 57 anos.
Saúde: Possui colesterol alto e uma leve fibrose no fígado, o que lhe confere coloração amarela nos olhos. Não dorme e não come bem, por isso possui bolsas debaixo das pálpebras.
Forma de se vestir: Está sempre de terno, sem gravata e com o colarinho da camisa aberto. Usa gel nos cabelos e sua barba está sempre bem feita.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: É grisalho, obeso, sua pele é engordurada, tem papadas, pêlos nas orelhas e dentes amarelados. Seu pescoço é duro e encravado entre os ombros. Seu olhar transmite sarcasmo permanentemente. Camargo senta-se, levanta-se com dificuldade e anda como um membro da máfia.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: É malicioso em qualquer ocasião, manifesta bem sua falta de escrúpulos em suas conversas. O tom de sua fala é marcada pelo fumo, pigarreia sempre e respira com dificuldade.
História pessoal: Vem de uma família tradicionalista e rígida, originária da Itália. Seu pai era caixeiro-viajante e sua mãe, dona-de-casa. É o irmão do meio dentre três filhos homens.
Quando pequeno era endiabrado, ninguém gostava dele, pois era o tipo que andava em gangue e maltratava animais. Sempre foi gordinho e era o maior da turma, sofreu com excesso de espinhas na adolescência e perdeu a virgindade depois de ter começado a beber. O pai era violento, então, quase nunca ficava em casa.
Quando terminou o colégio, Camargo se casou, porém saía todas as noites. A mulher tornou-se alcoólatra e estava depressiva. Quando a corda apertou pro lado dele eles se desquitaram e, sem nenhuma dor de consciência, Camargo largou os dois filhos com ela sem se importar de pagar qualquer quantia que ela pedisse para este fim, afinal, Camargo sempre teve facilidade em ganhar dinheiro, pois nunca teve muitos escrúpulos. Vive com negócios escusos, às voltas com fiscais de caráter riscado e ações por “debaixo dos panos”.
Nível educacional: Possui o segundo grau completo e um diploma falso de Medicina.
Antecendentes sociais e familiares: Quando era pequeno acendeu gás lacrimogêneo na missa de domingo. Foi o maior bafafá! Depois dessa ele foi enviado para o reformatório para estudar em regime de internato.
Preferências amorosas: Mulheres submissas.
Preconceitos: Com hippies, gays, esquerdistas e artistas.
Manias: Contabiliza tudo o que puder.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: É uma pessoa rude, seca e abusa do álcool.
Necessidades: Poder e status.
Objetivos: Enriquecer à qualquer custo.
Arrependimentos: De quase ter sido preso por um negócio mal remunerado. Foi quando se envolveu com tráfico de animais silvestres.
Rancores: De seu pai: “Aquele canalha, pelo menos me ensinou a apanhar.”
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: Ele só se salvaria, ou se perderia se perder tudo o que tem, ou se sofrer de algum mal doloroso.
CLÁUDIO
Idade: quarenta e dois.
Saúde: Teve problemas com hipertiroidismo e teve que parar de fumar depois que extraiu um tumor no pulmão.
Forma de se vestir: Quando não está em seus trajes para o trabalho (que consiste em ternos acinzentados e gravatas bordô) usa camisas “pólo” dentro das calças de tergal, “sapatênis”, pulôver com as mangas amarradas no pescoço, relógios com pulseiras de couro e correntinha de ouro no punho.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Cláudio é um negro bonito e forte, estilo galã americano. Mede um metro e oitenta e cinco, tem dentes grandes, maxilar avantajado e olhar confiável. Seu sorriso transmite segurança e honestidade, mas depois que se conhece a figura, descobre-se que é superficial e desinteressante.
Seus hobbies são: acordar cedo, malhar, jogar boliche e tênis. Quando tem um tempo vai ao seu sítio cuidar de seu gado. Também gosta de se reunir com os amigos para falar de negócios. Quando não tem nada pra fazer gosta de ler revistas especializadas. Entre os temas que o interessam está a Agropecuária.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: Fala como um administrador nato e negocia muito bem, mas quando o negócio é divertir o cara é um completo desastre, suas piadas são leves, sem malícia, além de o cara não ter a mínima noção de timming para o negócio.
História pessoal: Sua mãe morreu quando ele tinha sete anos e seu pai casou-se pouco tempo depois. O casal manteve uma longa e estável relação e proveu um lar harmonioso e saudável para ele e seu irmão mais velho. Quando jovem Cláudio preferiu o esporte enquanto seu irmão dedicava-se ao piano, coisa que ele nunca entendeu patavina.
Seus dias de infância eram regidos por horários rígidos. Por muito tempo estudou de manhã (em colégio particular), à tarde ia para a atividade que escolheu, a natação, e para o Italiano. À noite recapitulava as lições do colégio.
No segundo grau dedicou-se só aos estudos. Estava matriculado em um colégio estadual, no cursinho, além de fazer Inglês. Quando terminou o colegial entrou direto em Administração no Mackenzie. Lá conheceu a bebida e as mulheres. Enamorou-se com uma moça da Psicologia, mas romperam bem pouco antes de ele se formar. Depois disso não parou mais de se enrolar com mulheres, sempre manteve seus relacionamentos e a vida nos puteiros.
Começou a trabalhar com Camargo quando a Fluxur ainda era um pequeno escritório (ver Ato I, página 10). Foram apresentados por intermédio de um amigo e trabalham juntos a muito tempo.
Nível educacional: Fez MBA, possui o certificado Toeffl e domina o Italiano. Tem vários cursos de computação, gestão em Negócios Internacionais, Contabilidade e Economia Aplicada.
Antecedentes sociais e familiares: Sua roda de amigos é pequena e constituída de industriais e executivos. Sua família é bem participante em sua vida pessoal, em quase todos finais de semana encontram-se para almoçar no sítio de Sérgio, em Atibaia.
Preferências amorosas: Para relacionar-se, Sérgio prefere mulheres com carreira estável e, principalmente, desimpedidas, isto é, sem filhos e bem-resolvidas psicologicamente.
Preconceitos: de artistas, pobres, ignorantes, gays e drogados.
Manias: Lava sempre as mãos e sempre presta atenção para que não escorra nada de seu copo nem no ato de beber quanto no de enchê-lo.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: É um work-a-holic e um verdadeiro babaca.
Necessidades: conforto.
Objetivos: Aposentar-se e ir morar em Porto de Galinhas para envelhecer lá.
Arrependimentos: Não ter aprendido a gostar de algum tipo de arte, apenas porque acha que é chique saber alguma coisa sobre isso.
Rancores: -
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: Não há salvação para um babaca como ele...
DAMARIZ
Idade: na casa dos trinta.
Saúde: perfeita.
Forma de se vestir: prefere as roupas de gala. É charmosa e entende muito bem o que sua aparência pede. Usa brinco e colares de prata, porém, sem exagero nos acessórios. Sua unhas longas estão sempre pintadas de preto.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Possui cabelos negros, olhar penetrante, boca bem talhada (lábios finos), estatura mediana, corpo atlético e é siliconada.
Damariz tem um ar de mistério que lhe confere ainda mais charme à sua aparência. É contida nos modos e bem direta no que diz. Usa-se da Etiqueta em todos os lugares onde passa.
Ninguém sabe ao certo quais são seus hobbies.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: Seu português não é dos mais vastos, porém, fala corretamente e não se utiliza de gírias ou vícios lingüísticos, tão comuns no meio onde ela freqüenta.
História pessoal: (Ver Ato II, terceiro parágrafo.)
Nível educacional: Completou o segundo grau quando voltou da Alamanha. Fala bem o alemão e o inglês.
Antecendentes sociais e familiares: (Ver Ato II, terceiro parágrafo.)
Preferências amorosas: Homens e mulheres do seu círculo social fora da noite.
Preconceitos: de católicos.
Manias: é muito mística, disfarça muitas manias dessa natureza.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: -
Necessidades: -
Objetivos: sair da prostituição, casar e ter uma vida pacata e tradicional.
Arrependimentos: ter-se viciado em heroína.
Rancores: vários, entre os alvos estão, Haller, o médico alagoano, seu ex-namorado viciado e o assassino de seu pai.
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: a religião é o epicentro da sua vida.
GRACINHA
Idade: Uns vinte e tantos.
Saúde: Perfeita, porém, há a suspeita de que tem sífilis.
Forma de se vestir: Gosta de saltos, minissaias e brincões. Usa cores claras.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Graça é uma negra linda, com porte de modelo internacional. É alta, esguia e ostenta um Black-power estonteante. É espalhafatosa e alegre. Adora zanzar no shopping, assistir novelas, fofocar, ler revistas femininas, viajar e não dispensa um pagode.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: Tem um forte sotaque carioca, adora contar piadas e usa expressões com forte conotação sexual. Usa um tom de voz alto
História pessoal: Nasceu no seio de uma família pobre do Rio. Morou a vida toda na favela e adorava ir aos funks de lá. Sempre foi namoradeira, só que só namorava gente do meio do tráfico, rolava uma idolatria por essa gente. Vivia fazendo visita íntima em penitenciária. Quando entrava em uma era difícil não sair cumprimentando uns quatro ou cinco conhecidos além do visitado. Conhecia mais gente “guardada” do que gente solta. Sempre foi muito “barraqueira”, também, sua sorte é que sempre tinha um que estava pronto para tirá-la das frias que se metia.
Linda, a nega era a “Princesinha do Pagode” da sua boa época no Rio. Samba que é uma beleza!
Um dia seus pais pais, então desgostosos com a vida que sua filha arrumou para si, sumiram do mapa. Um incêndio que consumiu seu barraco foi a gota d´água para que eles dessem o maior susto da vida de Graça. Ela foi saber da desgraça quando estava no baile. Foi um bafafá! O pessoal começou a sair do salão para ver o que estava acontecendo, uma correria. Quando Graça chegou na viela onde morava, se desesperou e, quando perguntava sobre os pais, ninguém sabia dizer. Nem os bombeiros que, depois de terem apagado o fogo do barraco dela, garantiram que ninguém havia morrido ali. Nunca mais ela viu seus pais.
Graça morou com uma amiga e começou a ir à Copacabana se prostituir. Desde então passou a se revoltar com facilidade e, num dia desses arrumou uma briga feia. A esta altura já era mulher do proxeneta e, o negócio tinha ficado tão feio que o melhor conselho que ele conseguiu arrumar foi o de que ela sumisse dali o quanto antes. No mesmo dia em que ligou para Marlene perguntando se ela poderia ajudar Graça, ele despachou-a para São Paulo em um ônibus. Ela caiu direto na Casa de Chá e foi muito bem recebida pelo pessoal de lá.
Nível educacional: Fez até a sétima série.
Antecendentes sociais e familiares: -
Preferências amorosas: Ela adora um “amor malandro”.
Preconceitos: com crentes.
Manias: é cleptomaníaca.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: É briguenta, bocuda, fofoqueira e, ainda por cima, é hiperativa.
Necessidades: precisa sempre ter um namorado calhorda fora da vida da noite.
Objetivos: voltar pro Rio por cima da “carne seca” e achar seus pais.
Arrependimentos: queria ter sido uma filha melhor.
Rancores: de seus pais...
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: uma de suas características que transparece é que ela é dependente emocional. O ocorrido com seus pais a traumatizou permanentemente.
MADAME GUNDA
Idade: 36 anos.
Saúde: Ótima, é a mais saudável de todos!
Forma de se vestir: Sóbria, não chama atenção. Prefere os vestidos largos e com cores claras. Gosta de sandálias “rasteiras” e acessórios de materiais naturais. Não é muito fã dos metais.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Pegue a capa do disco “Ma” da banda Rare Earth, dos anos setenta e terá uma boa idéia do porte físico de Madame Gunda. Ela é enorme, tem quase um metro e noventa! Seus cabelos negros vão até os ombros, porém, ela só os usa presos em coque. Gunda é uma figura fenomenal, pelos seus olhos negros pode-se sentir a segurança de uma mulher que poderia te ajudar até se você batesse nela. É extremamente simpática, não daquele jeito de quem sorri o tempo todo e você acaba por duvidar de algo por trás do sorriso. Não! Ela é como uma enfermeira que tem o dom para a profissão.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: Gunda é a mais sensata de todas as personagens. Se ela fosse vereadora você votaria nela, ela é a confiança em pessoa. Fala no tom certo e, apesar de ser muito inteligente, não é pedante. Fala o que precisa.
História pessoal: (ver Ato IV, página 16, parágrafo 6.)
Nível educacional: É formada em Letras pela UNESP.
Antecedentes sociais e familiares: Gunda já chantageou um coronel nortista e ele se deu muito mal. Não se sabe muito bem da história, sabe-se só que ela é superprotegida em qualquer região do país.
Outra curiosidade é que Gunda é seu nome artístico, mas prefere usá-lo, afinal todos a conhecem por esta alcunha, que lhe rendeu dinheiro a vida toda. Seu nome original é Sílvia Amâncio Nobre.
Preferências amorosas: Inácio é a paixão mais avassaladora da vida de Gunda. O passado amoroso dela foi invalidado pela chegada dele e, além dele, não há mais estereótipos que possam superá-lo.
Preconceitos: Preconceitos???
Manias: Ela adora chiclete.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: Ela é desligada, mas não em demasia. É coisa de gente especial...
Necessidades: Precisa estar antenada com o mundo. Seu dia seria um inferno se não tivesse toda a quantidade de informações que ela consome.
Objetivos: Vários, entre eles estão a conclusão das obras de uma clínica odontológica na Zona Leste de São Paulo, que ela e Inácio estão construindo com a ajuda de vários empresários paulistanos; a formação da equipe médica que atenderá pacientes de SIDA na Nigéria e o lançamento do documentário que foi escrito, dirigido e produzido por ela.
Arrependimentos: -
Rancores: -
Características que podem prejudicá-la ou salvá-la: Apesar de Gunda ser muito respeitada e ser mestra em jogos políticos, os inimigos sempre vão existir...
INÁCIO
Idade: 36 anos.
Saúde: Perfeita.
Forma de se vestir: Inácio gosta de usar batas indianas, calças leves e sandálias de couro.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Ele é um belo anão, isso porque a natureza de seu nanismo é pituitária, fazendo com que tudo em seu corpo seja proporcional. Possui mais ou menos um metro e quarenta, cabelos negros e olhos azuis. É o padrão americano de beleza em miniatura.
Inácio é uma pessoa ética, correta e fiel à sua própria teoria sobre as relações humanas, desenvolvida por intermédio de uma privilegiada educação.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: Inácio possui uma fala bem pontuada e correta, mas quando está descontraído sabe animar quem está à sua volta com sua boa interpretação e sem precisar apelar para sua condição de nanismo pituitário.
História pessoal: (ver a página 16 do ato 4.)
Nível educacional: É formado em Artes Cênicas pela USP.
Antecedentes sociais e familiares: Inácio sempre trabalhou nas comunidades pobres dando aulas tanto para crianças como para adultos. Deu muitas palestras sobre motivação e, nunca, nunca para grandes empresários ou gente que quer arrumar formas de arrumar mais dinheiro do que já tem.
Preferências amorosas: Antes Inácio só saía com outras anãs antes de encontrar Gunda, porém, ia a puteiros de vez em quando, lugar onde não se encontram anãs. Apesar de ter experimentado muitos tipos de mulher, nenhum tipo chamava muito sua atenção, mesmo sendo ele um estereótipo de beleza. A Madame Gunda foi a que encantou Inácio definitivamente.
Preconceitos: De gente depressiva.
Manias: -
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: -
Necessidades: De ver todos à sua volta em bem.
Objetivos: Ah! Esse é o objetivo que vai ser ocultado até dele mesmo até o fim da peça.
Arrependimentos: De um dia ter se incomodado com o preconceito das pessoas. Se fosse assim até hoje poderia ter cometido uma besteira e nunca ter podido ter se aproveitado de sua condição física para poder ganhar dinheiro.
Rancores: De algumas pessoas a quem ajudou que, no final, acabaram por ridicularizando-o publicamente.
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: Se o relacionamento dele e de Gunda não der certo por algum motivo, isso pode desequilibrá-lo radicalmente, mas não a ponto de ele apelar para o suicídio (maior causa de morte entre anões no mundo e, disso ele tem consciência). Inácio tem amor pela vida e não tem problemas com o preconceito.
ISABEL
Idade: 18 anos.
Saúde: perfeita apesar da má-formação nos rins.
Forma de se vestir: Sainha, blusinha, chinelos, rabo-de-cavalo e grampos. Gosta de pintar as unhas e se maquiar. É uma menininha dos pés à cabeça.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Possui traços indígenas, é magricela e mede mais ou menos um metro e sessenta. Ainda não se acostumou com o novo corpo, pois acabou de crescer, então, às vezes, tropeça ou não calcula direito seus movimentos. Em seus gestos deixa transparecer muita jovialidade.
Seu hobbei preferido é assistir tevê.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: é muito insolente e rebelde. Seu vocabulário é escasso.
História pessoal: Nasceu no Acre, de um parto difícil. A parteira não sabia o motivo da febre que acometeu a mãe e nem se esta passaria. O pai sempre viveu de trambiques e nunca esteve presente, pois, além de tudo, Isabel não era sua única filha.
Isabel contraiu malária e tem má-formação nos rins, o que lhe rendeu alguns problemas que foram solucionados mais tarde.
Ela não estudou até completar sete anos, quando sua mãe veio para São Paulo à procura do ex-marido. O motivo desse atraso nos estudos é que a mãe a levava para trabalhar lavando roupa e, quando não o fazia, Isabel cuidava dos outros cinco irmãos mais novos. Estes não puderam vir para cá, pois a mãe achou que eram muito pequenos para engendrarem tal viagem e eles acabaram por ficar com uma amiga no Acre mesmo. Aqui em Sampa Isabel pôde ter o gosto de estudar, o que foi muito produtivo para ela (enquanto pôde). Mostrou ser muito inteligente e ávida pelo conhecimento, pena que foi por pouco tempo, pois sua mãe acabou por abandoná-la aqui. Depois disso Isabel não viu mais estímulo para continuar com os estudos. A mãe virou prostituta depois que achou o ex-marido. Parece que ficou desgostosa da vida, a cidade acabou por sufocá-la e, por fim, largou a menina aos escassos cuidados do pai que, por sua vez, arrumou um barraco para que sua filha se virasse. Nos dias atuais a mãe aparece raras vezes e nunca tem residência fixa. Isabel também não faz questão de procurá-la.
Nível educacional: Primeiro grau incompleto.
Antecedentes sociais e familiares: A casa da menina foi ponto de drogas por um tempo.
Preferências amorosas: Apesar de ter perdido a virgindade com onze anos e ter namorado muitas vezes (nada sério), ela ainda acredita no “príncipe encantado”. Claro! O que se pode esperar de uma menina?!?
Preconceitos: de playboys, roqueiros e os mais velhos.
Manias: Rói as unhas.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: Um de seus piores defeitos é que ela é analfabeta funcional. Outro fator que incomoda a menina é que, pelo fato de ela ser ignorante e sozinha tem muito medo de ser enganada, por isso, desconfia de tudo e de todos.
Necessidades: Sua necessidade escamoteada é o afeto.
Objetivos: Casar-se e ter muitos filhos com o “príncipe encantado”.
Arrependimentos: De ter matado um desafeto em companhia de outros traficantes.
Rancores: de um safado que ficou um mês na casa dela, apaixonou-a, prometeu “mundos e fundos” e depois sumiu levando dinheiro, drogas, utensílios domésticos e até comida.
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: Afeto e cuidado maternal pode lavá-la às nuvens.
MARLENE
Idade: 47
Saúde: Como Bira, ela fuma demais e está sempre ofegante, porém, também como ele, possui boa saúde.
Forma de se vestir: É muito extravagante. Usa unhas extremamente compridas e de cores chamativas. Adora decotes, bijuterias baratas e roupas meio antiquadas. O cabelo está sempre descolorido.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Sempre ereta e empertigada. Tem modos muito expansivos e exagerados, que animam seu corpanzil amarelo de oriental. Possui traços de vietnamita.
Às vezes, alterna entre altivez e o blasé. Ela é o tipo da lavadeira que um dia enriqueceu. Fala alto demais com sua voz de fumante inveterada. É muito pragmática, dedicada e responsável em demasia. Diz que “não tem tempo pra jogar fora com atividades que não vão trazer nenhum benefício”. Só ela não sabe que seu maior hobby é trabalhar e se sentir útil.
“Fidelidade” é a palavra principal no dicionário de Marlene. Odeia tudo o que for contrário à honestidade, pois ela é muito insegura.
Não gosta de estudos e não é muito fã de papear muito, por isso, seu senso de humor é meio ingênuo. Ela é meio vazia, não tem muitas opiniões formadas sobre coisas externas à rotina.
Conteúdo da fala: É a perfeita estrela do submundo. Adora falar baixarias num português não tão aprimorado.
História pessoal: Cresceu num bairro pobre. Teve mais cinco irmãos mais novos e apenas um mais velho, que morreu por complicações decorrentes da bebida. Fez o primeiro grau bem mal feito até a sétima e virou caixa de supermercado, depois foi atendente de bingo. Lá conheceu umas meninas que faziam programas de vez em quando. No primeiro convite feito por elas Marlene nem titubeou e, no mês seguinte, havia largado suas funções amparadas pela lei e pela carteira assinada. Foi amor à primeira vista, ela havia nascido pra aquilo.
Todos os irmãos deram-se relativamente bem na vida, contrariando as expectativas sociais. Desde pequenos as brigas eram freqüentes entre eles. Até o dia em se separaram por definitivo. Sua mãe era lavadeira, e seu pai, caminhoneiro. Dele ela apanhou demais, era o clichê do alcoólatra e frustrado. Quando ela saiu de casa sentiu-se libertada e estava dura como um pau para enfrentar o mundo que, para ela, é feito de guerra e vícios.
Nunca confiou em muitas pessoas, salvo, aquelas que caíram no seu gosto, tornando-se suas protegidas para o que desse e viesse. Namorou um traficante durante um tempo, dos 22 aos 26. Fora visitá-lo intimamente muitas vezes na prisão, até que um dia ele a ofereceu como um favor pra um colega de cela. Sofrera demais com ele e o romance que mantinha escondido com o Bira tornou algo sério quando da proposta que recebera na prisão. Ela nunca mais foi ver o traficante, nem ele a procurou depois que saiu da prisão.
Quando foi trabalhar no bar de Bira começou a acalentar certa admiração por ele e, por fim, se apaixonaram alucinadamente. Exatamente depois da noite em que não havia movimento nenhum e que Bira decidiu baixar as portas para que os dois pudessem se divertir à vontade.
Durante quase dez anos eles viveram relativamente felizes. Marlene passou a fazer programas só com mulheres e sempre gostou mais delas do que de homens (apesar de o Bira nunca ter sabido disso). Ela nunca teve problemas com drogas apesar de nunca ter tido muitos escrúpulos. Seu negócio era mesmo o sexo.
Nível educacional: Educação para Marlene é e sempre foi a das ruas. Ela nunca teve muito jeito nem estímulo. É agitada e pragmática demais pra se concentrar em alguma atividade que a mantivesse sentada por muito tempo.
Cursou até a sétima série e abandonou os estudos exatamente quando começou a ficar gostosinha, para ganhar dinheiro.
Antecendentes sociais e familiares: Envolveu-se em muitas brigas por causa de suas namoradas. Sempre foi muito barraqueira, adora uma boa briga. Já rasgou o rosto de um cara que mexeu com ela com uma garrafa. Ficou presa por vandalismo, entre outros artigos, como posse ilegal de arma quando uma puta, sua namorada, começou a sacanear ela e todas as outras suas colegas ficaram sabendo. Arranjou a arma com um cliente antigo e a encontrou num bar onde todas iam tomar cerveja nos períodos entre um programa e outro. Ela fez um escândalo lá dentro e o dono do bar, ao invés de acalmá-la, tirou um sarro da cara dela. Ela sacou a automática e atirou pelo bar inteiro. Quando acabaram as balas ela se atirou pra trás do balcão e, aos berros, começou a quebrar tudo lá dentro com as próprias mãos. Até na televisão isso apareceu. No tribunal seu advogado conseguiu um atenuante alegando insanidade...
Preferências amorosas: Mulheres e suingues, mas atualmente, ela se acalmou e, até onde se sabe, apenas o Bira é o seu passatempo.
Preconceitos: Não aceita os detentores da moral e dos bons costumes. Policiais, religiosos e gente do estado incomodam-na demais.
Manias: Compra tudo o que é novidade em termos de cosméticos e tem mania de perfeição no trabalho burocrático da Casa. Faz e refaz contas, checa várias vezes estoques e a limpeza de lá.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: É muito espalhafatosa, o que faz com que muita gente se afaste dela com medo do seu jeito. É impulsiva e atualmente está obesa. Se recusa a ir ao médico enquanto não tiver problemas mais sérios.
Necessidades: Cosméticos e trabalho.
Objetivos: No decorrer da peça, um deles se tornará prioridade.
Arrependimentos: Queria ter podido ajudar seu irmão que morreu. Sente muito, pois se acontecesse hoje, com ela mais experiente nesses assuntos, ele poderia estar vivo.
Rancores: Daquela namorada que a sacaneou. Guarda rancores amargos e até os dias de hoje ainda não se conforma de ter feito muito por quem valeu tão pouco pra ela. Deseja não encontrá-la de novo, pois é capaz de matá-la se isso vier a acontecer.
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: O caráter das pessoas é sua bússola e seu termômetro.
MIGUEL
Idade: 27 anos.
Saúde: meio fraca. Vira e mexe tem problemas respiratórios.
Forma de se vestir: o cabelo é pintado de azul, suas camisetas de bandas punks estão sempre velhas, usa calças de paletó xadrez, corrente presa à carteira que fica pendurada na alça dos cintos e tênis velhos.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: é curvado pra frente e seus pés são virados para dentro.
Tem movimentos lerdos.
Gosta de tudo o que pode trazer emoção e profundidade à sua vida. Não gosta dos produtos de cultura de massa, de qualquer natureza. Ouve e toca jazz quando está sozinho. Escreve muito e também vive às voltas com palavras-cruzadas.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: é presunçoso, discursivo, ousado, pedante e gosta de discursos inflamados.
História pessoal: Miguel sempre foi revoltado e sempre esteve envolvido com drogas. Cabulava aulas para ir cheirar cola...
Teve muitas bandas onde tocou guitarra e outros instrumentos. Fez fanzines. Começou a escrever na adolescência e nunca mais parou. Publicou dois livros que foram um verdadeiro fracasso.
Quando saiu de casa pulou de emprego em emprego, inspirado na vida de Bukowski, para sustentar sua arte. Vende livros de bar em bar nas regiões de maior burburinho boêmio. Nem é preciso dizer que seu aluguel está sempre atrasado.
Nível educacional: segundo grau completo, tendo repetido diversas vezes. Crítico ferrenho do sistema educacional, edificou-se à sua maneira.
Antecendentes sociais e familiares: Seus pais sempre tiveram problemas com ele. Foi internado uma vez, mas depois de “reabilitado”, voltou para as drogas com força total. Hoje usa-as sem exageros, quando acha que está na merda dá uma paradinha e fica só com a cerveja mesmo.
Fugiu de casa com uma namoradinha da época de quando tinha quatorze anos. Foi durante uma bebedeira de vinho e, não tendo para onde ir, voltou um dia depois de uma noite num terreno baldio em Pinheiros.
Preferências amorosas: gosta de mulheres inteligentes, mas idealiza demais a parceira ideal. Nunca arrumou namoradas por quase nunca achá-las ao alcance da sua sabedoria e conhecimento. Em decorrência disso sempre esteve metido em puteiros. Pode-se dizer que ele é meio desiludido e não acredita na possibilidade de um relacionamento estável.
Preconceitos: Odeia gente ignorante e novelas televisivas.
Manias: Está sempre improvisando com a voz, batucando com os dedos e tocando guitarra imaginária.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: Não consegue ter uma vida social saudável, é muito crítico e seus preconceitos muito abrangentes. É meio depressivo e genioso. Além de tudo isso o cara é meio feião também.
Necessidades: de criar.
Objetivos: Quer obstinadamente emplacar um best-seller no mercado editorial.
Arrependimentos: Muitos! Considera-se um maldito, mas considera a hipótese de que poderia ter alcançado seus objetivos da forma “correta” socialmente.
Rancores: com a Humanidade. Não se conforma de não ser aceito como um ícone da sua época.
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: A Arte é sua perdição e sua salvação. Haverá uma ruptura drástica em sua vida quando descobrir que não é um gênio, muito menos um mártir de porra nenhuma.
NICO
Idade: 33
Saúde: Indiscutivelmente perfeita.
Forma de se vestir: Quando está na Casa usa colete preto e calças pretas. Camisa branca com as mangas dobradas e gravata borboleta. Gel no cabelo, um brinco de argola dourado na orelha esquerda, com um tamanho um pouco maior do que o normal.
Usa um anel quadrado no dedo médio da mão direita. Lápis de olho suave, barba bem feita, unhas sempre com base (feitas pela Gracinha toda semana) e sapatos sempre brilhando. É uma bicha que se veste com garbo.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Nico é esbelto, possui cabelos negros e olhos também – firme e profundo olhar. Seus cabelos são meio longos e estão sempre jogados pra trás com gel finalizando em leves cachos quando chegam perto dos ombros.
Possui estatura mediana, por volta de um metro e oitenta. É dono de um rosto bonito e anguloso.
Anda como uma bicha altiva. É bem ativo, sóbrio e consciente nos movimentos. Suas mãos são como as de um prestidigitador. Sua fala é melódica e pende para os trejeitos afeminados, mas sem perder a masculinidade, o que lhe confere uma boa química andrógina.
Como um bom barista, adora degustar, aprender e fazer experiências com novos drinques. Toca clarinete, vai a exposições de arte, curte filmes Cult da escola alemã, italiana e espanhola, além da brasileira - principalmente da pornochanchada que vai dos anos sessenta e setenta até o começo dos anos oitenta; das adaptações de Nelson Rodrigues e de tudo o que viu com os “monstros” Hugo Carvana, José Wilker, Betty Faria, Dercy Gonçalves, Peréio, Marília Pêra, entre outros.
Adora raves e experiências psicodélicas. Livros de psicologia, religião, ciência e filosofia também estão sempre presentes quando ele quer passar o tempo.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: Seu linguajar é empolado e requintado. É um ótimo orador. Poético, dado aos êxtases repentinos. Adora metáforas e vez por ora usa jargões técnicos e científicos.
Seu tom de voz transita entre o efeminado e o “macho” (quando está bravo).
História pessoal: Vem de uma família de classe média. Em ambos os lados da família há embaixadores, gente que esteve envolvido com política e arte. Um de seus tios é escritor e mora em Barcelona. Tem uma prima que se apresenta no Cirque de Soleiul e que manifestou seu dom com cinco anos. Seu pais sempre estimularam os filhos a buscarem a felicidade onde quer que estivesse.
Passou uma infância calma entre suas duas irmãs (que se dá muito bem até hoje apesar de não se verem muito, a não ser nas festinhas que ambos organizam em casa pra reunir a família).
Aos dezoito anos perdeu a virgindade com um vizinho na área de serviço da sua casa, à tarde, enquanto seus pais trabalhavam e suas irmãs estavam no colégio. Depois disso, apesar de só se relacionar com homens, gostava de transar com suas amigas de vez em quando. Para ele este ato, o de transar com meninas de vez em quando, acontece como se fosse homossexual, hétero é ele transar com homens.
Nicodemus fez faculdade de Artes Cênicas e trabalhou em rádio por algum tempo pra pagar a exorbitância que era cobrada pela sua faculdade. Quando terminou resolveu ir viajar. Ficou um tempo na Itália, na França e na Holanda fazendo várias coisas por lá. Quando voltou ao Brasil foi trabalhar em um grande hotel chique e lá começou a namorar um barman que, com ele, Nico pegou o gosto pela arte de fazer drinques exóticos. Com o dinheiro do seu esforço montou seu apartamento.
Bira conheceu Nico pela internet e neste viu a personalidade ideal que poderia lastrear a “cara” da Casa de Chá. Ele se tornara a alma da Casa de Chá e, por muitos anos, foram as performances da sua psicologia lasciva que atraiu muita gente pra lá, além dos fantásticos drinques temáticos que produzia.
Nível educacional: É bacharel em Artes Cênicas. Fala e escreve em inglês e em Espanhol com perfeição. Já no Francês diz ele que pode se virar bem, que não passa vergonhas homéricas.
Antecendentes sociais e familiares: Nico já foi conhecido entre os que são da área do Teatro. Ajudou a montar uma companhia na Itália e até hoje recebe em sua casa muita gente de lá. Não são poucas as propostas para que ele volte.
Preferências amorosas: Gosta de homens inteligentes e desinibidos e, de preferência, da área artística; só que hoje em dia está sossegado, feliz em estar sozinho e longe dos problemas das quatro paredes e das ligações não atendidas.
As amigas mulheres são um tema à parte no quesito sexo para Nico. Ele gosta de transar com amigas íntimas, e, por incrível que pareça, elas gostam disso também, afinal, para ele, amizade íntima envolve sexo.
Preconceitos: poucos.
Manias: É muito contemplativo, passa a maior parte do tempo viajando.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: Às vezes perde o contato com a realidade (acho até que o cara é meio esquizofrênico...). Não tem nenhum tato para lidar com qualquer coisa relacionada à matemática ou aos esportes. Não suporta autoridade exagerada ou rigidez.
Muitas vezes extrapola e comete muitas gafes – principalmente quando está bêbado. Mas é bem seguro de si.
Necessidades: Precisa de platéia e tempo para si. (É claro que as duas coisas estão relacionadas, uma vez que ele tem sua platéia interior.)
Objetivos: Só os de curtíssimo prazo.
Arrependimentos: -
Rancores: -
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: Se for obrigado a levar uma vida rígida ou de ter de viver com pessoas ou autoritárias morreria.
PALOMA
Idade: 34 anos.
Saúde: tem ovários policísticos e é levemente míope, porém não usa óculos. É côxa, mas esse defeitinho é quase imperceptível (não fosse seu andar debilitado pelas drogas).
Forma de se vestir: usa cabelos coloridos, roupas brilhantes, chocantes e sensuais. Usa piercings em vários lugares, com correntinhas e usa tatuagens aos montes. Ela faz o estilo “dirty-glam”.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: alta (1,78), cabelos castanhos e olhos esverdeados. Tem aparência de alguém do Leste Europeu.
Exala ebriedade e sexo. Frenética, sua personalidade concentra duas características explosivas: ela é ninfo-toxicômana. Tipo de mulher chocante e notória. Adora encarar as pessoas, seduzi-las pelo olhar. Quem a vê sabe na hora que se trata de uma junkie. Seu andar é serpenteante. Todos os seus hobbies são ligados ao prazer. Ela é a própria serpente da perdição! É uma doente!!
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: maliciosa, viaja e delira, perde o limite da coerência, usa todo tipo de expressões carnais. Há uma vivacidade tóxica nela, uma energia vital inclinada para a destruição.
História pessoal: Saiu fugida da FEBEM e não conhece seus pais. Morou em um prédio abandonado com punks e, depois de adulta, foi presa por tráfico de drogas. Esteve envolvida em uma fuga quando faltavam seis meses para sair. Foi morar com amigas prostitutas e foi recapturada. Cumpriu um ano e foi solta. Daí em diante ficou na noite de vez.
Quando era “de menor” transava com um padre por dinheiro, comida e abrigos eventuais até tudo isso dar no saco dela.
Nível educacional: Estudou até a oitava série dentro da FEBEM.
Antecendentes sociais e familiares: Teve uma época em que ganhou dinheiro fazendo filme pornô. Havia um orelhão perto do prédio onde ela morava em que sempre encontrava anúncios de recrutamento de atrizes. Daí ela conheceu o Grilo, que trabalhava com isso e sempre arranjava uns filmes pra ela. Ganhou dinheiro com isso por um tempo...
Preferências amorosas: Amor?!? Ela é viciada em sexo!!! seja com homem, mulher, animal ou grupal.
Preconceitos: adora temas subversivos, festas rave e shows de punk. Adora Stooges.
Não gosta de tudo o que “transmita baixa-frequência”, isto é, tudo o que é moroso. Por isso nunca teve muita facilidade com qualquer coisa que exigisse muito de sua concentração.
Manias: Corta-se de vez em quando, principalmente quando acaba de acordar e não está de ressaca.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: é completamente destituída de compaixão, é muito inconseqüente, tem dificuldade em se concentrar e ignora qualquer sentimento que não seja o prazer.
Necessidades: Emoções fortes.
Objetivos: -
Arrependimentos: -
Rancores: -
Características que podem prejudicá-la ou salvá-la: Essa não tem salvação...
RICARDO
Idade: 27 anos.
Saúde: Homeostático, sua pressão é levemente baixa.
Forma de se vestir: Camiseta, calças jeans e tênis.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: É meio gordo, possui um olhar meio idiotizado, o tipo bobo-alegre e tem cabelos castanhos.
Ricardo gosta de ficar na frente do computador usando o MSN e o Orkut para xavecar qualquer tipo de mulher que caia na sua tela. Além disso é viciado em videogame.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: É um tipo galanteador de meia-pataca, que usa linguajar ordinário, daqueles que adoram uma frase pronta.
História pessoal: Nasceu em uma família de classe-média. É filho único. Depois do colégio e fez curso técnico de Eletrônica. Tem uma vida sossegada, trabalha apenas para garantir sua cerveja. Permanece assim até os dias atuais.
Nunca namorou muito, para dizer a verdade namorou apenas uma vez. Era uma moça correta, que acreditou no potencial dele achando que ele ia pra frente. Pois é, não foi... No meio do namoro ele deu um golpe na Previdência Social, o que lhe garantiu um salário mínimo por pelo menos três anos. A partir desse dia o cara deixou de cortar os cabelos, as unhas e a barba. Desse jeito acabou por espantar a moça de sua vida. Não foi uma grande perda para ele. Aliás, qualquer coisa que ele perca não é uma grande perda para ele...
Nível educacional: Segundo grau técnico.
Antecedentes sociais e familiares: Teve um envolvimento com tráfico internacional. Foi convidado a carregar meio quilo de cocaína para a Europa por mil euros. Ele foi até a metade do caminho, pois quando as passagens já estavam compradas ele desistiu e inventou uma ótima desculpa para os traficantes, que nunca mais o procuraram. Ele não sabe por que fez isso, não soube que era para ser ele ali quando viu a notícia de uma grande apreensão no aeroporto, e que o “boi-guia” que apareceu na televisão enquanto ele jantava era vizinho seu.
Preferências amorosas: Qualquer mulher disponível, porém, para namorar, prefere as corretas.
Preconceitos: Com gays.
Manias: Computador e videogame.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: Falta-lhe inspiração na vida, além disso o cara é muito ingênuo.
Necessidades: Entretenimento.
Objetivos: -
Arrependimentos: -
Rancores: -
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: Ricardo é um cara que está completamente à mercê das circunstâncias. Ainda não sabe onde pode chegar quando começar a tomar atitudes na vida.
SABINE
Idade: está na casa dos trinta.
Saúde: debilitada pelas drogas.
Forma de se vestir: Anda completamente largada. Usa piercings e tatuagens e é dona de um estilo bem decadente. Combina com a maquiagem borrada, o salto quebrado e as unhas descascando.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Sua postura lhe confere um aspecto cansado, pois seu corpo se projeta para a frente. Seus cabelos estão sempre ocultando os olhos perdidos. Seu andar é cambaleante e seu ritmo é estuporado.
Gosta de desligar o cérebro na frente da TV, de preferência chapada. Adora uma banheira e, como a Rê Bordosa, poderia ficar o dia inteiro em uma, saindo apenas pra comer, encher o copo e voltando logo após. Tem um jeito apático, não gosta nem desgosta de ninguém. Também não gosta de fazer nada que exija esforço. Alguns temas, como Arte, a atraem, mas ela não se inspira. Até conversar sobre isso a deixa cansada.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: Costuma balbuciar e não falar. Sempre tem um impropério na manga e vive disparando contra tudo e todos. Seu senso de humor é péssimo.
História pessoal: Sempre foi uma patricinha. Fez o colegial e era uma aluna regular. Foi meio hippie nessa época e andava com um pessoal envolvido com partidos políticos, até se filiou ao PSTU (sem muito engajamento, claro) antes do Governo Lula. Quando saiu do colégio fez um curso de fotografia e virou free-lancer de jornais pequenos. Andava com muitos artistas e universitários. Com vinte anos saiu de casa para ir morar numa república.
Dava para quem viesse. Morou por muito tempo em uma república na Vila Madalena e sempre poderia ser encontrada nesse perímetro. Todas as noites ia pra casa de um. Da sua turma passou pela mão de quase todos.
Sabine ficou lesada por causa de tanta droga que usou. De três em três meses ia a um psiquiatra trepar em troca de receitas. Entrou na putaria à partir do momento que achou divertido cobrar para a fim de trepar. Ela não é uma puta tradicional, faz programas com quem bem entende e anda do jeito que quer...
Nível educacional: Completou o segundo grau, passou em História na USP e cursou só até o segundo ano. Os planos de voltar a estudar são remotos, como diria a nossa “mariposa”: “Pode ser que sim... pode ser que não... depende do meu humor.”
Antecendentes sociais e familiares: Seus pais são hippies “das antigas”. Sempre quando vai visitá-los leva um baseadinho...
Preferências amorosas: Homens pseudo-intelectuais.
Preconceitos: Odeia gente fresca.
Manias: põe o dedo no nariz sem muita cerimônia e rói a unha.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: Ela é frígida, desvaloriza qualquer tipo de vida e perdeu a capacidade de memorização.
Necessidades: Precisa de som alto para preencher o vazio da sua mente.
Objetivos: -
Arrependimentos: -
Rancores: -
Características que podem prejudicá-la ou salvá-la: Um dia pode morrer por causa dos coquetéis narcóticos que ingere, isso por desvalorizar a vida.
SÉRGIO
Idade: 46 anos.
Saúde: Boa, só está fora de forma.
Forma de se vestir: Costuma usar camisas por dentro de calças de terno escuras. Não se adorna nunca.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Sérgio é uma pessoa apática. Além de parecer ser desprovido de emoções, Sérgio costuma emitir opiniões e observações vazias. Fala só quando é necessário. Parece estar sempre cansado. Se olhar bem nos olhos de Sérgio pode-se ter a ilusão de que algo poderoso e perigoso pode saltar dali, pode ser um criminoso ou uma drag-queen.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: -
História pessoal: Foi adotado e sempre foi tratado como inferior pelo seu pai, apesar de Sérgio idolatrá-lo. Sua mãe era lasciva e os dois costumavam transar no mesmo quarto que ele, só que de luzes apagadas. Sérgio tinha quatro irmãs bem maldosas.
Ele sempre foi apagado. Nunca se sentiu à vontade para mostrar-se para as pessoas. Foi à Igreja desde sempre.
Sérgio fez uma faculdade particular de Análise de Sistemas e, quando chegou a hora, conheceu Rosália, sua esposa, por intermédio de seus pais. Foi quase obrigado a desposá-la.
Nível educacional: terceiro grau completo.
Antecendentes sociais e familiares: Seu pai costumava a fazê-lo confessar pecados que nunca cometeu. Por exemplo: se, por acaso, assistia a um comercial onde havia mulheres de biquíni, seu pai o induzia a pensar que ele tinha sentido tesão. Sua cabeça sempre foi meio confusa por causa desse tipo de educação que recebeu.
Preferências amorosas: Esse é um tema nebuloso na cabeça de Sérgio.
Preconceitos: De drogados, roqueiros e prostitutas.
Manias: Martiriza-se das formas mais sutis e pelos motivos mais irrelevantes.
Defeitos, falhas e problemas internos ou externos: -
Necessidades: Precisa de alguém que mande nele, precisa ser submisso, isso lhe dá tesão, motivação e rumo.
Objetivos: Purificar-se e adquirir o perdão divino.
Arrependimentos: De ter ido a um puteiro quando adolescente.
Rancores: De suas irmãs “libertinas”.
Características que podem prejudicá-lo ou salvá-lo: Só poderá ser salvo quando desligar-se de sua religião.
THOMÁS
Idade: na casa dos vinte, entrando nos trinta.
Saúde: perfeita.
Forma de se vestir: É sempre encontrado com a barba por fazer. Suas roupas incluem a camiseta, a calça jeans (ou o bermudão) e os tênis. Usa relógio. É um tipo típico paulistano que não tem muita frescura ao se vestir. Às vezes usa boné.
Porte físico/postura/aparência/movimento/ritmo/jeito/o que gosta e o que não gosta/hobby: Ele anda como um surfista. É forte, mas não musculoso, seu corpo é atlético. Seus cabelos são castanhos, a pele morena (feições de índio e até de negros), olhos verdes e tem uma tatuagem de uma cobra no braço esquerdo.
Nos movimentos pode-se dizer que é “ligeiro”, porém, contido e cônscio dos seus gestos.
Adora conhecer meninas - um eterno xavequeiro –, fazer negócios pela internet, pescar com os amigos e ir dançar em boates. Adora carros e temas ligados a computadores.
Conteúdo da fala/ritmo e impostação: usa muita gíria. É mediano em seus conhecimentos. Não é muito dado fazer discursos e, por isso, nunca foi um ás da oratória. Prefere as piadas e não se aprofunda muito nos assuntos. Detém-se, na maioria das vezes, aos fatos mais do que nas teorias, porém, tem suas opiniões bem sólidas e fundamentadas. Não dá bola fora!
História pessoal: Nasceu numa família de classe média baixa de pais divorciados, sendo que não teve muito contato com o pai. Trabalhou no shopping (numa loja de roupas), foi assistente administrativo e montou uma loja virtual de camisetas que ele próprio estampava. Hoje é técnico de computadores e mora com a mãe.
Sempre foi das baladas. Namorou a vida inteira, mas nunca foi fiel. Sempre esteve em todas com Grilo, Ângelo e Miguel, amigos inseparáveis de infância.
Nível educacional: tem o segundo grau completo.
Antecendentes sociais e familiares: Sempre teve uma vida pacífica com todos os que o cercam. Nunca teve fatos muitos relevantes em sua vida.
Preferências amorosas: Ama todas as mulheres só que é inatingível no nível íntimo.
Preconceitos: Não curte e sabe pouco sobre política ou temas relacionados às Humanas. Seu lance é as Exatas.
Manias: é meio hipocondríaco, mas adora uma droguinha.
Arrependimentos: ter experimentado o crack.
O Palco da Casa de Chá
O palco da Casa de Chá está decorado da seguinte maneira: A parede do fundo é toda espelhada, de forma que várias tiras compridas de espelhos partem da parte superior do meio da parede e vão transversal e descendentemente até as extremidades esquerda e direita. Há três espelhos ovais simetricamente posicionados, sendo que um deles fica exatamente no meio da parede. Eles partem de uma altura de mais ou menos um metro e noventa encima e vão até, mais ou menos, uns quarenta centímetros do chão. As larguras são de, mais ou menos, sessenta centímetros.
Acima do espelho central vê-se o logo de neon da Casa de Chá e, mais acima, o telão.
Ao lado do primeiro espelho (o da direita de quem vê do público) há o balcão do Nico. Atrás do balcão a parede possui estantes com garrafas de bebidas variadas que acaba na porta do escritório de Bira e Marlene, encostada na parede direita. Encima do balcão há apenas um microfone com pedestal para este fim.
Na frente do balcão e ao lado estão dispostas banquetas e, mais à frente, uma mesa de ferro com três cadeiras, também de ferro. Exatamente ao lado direito dessa mesa, encostada na parede esquerda, há uma poltrona de couro que tem dois lugares.
Ao lado da porta do escritório, na parede esquerda e antes da poltrona, há uma porta que dá acesso à Casa de Chá.
Do lado direito do balcão, na parede dos fundos, há a porta do banheiro e, ao lado dela, o palco dos Meus Meninos (com os instrumentos dispostos ali), conjugado ao palco cenográfico, onde está o “magrão”.
O “magrão” tem uns dois metros de altura. É fixado no chão e, acima, por uma barra de ferro ornada com ramos de rosas vermelhas enrolados. Essa barra fixa-se por trás da parede direita. Mais à frente, na parede direita, vê-se a porta que dá acesso aos quartos e, do lado dela, outra poltrona (igual a que está exatamente à frente, na parede oposta). Na frente poltrona e - para quem está no público - na frente do palco cenográfico, vê-se outra mesa de ferro.
No “teto” da Casa e bem encima do “magrão” tem uma bola espelhada, iguais àquelas das casas noturnas.
O Palco do Bar do Adalberto
As mudanças para o Bar do Adalberto são essas: Quando o palco fica escuro um pano de fundo, pintado com uma típica decoração de boteco, se desenrola cobrindo a parede dos fundos. O balcão permanece inalterado. Na frente do palco dos Meus Meninos e do palco cenográfico cai um pano onde estão desenhadas portas de toaletes feminino/masculino.
No lugar das poltronas e da mesa de ferro entra uma mesa de sinuca que, estarão devidamente providos de rodinhas com travas embaixo.
PRIMEIRO ATO
“O Rendevouz”
(A peça inicia em silêncio e na escuridão, apenas com as inscrições no telão: “Porque todos os que sem lei pecaram sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram pela lei serão julgados.’ (Bíblia “Romanos” Cap. II/ver. 12).”
Quando as inscrições se apagam (fade-out) o nome do ato, “O Rendevouz”, é mostrado e, depois, a luz do palco foca em Ângelo que está na frente do espelho se arrumando: penteando-se, passando perfume, desodorante, pondo um casaco, etc. (O espelho é o mesmo da parede do bordel só que o foco da luz dá a impressão de ser só um pequeno espelho de quarto).
A seguir é descrita a sequência de imagens que se desenrolam no telão, conforme o timming e a letra da música, que é cantada por Ângelo “em seu quarto”.)
Q
Vê-se o sinal de “pare” indo para o “siga” do semáforo de pedestres.
uinta-feiraGanhei alforria
Sou quem quiser:
B
A placa de indicação da rua Augusta.
arba crescida,Sorriso rasgado,
Cigarro de lado...
M
Skatistas andando na frente do Banco Safra e pessoas sentadas no degrau.
e esquece,Não tô controlado.
Ângelo se vira para a platéia e canta virado para ela. Seu canto é como se fosse uma confissão.
Aquele escritório
É meu cativeiro
Com gente sem alma,
Sem drama ou paixão.
Ô, pai, me perdoa
Meu lance é no bar
S
O telão exibe o trajeto de alguém andando pela Augusta num típico final de semana agitado (câmera na mão).
eu lance é um saco.Amanhã não trabalho!
Preparo um drinque
E saio ansioso.
A
Ângelo continua cantando enquanto o telão mostra seu trajeto até a Casa de chá. Vê-se o trânsito, os bares lotados...
rua molhada,O néon me inspira.
Meu dia foi foda,
N
No telão as mãos dele aparecem cumprimentando os leões de chácara da Casa de Chá. Lá dentro a câmera faz um pan na casa e termina focando o néon com o logo da casa se acendendo junto com o néon real, do palco.
inguém me seguraVou pra Casa de Chá
E
O foco ainda só se concentra em Ângelo, apenas o logo em néon da casa de Chá do Palco se acende.
eu durmo por lá.
A mesa tá cheia
Amigos de infância,
P
As luzes do palco se acendem mostrando a cena descrita a seguir.
arceiros de copo,Irmãos no amor.
No papo de bar
O mundo é lá fora
Com guerras de Deus
E musas de plástico.
(A música cantada por Ângelo, quando termina em fade-out, será substituída por uma, de uma série desenvolvida apenas para as partes que não são cantadas ou interpretadas pelos atores. Essas, as que darão o clima-ambiente, deverão ter um ritmo de Ciberpunk, que permite a execução de improvisos de outros instrumentos (como a guitarra, baixo e teclados) encima da batida eletrônica e, uma sutil gravação de vozerio, comum dos bares paulistanos lotados. As partes onde não haverá a execução musical serão apontadas no texto.
A iluminação descendente que predominará em todo o espetáculo abrange ribalta inteira, com exceção de uma iluminação ascendente proveniente de dentro do balcão e do palco cenográfico, que serão mais fortes. A iluminação predominante precisa criar um clima de boemia. Será constante, também, a luz refletida daquelas típicas bolas espelhadas que há em salões de casas noturnas.
Gracinha está dançando no magrão, Ana está conversando no bar com o Nico, Paloma está dançando na frente de Sabine que está sentada na poltrona com um copo de qualquer coisa e Ricardinho está assediando Gracinha.)
Ricardinho – Gostosa. Tesão. Se eu te pego hoje ...
Gracinha (ousada) – Tem dinheiro? Então não come.
(Ela oferece a bunda pra ele passar a mão e tira logo. Depois faz um muxoxo e “não” com o dedo.
Os rapazes estão na mesa quando, ainda com os acordes finais da música, Ângelo cumprimenta-os e se senta.)
Thomás (inspirado) – Hoje caiu o pacote da empresa na minha conta.
Miguel – Vai fazer a presa então.
Ângelo – Ceeeeeerto!!!!!
Miguel – Pede outra aí.
Thomás – Nicooo!! Manda outra breja e um copo com limão e sal.
Miguel – Hoje eu desencanei de vender, cara. Tô de folga.
(Nico vem com os dois copos: um pro Ângelo e o outro com limão, além do saleiro. Enche o copo com sal, dá uma bicada e, em seguida um gole de cerveja.)
Nico (terno) – Oi, Anjinho! Tudo bem?
Ângelo – Tudo beleza, Nico?
(Ângelo beija a mão de Nico. Entra Bira.)
Ângelo - Olha quem tá chegando aí!
Bira entra perguntando em voz alta – Cadê Marlene?
Nico – Mandou dizer que foi ao banco.
(Bira cumprimenta os rapazes.)
Thomás - Grande Bira! Esse aí vai desbancar o Rui Chapéu.
Miguel - E aí, Bira, quanto você faturou hoje?
Bira (com indignação irônica) - Pô, se não fosse a avareza da Marlene eu já teria recuperado os 70 paus que perdi na sinuca! (risadas)
(Bira se apóia na mesa dos caras pra falar mais de perto.)
Bira (segreda) – Não sei que raios essa mulher faz com o nosso dinheiro de todas as noites. Mulher é foda! Aquele cabelo tá sempre loiríssimo, aquela unhona sempre pintada, a japa tá sempre perfumada e na estica enquanto o caixa da Casa vai pro saco!
Ângelo (em tom de escárnio) – Ih, Bira, você não gosta da sua menininha cheirosinha só pra você?
Thomás – É Bira, toma cuidado, hein! Um dia dá a louca na mulher e ela se arruma com um coroa aí e já era...
Bira – Que nada! Acho que ela deu pra gostar é de mulher! Todo dia tem uma lá em casa e, nós dois ó, que nem irmão: dorme um pra lá e outro pra cá. Não sei não... (risadas).
(Marlene sai dos quartos e atravessa o palco rumo ao escritório.)
Bira (apressado) – Olha ela aí. Espera aí, galera que é agora ou nunca. Vou tratar de negócios que afinal meu nome é que está em jogo.
(Bira vai até Marlene e ela nem pára para conversar, está toda apressada.)
Bira (suplicante) – Ô, meu amor. Nem um beijinho de “oi”? Pô, olha o que vinte anos faz com o amor. É por isso que nosso negócio é bom né? Todo dia tem mais marido sem beijinho de “oi” aqui.
Marlene (ríspida) – Bira vai passear, vai. Depois eu dou um trato em você.
Bira insiste – Marlene, é sério!
Marlene (irônica) – Você nunca foi sério, meu bem!
Bira ameaça – Ah é? Eu vou aprontar hein!
Marlene – Vai ver se eu estou na esquina.
Bira avisa – Ooooolha! Eu vou aprontar com você, hein!
Marlene ameaça com o dedo em riste – Óóóóóóó...! Vê se me erra, Bira!
(Bira volta-se para os rapazes.)
Bira – Alguém me empresta setenta?
Ângelo (irônico) – Você não quer trezentos não?
Bira (desiludido) – Vocês estão me zoando. É sério! (assume uma postura inquiridora) Vocês vêm pro puteiro sem porra nenhuma no bolso? É só pra chimbar?
Thomás – Desencana, Bira. Na semana que vem a gente faz uma presa pra você. (desconversa) Mas vem cá: eu sei que você é um gênio das fantasias.
Bira justifica-se incisivo – Não, meu chapa, sou só um empresário sensível às necessidades do mercado.
Thomás – Eu desafio você a realizar uma fantasia minha.
Miguel (irônico) – Com tanta mulher por aí e você quer logo o Bira, velho?
Thomás – Calma, meu filho. Escuta só.
Bira – Sei, qual é a loucura dessa vez?
Thomás fantasia – Imagina eu falando ao telefone, nu, um bode lambe meu saco enquanto eu mijo na cabeça dele.
Miguel (desacreditado) – Puta-que-o-pariu!
Ângelo – Você é um animal mesmo.
Miguel (interessado) - De onde você tira essas coisas?
Bira – Daí você curra o pobre aí eu tô fodido. Imagina se eu quero um bode homo seguindo os clientes daqui mendigando uma enrabada. O seu é um caso sério, ô, Thomás! Pede pra uma doida fazer isso com você!
Ângelo – Isso! Passa geléia de framboesa no saco.
Thomás – Ele vai comer seu saco!!
(Todos estão às gargalhadas.)
Miguel (em tom de sacanagem) – Vai, Bira! Vai que nosso amigo vira o lendário “monoball”, conhecido e temido por toda a cidade? (todos riem muito)
Ângelo (rindo) – O bode vai comer sua bola!
Miguel (rindo) – Você é uma inspiração pra mim, sabia?
Thomás – Bira, você precisa atualizar seus serviços, cara. Você já entrou na internet? O que era tara antigamente hoje é “feijão com arroz”!
Bira (ousado) – Filho, quando eu abri meu negócio nunca imaginei que iria trombar com insanos como você.
(Ângelo canta um trecho de Cazuza) – “Você nunca sonhou em ser currado por animais...”
Thomás – Tudo bem. Vou propor algo fácil. Você conhece alguma mutilada? Sem uma perna, ou uma indefesa, sem os braços?
Ângelo – Ah, vai se foder!
Miguel (irônico) – O que você acha de um cadáver? Vamos invadir um necrotério, cara! Eu iria me divertir levando a criança ao parque de diversões (todos riem).
Thomás (esperançoso) – Eu ainda vou achar uma que mije gozando. Sentir o corpo convulso e o quentinho nas coxas... Deve ser o paraíso.
(Marlene passa de novo apressada e Bira vai atrás.)
Bira (ansioso) - Amor!
(Marlene nem olha pra ele.)
Bira – Eu ainda vou arrumar essa grana hoje!
(Bira sobe no balcão do Nico.)
Bira (quase desesperado) - Mazinha!!!
Marlene (brava) – Desce desse balcão já! Tá querendo queimar o filme da Casa, é?
Bira (suplicante) – Não, eu só quero amor e compreensão.
Marlene – Que “mor”, que nada! Se vira, eu não sou banco!!!
Bira (tenso) – Agora eu fui desafiado.
(Bira desce do balcão, cambaleia até o microfone e manda.)
Bira - Nico eu tenho um comunicado importante.
Thomás – Esse Bira é foda! Velho, olha isso!
Bira – Ré maior, por favor.
(SAMBA MELÓDICO)
Ô, loira eu preciso de um trago
Que o papo exige atenção.
Cê sabe que nesse negócio
O estresse é muito e eu já ansião...
Ô japa, o nosso amor
Salvador, é antigo, cê sabe
E eu nunca te deixei na mão.
Agora eu preciso de ajuda.
Ô, minha rainha, é difícil
Ter que apelar pra você,
No duro encargo da Casa
Enquanto eu sou errepê.
Ô, loira, o negócio é o seguinte,
Preciso de um pra investir
Num sonho antigo, entende?
Que não dá pra esperar.
Ô, linda, eu sei vacilei
Deixei o jogo me levar.
Mas eu sempre fui seu parceiro
Não pode nem reclamar.
Ô, babe, você é um anjo
Eu vejo você num altar
E todos a quem ajudou
Um dia vão te exaltar.
Meu bem, essa é minha chance
De ver minha dama feliz
E a Casa de Chá no circuito
Mais quentes do nosso país.
Marlene, eu confio em você
Só setentinha agora
Depois eu te pago o jantar.
Eu juro, vou te reembolsar.
Agora eu vou pra labuta
No bar do Adalberto, que tem
Un clientes que aguardam
E um acordo pra celebrar!
(Bira ainda no palco se declara e aproveita o efeito da demonstração.)
Bira – Amor da minha vida, me empresta uma graninha?!?
Alguém grita no meio dos aplausos – Vai, Marlene, ele merece pelo show.
(Marlene está estacada no chão soltando lufadas de fumaça pelo nariz. Está de braços cruzados e puta da vida. Quando Bira termina, ela põe as mãos no rosto olhando pro chão. Bira caminha até ela de braços abertos. Ela tira o maço de dinheiro do soutien e entrega-o ao Bira.)
Marlene avisa (vencida) - Vai, vai logo! Vê se não bebe todas e dorme no meio da rua! Além de dar vexame o cheiro que você traz de lá impregna a cama aí eu tenho que pôr o colchão no sol por uma semana.
Bira (agradecido) – Você é meu tudo, mulher!
(Bira sai. A música recomeça em altura ambiente. Marlene vira-se para Nico.)
Marlene (angustiada)- Nico, você viu se a Sabine já chegou? Porra! Gerenciar puteiro sozinha é foda. Daqui a pouco vou ter que chamar menina na rua!
Por que as esposas têm de cuidar do trabalho sujo sempre?
Nico atenuando o estado de espírito de Marlene – Marlene, meu amor, a maioria desses “ramón” aí nem vão subir com a toalhinha...
(Os caras da mesa entram na conversa.)
Thomás – E aí, Marlene, quer me contratar pra ser gerente? Pode me pagar em mercadoria.
Marlene – Você é safado! Do jeito que você é iria acabar com as minhas rolinhas e o Marlenão aqui iria parar no meio da merda! O Bira é que devia me ajudar, ao invés disso ele só me arruma enrosco com o jogo.
Miguel – É, o Bira saiu daqui inspirado. Parece que o esquema hoje vai ser importante.
Ângelo (jocoso) – É Campeonato de Pôquer Pornô! (risadas)
Marlene – É nada! Aquele canalha deve estar enchendo a cara e jogando em algum videobingo clandestino por aí, ele conhece todos. No final vai acabar do mesmo jeito: mamado e carente.
Thomás (provocativo) – Ih! Acho que alguém está com ciúmes do seu bodão...
(Marlene dá de ombros com um sorrisinho de escárnio, como se dissesse “você nem imagina o quanto eu estou preocupada...”)
(Ela se retira e o papo na mesa continua.)
Ângelo confessa – Cara, eu não agüento mais. Preciso arrumar minha vida vazia. Passo meus dias hipnotizado por aquela rotina. Os pequenos processos do dia-a-dia fazem eu me sentir incapaz de realizar coisas mais profundas e importantes pra mim. Fico me sentindo um macaco amestrado fadado a cumprir o resto dos meus dias nessa prisão existencial.
Miguel – Bem-vindo ao clube! Só nós, os iluminados, temos a consciência do quão mecanizados e sem coração está ficando a humanidade. De alguma forma é isso o que nos trás aqui toda quinta-feira. É a paixão que nos move.
Thomás – Mas o trampo com o seu pai não paga a sua breja, cara? Tudo tem o seu preço, velho. Taí a Gracinha pra confirmar. Diz aí, graça da minha vida, fala pra ele o que vale à pena;
Gracinha sentada no colo do Thomás fala em um tom sensual – Vale à pena pagar um drinque pra Gracinha e subir com ela de toalha e sabonete. Deixar ela rebolar na sua cara, dar uma encaixadinha, ver ela gemer como se fosse uma cabritinha...
Thomás (expansivo) – Ô, mulher maravilhosa! Toda a filosofia do mundo se encerra nela.
Miguel – É, Ângelo. Não é isso o que eles pregam tão veementemente na TV? “Arrume dinheiro e você vai ter sexo e status. Case-se, tenha filhos, massifique e não pense. Só consuma mais e mais.” O problema é que a supra-consciência também pode corromper a cabeça de alguns mais desavisados, né Nico?
Thomás (nostálgico) – Putz, o cara certo era o Grilo. Lembra quando ele quis rifar entradas de cambista pra um jogo de final de campeonato pra poder beber mais?
Miguel (saudoso) – O cara rifava de tudo aqui dentro e o Bira não podia nem reclamar, afinal, a maioria dessas minas foi ele que trouxe pra cá.
Ângelo – É verdade... Imagina, ganhar a vida que nem ele. Só ele mesmo.
Thomás – A gente pode ser ousado pra cacete, mas só o Grilo tinha as manhas pra viver de roteiro, direção e produção de filme pornô.
Miguel – Pode crer. Fora o resto, né...?
(Nessa hora Miguel se levanta e se debruça no balcão. Provavelmente vai pedir um papel ou uma música. Nico fala ao microfone com trilha sonora por trás.)
Nico ao microfone - Hummmmm, hoje a noite tem um tempero especial. Escolham suas damas e olhem para as estrelas. Juntem-se aos outros milhares de lobos perdidos para vislumbrar o que há por trás de toda essa sede de prazer. Hoje vocês podem ir sem medo porque o titio Nico está aqui a postos para zelar pelos seus corpos convulsos enquanto suas almas passeiam.
Meus amigos, essa é Ana Lee.
(Entra Ana Lee no palco)
(PIANO BAR)
Por que meu coração
Nunca vai com meu corpo
Pelo mesmo caminho?
Mas eu sei meu destino
E ninguém nunca crê.
Posso não merecer
Esse dom de amargura.
Pode ser que a história
De alguém da escória
Sem meta definida
E sem fé nessa vida,
Que acorda e retorna
À sua cama mais morna,
Não alcança altura.
Mas eu sei que há canção
E há suspiros em vão
E
(nessa hora ela aponta para Sabine que acaba de chegar completamente bêbada)
xtraídos da seda,Pode ter certeza,
Vão te arrebatar
Se me vires na esquina
Espalhando a tontura.
(Aplausos e homens gritando.)
Nico ao microfone - Senhoras e senhores, Ana Lee, a Musa da Casa de Chá.
(Ana ainda está no palco quando entra Damariz serpenteante. Ricardinho está sentado bem ao lado de onde Damariz pára.)
Ricardo com um olhar de cobiça – Olha que delícia!
Damariz (seca) – Desculpa, eu não estou trabalhando.
Ricardo – Melhor ainda! A gente poderia ir tomar alguma fora daqui.
(Damariz faz que não ouve.)
Damariz – Você tem um isqueiro para me emprestar, por favor?
Nico – Pois não, meu bem.
Damariz - Ah, obrigado. (pausa. Ela acende e devolve o isqueiro.) Bonita essa moça, não?
Nico – Ana Lee, ela é o delírio de muito homem daqui.
Ricardo insiste – Deixa eu pegar teu telefone então?
(Damariz continua sem dar atenção a Ricardo e ele, por sua vez, perde o interesse e vira-se para o outro lado. Percebe Ana que está passando e arrebata-a no meio do caminho.)
Ana (seca) – Cinqüenta mais o quarto. Quer?
Ricardo – Vamos conversar primeiro.
Ana - Conversa com o copo!
(Ana dá as costas e vai até a poltrona e Ricardo vai atrás dela. Ele fica persistente enquanto ela se esquiva.)
Ana (já enfastiada) – Eu vou chamar o segurança, viu!
Ricardo (bravo) – Que saco!!!
(Ele volta pro balcão, porém, longe de Damariz.)
Damariz – Me diz uma coisa, a Mercedes ainda trabalha com vocês?
Nico – Faz tempo que não.
Damariz – É porque ela é uma antiga colega que trabalhava aqui. Aliás essa casa é bem legal...
(Nico olha em volta, encostado no balcão com o corpo projetado em direção da moça.)
Nico - É, a Marlene e o Bira capricharam na decoração.
(Damariz acende o cigarro e devolve o isqueiro para Nico.)
Damariz - Então, por acaso você sabe se a Mercedes ainda está trabalhando na noite?
Nico (intrigado) – Você não ficou sabendo, menina?
Damariz estranha – O quê?
Nico – É, ela sofreu um acidente grave, ficou tetraplégica e, é claro, ninguém mais sabe dela. Vocês eram muito íntimas, querida?
Damariz leva a mão à boca horrorizada – Meu Deus!!! Ai, a menina era tão legal.,, Nós sempre nos encontrávamos aqui encima, na padaria, pra tomar um lanche com cerveja entre um programa e outro. Que judiação!
(Damariz repara em um jarro num canto da prateleira do bar e desconversa.)
Damariz – Hmmmm, eu conheço esse jarro na prateleira.
Nico – Você também conhece a Clareira?
Damariz – Se conheço!
Nico – Está ativa?
Damariz – Faz um tempinho que não.
Nico (sério) – Eu estou afastado. Na última vivência fiquei com medo de reverter. Já vi uma reversão, é feio demais.
Damariz – Realmente. Mas é uma pena você estar afastado.
Nico – Tenho muitas lembranças boas e a Cisterna de Sereno. Aonde vou levo ela. Não desgrudo nem morto. Ó!
(Nico pega o jarro cintilante que, sob a luz, parece manchar a parede de água e sol. O truque para essa cena é pôr uma pequena lâmpada dentro do jarro, forte o bastante para dar o efeito esperado.)
Damariz (melancólica) – É eu perdi a minha quando voltei pra São Paulo. (faz uma pausa e muda de assunto) Escuta, é aqui onde trabalha a Dona Marlene, né?
Nico – É sim. Ela deve estar ocupadíssima, tem um pessoal lá encima, uns tipos sérios de terno e gravata. Hoje é dia de pôr ordem na burocracia. Deixa eu te perguntar uma coisa: você está em alguma casa, honey? Pois aposto que se estiver deve ser o sucesso do seu bordel. Você é uma deusa de negro, com esse olhar meio selvagem. Saiba que se quiser vir fazer uns frilas aqui eu vou ter o maior prazer em te dar uma forcinha, viu.
Damariz (interessada) – Sabe que não é uma má idéia!
Nico – Por que você não fica por aqui hoje? Eu posso te apresentar à Marlene quando ela estiver mais sossegada. Aproveita a noite, querida.
Damariz – Pode ser.
Nico – Então vou te preparar algo especial inteiramente por minha conta, de boas-vindas. Já experimentou o Feitiço?
Damariz (curiosa) – Hmmmmm, Feitiço?
Ricardinho (resignado) – Eu enfeitiçado...
(As luzes se apagam e o telão mostra um fast de carro pela Augusta. Barulho de tacadas em mesa de sinuca. Quando as luzes se acendem no palco estão Bira na sinuca com três empresários. Ele erra a caçapa, dá um trago de cigarro com um copo de Maria-Mole na mesma mão e gira pela mesa balançando seu corpo bêbado pelos jogadores.)
Bira – Uma festa para os chegados do exterior... sei.
Camargo – É, nós queríamos fazer algo por aqui, em São Paulo mesmo. Santos é muito visado, nós somos conhecidos lá, ainda mais depois de uns acidentes que ocorreram no cais... Aqui nós sempre seremos anônimos, o acesso à aventura é sempre irrestrito em São Paulo (dá uma risadinha).
Bira (impassível) – Sei, mas que tipo de festa é essa que vocês querem? qual o porte?
Cláudio – Nós queremos algo com certo grau de luxo, sabe? Vamos fazer um agradinho para esse pessoal.
Bira sem tirar o olho do jogo – Sei...
(Bira bebe mais um gole, mira a caçapa e desconversa.)
Bira - Senhores, acho que agora vocês é que me devem setenta e cinco reais. Nesse caso a rodada é por minha conta. Podem ir devolvendo minha grana.
(Todos guardam seus tacos e acomodam-se na mesa.)
Bira (confuso) - Deixa eu entender, vocês têm contatos no exterior?
Cláudio – Não, nós somos sócios de uma transnacional que está começando a dar certo. Acabamos de fechar o negócio que vai garantir um futuro promissor pra nossa empresa. Conseguimos contornar a crise mundial com uma cartada de mestre, meu amigo! e queríamos comemorar. É mais ou menos isso. O problema é que não conhecemos ninguém de confiança daqui para nos ajudar.
Bira (com satisfação demagógica) – Estou feliz, Camargo, que a vida esteja sorrindo pra você. Faz tempo desde a última sinuca, hein? Nós nem tínhamos um contato tão próximo naquela época, né?
Camargo (orgulhoso) – Agora eu sou um dos diretores de uma empresa quente, malandro!
Bira – Que beleza! Mas olha, o negócio é que vocês estão muito bem arranjados, sabiam? Quem imaginaria, hein, Camargo, que depois de tanto tempo nós íamos nos encontrar aqui, numa partidinha de sinuca e que eu fosse ter a oportunidade de ajudar vocês?
(Sérgio sempre calado, assiste à televisão e, vez por ora, olha para Bira sem muito interesse, apoiando o rosto distorcido pela pressão da mão fechada.)
Bira – Claro, porque eu tenho o lugar perfeito para vocês celebrarem este grande negócio, arranjado pela transnacional é...
(Bira estende a mão para Camargo como se a resposta fosse algo que receberia das mãos dele.)
.
Camargo – Fluxur.
Bira – Isso! Fluxur, da qual o ilustríssimo senhor Camargo, meu amigo, é diretor. O lance é o seguinte: eu e minha excelentíssima senhora, dona Marlene, somos proprietários de uma fantástica fábrica de sonhos, onde ela é administradora e eu, o relações públicas – eis a vossa sorte.
(Sérgio desconfia com olhar apático.)
Bira continua – Não é uma suntuosidade, (expansivo com as mãos) mas, possui um charme singular. Lá nós apresentamos shows de qualidade superior e muitos outros atrativos que, além de garantir o mais elevado grau de entretenimento, com certeza vão deixar os vossos convidados de boca aberta.
Cláudio (surpreso) – Nããããão...Trata-se de uma boate de...
Bira (objetivo) – ...shows exóticos...
Camargo (desconfiado) - ...e danças incomuns...?
Bira (evasivo) - ...de damas solitárias...
Cláudio (efusivo) – É um rendevouz?!?
Bira (humilde) – Sim, mas inocente. Quase uma casinha de sapê. No entanto é grande, é...é...é a nossa Casa de Chá!
Cláudio (mais efusivo!) – É um puteiro! Sim, um puteiro de luxo! Eles iriam adorar! O Brasil é um sucesso no exterior quando se trata de mulheres. Eles são simplesmente malucos por este tipo de ambiente exótico. Camargo, lembra-se quando fomos àquele show no Egito, com as concubinas do Sultão?
Bira – É, e nós podemos organizar uma apresentação temática especial do Oriente, também! Tudo o que os senhores desejarem. Basta pensar.
Camargo – Seria possível a gente conhecer o ambiente? Só para comprovar o potencial da casa.
Bira – Só se for já! Beto anota a conta aí que eu já volto.
Cláudio empolgadíssimo já se levantando – A sorte está nos lugares mais improváveis! Saímos pra jogar uma sinuquinha e agora temos um promotor de eventos. Perco vinte e cinco mas ganho um espetáculo.
Sérgio puxa Cláudio de lado (apreensivo) – Cláudio, esse negócio não vai dar certo, vamos embora. A gente consegue arrumar um lugar melhor pra essa confraternização. Imagina o Raoul num puteiro? Ele não é disso, você sabe.
Cláudio (seguro) – Que nada, vai ser divertido, imagine como se tudo fosse uma grande brincadeira de adultos. Eles vão adorar o clima intimista de um puteiro. Relaxa, entra no clima. Além do mais este é o “extra-mile” que a gente tem que percorrer.
(No caminho de volta para a Casa de Chá a escuridão é total. Ouve-se barulho de passos, carros e pessoas rindo. Nesse meio tempo o pano de fundo volta a ser o da Casa de Chá.)
Bira (impostando a voz) – Bem- vindos ao nosso pequeno império do amor. Nico, prepare quatro drinques “Velvet Hammer” pra gente, por favor.
(Enquanto isso, na mesa dos rapazes, cada um tem uma menina no colo. Ana está com Ângelo, Gracinha está com o Thomás e Paloma está com o Miguel.)
Miguel falando baixo – Ih, o negócio ali é sério mesmo. Quem são aqueles? Os prováveis acionistas? O Bira vai abrir o capital da Casa?
Thomás (despreocupado) – Acho que o Bira tá querendo expandir a Casa de Chá.
Ângelo (apreensivo) – Se o negócio crescer a gente vai ter que procurar outra Casa de Chá e outras rolinhas. O preço pra entrar aqui é razoável, se subir, a entrada vai ficar exorbitante.
Graça – Se vocês forem nós vamos com vocês. Vocês são mais que clientes, são nossos maridos!
Gracinha – Cês acham mesmo que a Casa vai crescer? O Bira não agüenta o tranco nem do jeito que está agora...
Ângelo – Vai saber...
Paloma – Se liga, a coitada da japa se descabela todos os dias aqui durante vinte anos e até agora nada. Você acha que o Bira vai desentortar agora, depois de velho. Acorda, Ângelo!
Ângelo – Nunca se sabe, né. O dinheiro fala tão alto que alguns até se endireitam.
Ana – O Bira só quer saber de sinuca e cachaça. Sempre foi assim, a Casa tem um puta potencial, ele não se ajeitou até agora e acredito que não vai se ajeitar mais. Pra mim enquanto ele estiver bêbado vai estar ajeitado.
Miguel (em tom de escárnio) – Aí, Thomás, acho que agora você está perto de conseguir aquele carguinho aqui na Casa. É só torcer pro tino do Bira não falhar agora e ele mostrar pra que veio.
Thomás – É, já pensou? Vou exigir uma saleta pra testar as profissionais e um bar privativo só pros Vips. Claro que a Gracinha vai ser a minha exclusiva, né. Outra coisa: brother vai entrar na faixa!
Ângelo – Não viaja muito, não, que se você for contratado vai ser é pra Leão de Chácara; ou vai pra trás do balcão fazer drinques, juntinho do Nico e dos “Meus Meninos” (risadas).
(Nico se aproxima enxugando um copo.)
Nico – Uh! Como chefe eu ia fazer o Thomás rebolar pra mim!
Thomás – Se liga, Nico! Você e um pitelzinho mas eu prefiro as calcinhas.
Nico – Não seja por isso...
(Nico mostra um pedaço de calcinha que está usando abaixando um pedaço do lado da calça que está por cima.)
Miguel com um risinho – Nicão, desencana e dá uma pesquisada no papo dos grã-finos ali.
Nico - Meu deus, esse povo ama uma fofoquinha!
Bira como um verdadeiro bom vivant – Senhores, aqui é a ante-sala do amor. Ali é onde acontecem os shows mais quentes da cidade. Esse é o nosso alquimista. Nico sabe fazer os mais refinados drinques de São Paulo. Além disso, é especialista em brinquedinhos entorpecentes.
Camargo – Hmmm, bom saber.
Bira (orgulhoso) – Mas o mais fabuloso está atrás daquelas portas. RÁ! Meus amigos, vocês nem imaginam a quantidade de surpresas que aquela porta esconde. Lá dispomos de saunas de sado-masoquismo com todos os apetrechos imagináveis para este fim, artigos importados do mundo inteiro, só o supra-sumo! Temos quartos de criança com bercinhos para homens de um metro e noventa, brinquedinhos eróticos, fraldas e roupas infantis para aqueles que procuram babás. Temos uma enfermaria com a enfermeira gostosa que mais lhe aprouver e temos até um quarto com confessionário, afinal, fetiche é fetiche e muitos ainda não acertaram as contas com a Igreja. Aqui ninguém vai ser julgado por gostar de trepar.
(Sérgio fica nitidamente estupefato, põe a mão na boca.)
Cláudio – Tudo bem, isso é o de menos, fale-me dos shows, são shows temáticos?
Bira (entusiasmado) – O quê??? Os mais refinados! Essa é a nossa especialidade. Nossas moças são estrelas de filme pornô! Muitas delas são verdadeiras artistas que a mídia desperdiçou por terem dado pros caras errados ou por não terem estado no lugar e na hora certa e, aqui, o espaço é livre para a arte do amor. Elas cantam, dançam e interpretam. Só coisa fina!
Cláudio – Mas isso aqui é o paraíso!
Bira – Siiiiiiiim, mas por que vocês não avaliam as garotas em ação?
Camargo – Por que não? Só se for agora!!!
Bira – Como é a primeira vez que recebo tão ilustre visita, vou presenteá-los com as rolinhas que mais gosto.
(Bira vai até a mesa dos rapazes e abaixa-se para falar mais de perto.)
Bira – Bom, já que hoje vocês estão só chimbando eu vou botar as minas pra trabalhar um pouco. Sabem como é, né? Mulher parada, prejuízo pra casa. (vira-se para as meninas) Vocês três (vira-se para as meninas), estão vendo aqueles malucos ali? Conseguem perceber o cifrão estampado na cara deles? Então, vão lá e virem os caras do avesso!
(Bira chega abraçado com as três e depois de formados os casais os seis saem andando devagar.
Paloma vai com Cláudio, Ana vai com Camargo e Gracinha vai com Sérgio.
Quando Gracinha abraça Sérgio ela dá uma chupada no seu dedo do meio enfiando-o todo na boca e extraindo uma expressão de espanto dele. Depois enche a mão no seu saco, por cima da calça.)
Gracinha – Oi, gato! Eu sou a Gracinha. Você veio armado, hein!
Sérgio (receoso) – Ai, minha nossa! Se a Rosália imagina isso...
Gracinha – Hoje a sua mulher sou eu, até que o relógio nos separe.
Sérgio fala baixinho, escondendo a boca com a mão – A gente pode ir naquele confessionário que o Bira falou?
Gracinha – Ah, já entendi...
Camargo para Ana – E o seu nome é...?
Ana puxa-o pela mão – Ana Lee. E aí, vamos?
(Todos saem da cena.)
Nico ao microfone – Preparem-se pois eu sinto o aroma da luxúria no ar. Alguns vão se embebedar de “Million Dólar” e outros de “Angel´s Kiss”. Eu vou ficar hoje só no “Picadilly” a noite inteira. Pra quem não sabe “pecadillo” é “pecadinho” em castelhano, a especialidade do titio Nico.
(Apagam-se as luzes e no telão aparece uma gravação em formato de depoimento com as personagens aparecendo individualmente numa poltrona dentro de uma sala de estar.)
Bira justifica seu ponto de vista com certa indignação – Porra, na vida a gente comercializa tudo: comida, roupa, informação, tecnologia e até a salvação da alma. Pô, tem gente querendo vender e gente querendo comprar. Não gosto desse “moralismo de fachada”. Vamos falar o português claro? O cara vive instigado com os estereótipos sexuais impostos pela TV. A mulherada que se encaixa nesse estereótipo, por sua vez, se arruma com velho rico ou vira puta. A maioria é assim! Se o cara é feio, pobre e boa gente ele vem aqui porque não vai sair estuprando só porque deseja profundamente aquele tipo que ele vê na televisão, né? Os casados também não fogem à regra.
No final eu presto um serviço de utilidade pública que o Estado não dá conta de prestar por causa do blá blá blá oportunista do rebanho da Igreja.
Gracinha (indignada) – Eu tô aqui porque eu gosto e tenho o dom. Tem gente que trabalha pra fazer sexo, eu faço sexo pra trabalhar, e daí? Tem mina que não tem o dom pra coisa e pensa diferente, foi por isso que eu saí do Rio de Janeiro. Hoje tem gente lá querendo me matar. No fundo elas tinham era inveja de mim. Vê se pode um negócio desses. No começo todas elas são umas patricinhas: dão e não cobram nada. Depois que cai a ficha de que ramón é que nem bicho elas começam a cobrar e alto ainda!
Thomás – Uma coisa que eu não admito é a pessoa falar que não paga por sexo de jeito nenhum. Pensa comigo: o cara gasta muita saliva xavecando a mina pra sair, quando consegue gasta uma grana com gasolina, paga por entradas no cinema para um filme que ele nem é tão a fim de assistir assim, paga conta de restaurante e, se der certo naquela noite, ainda gasta com motel. Agora fala pra mim: como o cara não paga por sexo? Toda transa custa, só muda-se a cara pra ficar mais bonitinho pra sociedade. A época da moitinha está se acabando, bicho! Fica sem grana pra ver quando é que você vai dar umazinha de novo.
Sérgio – Eu não freqüento muito esse tipo de lugar. Para não dizer que nunca tinha ido à um prostíbulo, fui uma vez quando era moleque mas fiquei incomodado. Pô, eu sou cristão e casado.
Marlene – Eu protejo e zelo pelas minhas rolinhas, fiz muito programa na minha vida até o Bira aparecer. Hoje eu estou mais com elas do que com o ele. Também, o cara é uma lesma morta, só quer saber de me sugar. Tá certo que no papel ele é o dono do negócio mas depois de vinte anos, péra lá, né! Tenha dó! Um dia desses eu... ah, deixa pra lá.
Sabine (inexpressiva) – Você quer que eu fale o quê? Este é o país da esbórnia, não existe integridade plena em ninguém. Eu não gostava de viver antes de vir pra noite, hoje eu só suporto porque tenho mais acesso às drogas. No fundo eu quero que todos se fodam e deixem eu me chapar sozinha.
Miguel – Eu transcendi a beleza. Hoje sou mais inclinado à estética funcional, só preciso de um par de estímulos visuais e um olfativo pra me satisfazer. Cheguei à conclusão de que a monogamia é sintoma de uma sociedade saturada de indivíduos e todos eles carentes. O engraçado é a quantidade de gente solitária numa megalópole como São Paulo, né? Todos os que você vê na Casa são suicidas crônicos, ninguém escapa. Os meus livros todos tratam disso de forma delicada e sutil. São geniais, modéstia à parte, mas o meu trabalho ainda é incipiente. Hoje eu passo de bar em bar vendendo meus livros, mas eu tenho a impressão que em pouco tempo eles vão ser best-sellers e os manuscritos valiosíssimos.
Ângelo – Se a moça for safada, gostar de sexo ou, pelo menos, ter bom humor, tudo vai bem. Agora, se eu sentir que ela está incomodada eu começo a me sentir um monstro, sei lá o porquê. Daí o melhor é terminar tudo e recomeçar com outra garota. O dinheiro é o que menos importa nessas horas. Todos têm seus dramas na vida, eu só não gostaria de me sentir responsável pela desgraça de ninguém.
(Volta a luz para o palco. Os três empresários saem dos quartos e Sérgio está visivelmente feliz e tocado. Damariz está sentada no balcão conversando com Nico. Camargo chega para Bira completamente bêbado.)
Camargo – Bira, este lugar é um paraíso encravado no submundo, cara!
Sérgio, transformado e, agora feliz – ...eu que o diga! Adorei!!!
Bira – Gostaram? Tô com planos ambiciosos para isso aqui.
Camargo enfatiza sua satisfação – Bira, você não está entendendo. Eu vou preparar uma esbórnia gigante aqui. Eu imagino uma orgia exuberante e circense, com muita psicodelia! (olha pros lados e gesticula) Vai ser A Grande Festa da Casa de Chá. Coisa fina mesmo, pra gringo nenhum botar defeito, você vai ver. Nós vamos ser parceiros daqui pra frente.
(Enquanto isso Nico fala com Damariz.)
Nico – Nossa, o pessoal está empolgado mesmo. Que bom, é por isso que estamos aqui. (pausa) Olha só a Marlene aí.
(Marlene leva dois caras engravatados até a porta, se despede e, quando está voltando apressada, é arrebatada por Nico.)
Nico - Marlene quero que você conheça a Dama.
Damariz dá a mão sorrindo – Prazer, Damariz.
Marlene (solícita) – Oi, meu amor. Em que posso te ajudar?
Damariz – É que eu sou da noite. Andava com a Mercedes e ela me falava muito bem do pessoal daqui.
Marlene – Sei, e você quer fazer parte da família, é isso?
Damariz - Isso mesmo.
Marlene – Você não quer dar uma chegadinha lá no meu escritório pra conversarmos melhor?
Damariz – Claro!
(A cena permanece com gente saindo do quarto. Umas meninas vão se deitando nos sofás. Umas ainda estão dançando sozinhas na pista. Alguns homens vão para o balcão ficar bebendo e olhando pro nada. Até que todos vão saindo, a trilha sonora vai aumentando com uma música bem fim de noite (tipo “Run of The Mill” – Judas Priest). Damariz sai, despede-se de Nico e de Marlene.)
Damariz – Então, tá bom! Obrigado viu? Amanhã já estou por aqui.
Marlene – Não esquece o que eu te falei, hein?
(Marlene começa a andar de lá pra cá até a hora em que se senta no balcão e, depois de tanto trabalhar, espera até a hora em que decide começar a acordar os que já estão encostados dormindo. Acompanha alguns até a porta pedindo que voltem sempre.)
Ricardinho reclama saindo – Pô, hoje eu só chimbei.
Marlene – Você é mole! Cabou teu tempo, agora só na rua.
(Depois que a clientela vai embora Marlene vai acordar as meninas mais sonolentas, para que elas vão para seus quartos.
As luzes da ribalta começam a diminuir com o telão exibindo um fast da aurora. A câmera foca os carros na Augusta, de cima, com o skyline da cidade um pouco acima do centro da tela, até que as primeiras tonalidades do dia apareçam. Nesse momento, o tempo volta ao normal e a câmera faz um movimento descendente (de grua) indo até o meio da rua. Focaliza as luzes de mercúrio ainda acesas, algumas fachadas, fios e antenas (com esse movimento o skyline desaparece). O som que se ouve quando o movimento de câmera volta ao normal é só o som do gorjeio dos passarinhos que anunciam o fim da noite.
Essa sequência deve ser gravada na Augusta, perto da Paulista, onde se tem uma foto ampla da Augusta.
Quando se completa o morf a escuridão é total no palco, apenas com a luz do telão.)
SEGUNDO ATO
“Vênus & Marte”
(O telão exibe o nome do ato e, depois, as luzes do palco se acendem.
É sexta-feira, a casa está cheia e a cena precisa permanecer no burburinho por um tempo para que se possa explorar o clima alcoólico e sexual.
Ana está à frente e no centro do palco conversando com Ricardinho, que a está abraçando e passando a mão em seu corpo, quando Ângelo chega, cumprimenta Nico, tira Ricardinho da jogada e vai conversar direto com ela. Eles, Ana e Ângelo, negociam e ele vai pegar o sabonete/toalha. Ângelo volta do balcão e sai de cena com Ana pelo canto direito do cenário, abraçados.)
Ricardinho (indignado) – Isso é que é antiético! O cara chegou solando e nem me deu chance pra nada. Hoje eu até tô bonado...
Nico ao microfone - Senhoras e senhores. Tenho aqui comigo um ilustre convidado. Ele se diz ser músico, compositor e um apaixonado – isso é o que nós vamos comprovar. Ele chegou aqui afobado e, ajoelhando-se aos pés da fada madrinha aqui, clamou pelos poderes benéficos da minha varinha de condão. Disse que queria demonstrar seu amor por Sabine cantando uma pequena canção aqui com o acompanhamento dos “Meus Meninos” (põe a mão no peito orgulhoso).
Olha gente, que bonitinho! (efeminado e afetado) Como eu poderia deixar de conceder-lhe este singelo pedido? Então, agora vocês vão ouvir este apaixonado inspirado xavecando a sua musa, Sabine, a Seda Pelada, quero dizer, Seda Sedada. Palmas para...qual é o seu nome mesmo?
Ricardo sorrindo e sem nenhuma vergonha – Ricardo.
Nico – Palmas pro Ricardinho, gente.
Ricardo – Eu gostaria de dizer que faz tempo que eu venho aqui e subo de toalha e sabonete com essa pérola punk da Casa de Chá. Ela nem deve lembrar de mim. Mas, Sabine, você é tudo o que eu sempre quis. Eu ainda vou te tirar daqui!
Sabine grita – E vai levar pra onde?
Ricardo (malandro) – Pra conhecer Deus, babe! (vira-se para Meus Meninos) Como nós combinamos, hein?
(Eles consentem simultaneamente com o polegar. Nessa hora o pessoal começa a gritar: “Aêêê!!!! Manda ver!”. Meus Meninos começam os primeiros acordes.)
Ricardo – Sabine, a letra é meio pesada, mas é assim que você é nas minhas fantasias mais punks.
(Alguém grita da platéia: “começa logo, porra!!!”.)
Blatela libertina balbucia mariposa
Sabine mastiga Diazepam como Aspirina
Baratas sobem no santinho da cozinha
Bombas de efeito moral
Bombas de efeito moral
Tragédias do seu conta-gotas
Ajudam a esquecer o frio.
No fundo do seu poço jorra
Água cristalina!
Vasculha a Augusta procurando companhia
Escorre no seu seio essa saliva sedativa
Terapia de choque
Terapia de choque
Difícil ser imaculada
Extasiada ante o precipício.
Toda a extensão da sarjeta
Incita à temporada da esbórnia.
Blatela libertina balbucia mariposa
Leda libertine
Gira no teto do salão
Com seu vestido de quitina marrom.
Se arrasta uma quadra até o bar da luz vermelha,
Se esfrega no chão ela anseia cocaína.
Efeito Colateral!
Efeito colateral!
Enclausurada, a madrugada (ou “a primeira luz da madrugada”)
No topo do seu baixo-ventre. (Enclausurada no seu baixo ventre)
No alto da sua torre
Estão degolando o rei!
O dia não nasce, despenca na cabeça
A vida retorna agarrada à garganta.
Busca e apreensão!
Busca e apreensão!
(Ricardo desce do palco cenográfico e vai trocar idéia com Sabine, que está com Paloma nas poltronas ao lado.)
Paloma diz em voz alta – Tem gente que não tem noção mesmo, né?
Ricardo – Te amo, Sabine!
Nico ao microfone – É... Cada tampa tem a sua panela. Eu quero ser padrinho hein.
(Entram na Casa Miguel e Thomás.)
Thomás abre os braços, olha pra cima como se estivesse falando com o Divino e solta – Hummmmm, este cheiro me viciou. Sente o clima, Miguel.
Miguel – Por falar em cheiro, divide um comigo?
Thomás – Demorou. Tô inspirado. Vamos instituir o caos.
(Miguel cumprimenta Nico.)
Miguel – Nico vê um papel e um Barfly.
Nico – Este é um drinque para ser servido à tarde sabia?
Miguel – Mas é uma delícia, ele deveria ser servido até de manhã. (curta pausa e, depois desiste) Tá, eu estava a fim mesmo de experimentar outro. O que você me indica?
Nico olha bem pra cara de Miguel e solta - Acho que sua cara hoje é apreciar um refrescante “Bourbon Daisy”.
Miguel – Esse mesmo! Mas o que é isso?
Nico – E aí, quer ou não quer? Confia em mim, querido.
Miguel – Você é um amor Niquinho.
Nico – Você nem imagina quanto amor tem aqui.
(Gracinha se aproxima de Miguel, ela estava ouvindo a conversa.)
Gracinha (lasciva) - Vamos subir lá para fazer um amorzinho gostoso?
Miguel (cínico) – Ah, sentiu o cheiro de grana e veio correndo, né?
Gracinha (enraivecida) – Miguel, seu escroto!
Miguel (mais cínico ainda) – Quê? Então é o perfume que eu passei?
Gracinha – Ah, já inventaram perfume com aroma de naftalina? Você não tem as manhas nem de enganar esse cheiro de creolina que você usa no banho.
(Thomás abraça a Gracinha e sorri para Miguel conciliador.)
Thomás – Não liga amor. Só promete que não vai mais querer trair seu maridinho com o Miguel.
Gracinha (manhosa) – Vamos fazer que nem da última vez, amorzinho? Hoje eu estou muito desobediente...
Thomás – Só se você fizer um strip-tease pra mim ali no magrão.
Gracinha – Vamos dar um show comigo! (puxa Thomás pelo colarinho).
Thomás – Vamos, vamos lá!
Gracinha – Falou perdedor!
Miguel sem dar atenção – Vê se não enche!
(Começa o show e enquanto ele se desenvolve Nico fica tirando uma com a cara de Thomás com coisas do tipo: “Ih, será que esse negócio vai subir? Será que ele agüenta toda essa Graça?” Gracinha começa o show antes e só quando está só de calcinha puxa Thomás pra fazer parte. Enquanto isso Damariz chega e encosta no balcão perto de Miguel. Miguel puxa assunto.)
Miguel - Você é nova na Casa, né? Qual é o seu nome?
Damariz – Damariz. E você é...?
Miguel – Miguel. Você pode me fazer companhia? Eu te pago um drinque. O que você quer beber?
Damariz – Nico, você faz um “Volcano” pra mim, na conta do Miguel?
Nico – O que você quiser, meu amor.
Miguel – Meus amigos sumiram, me deixaram sozinho. Querem me relegar à morte social. Mal eles sabem que eu sou um necromante social. Estou sempre bem acompanhado pelos melhores que já se foram.
Damariz – Você é freguês assíduo daqui, né? Sua sorte é que seus amigos confiam em você e gostam muito da sua companhia, inclusive o Grilo, que está sempre por perto. Você é meio carente, precisa de atenção constante.
(Miguel fica meio constrangido, porém, por pouco tempo.)
Miguel retruca - Mas você nem me conhece.
Damariz – Conheço muitos iguais a você. Sabe, eu não sou de encher lingüiça e o melhor de mim é o que eu falo pras pessoas.
Miguel (cínico) – Ah, e eu deveria sentir-me honrado de conhecer você? Você é nova aqui, né? Vai ter tempo o suficiente pra descobrir que eu sou um escroto. Não dá pra gente falar de amenidades não? Só pra passar o tempo.
Damariz (paciente) – Você é legal, mas não gosta muito da raça humana, guarda muito remorso. É revoltado e trouxe muita tristeza para seus pais. Nem imagina como eles ficaram quando fugiu de casa com 14 anos, lembra?
Miguel (sarcástico) – É, mas teu oráculo esqueceu de falar que eu voltei no mesmo dia. (ríspido) Eu não me impressiono com sua vidência. Olha! eu não sei de onde você veio, se é doida, mãe-de-santo ou não. E pretendo continuar assim, sem achar nada! a não ser que você concorde em me conhecer à moda antiga, devagarzinho, passo a passo... Aliás, eu não sei nem porque resolvi pagar esse drinque.
Damariz – Você reclama demais.
(O strip-tease termina e todos aplaudem. Thomás pega suas roupas e entra no banheiro com Gracinha. Ana Lee sai com Ângelo (felicíssimo) e este vai ao encontro de Miguel.)
Ângelo visivelmente apaixonado - Cara, eu estou nas nuvens!
Miguel (lacônico) – É? E eu preciso alçar vôo, essa mina é meio pinel (ele fala baixo pra ela não ouvir). Vamos dar um tiro? Vamos logo lá no banheiro, vai. (volta-se para Damariz) Dá uma licencinha, tá.
Damariz com sotaque castelhano – Pura vida! Viva el blanco!
(Miguel bebe o resto do seu drinque à porta do banheiro, deixa o copo no balcão e começa a bater compulsivamente na porta.)
Miguel (gritando) - Thomás abre aí. Sou eu!
Thomás grita de volta – Espera aí!
(Thomás abre a porta.)
Gracinha sando do banheiro – Vê se não mata meu Brad Pitt, hein.
(Ela beija a boca de Thomás com a língua e tudo, depois eles trancam a porta. Sérgio adentra a casa, cumprimenta Nico e pergunta sobre a Gracinha.)
Nico - Tá com sorte, hein.
(Gracinha está de longe, mas já de braços abertos.)
Gracinha – Olha só quem veio me visitar!
Sérgio (acanhado) – É! Alguma coisa aconteceu naquela noite que eu não entendi muito bem. Descobri um lado meu que não conseguia pôr pra fora.
Gracinha abraçando-o – Rá!! A Gracinha é o terror da castidade, né? Eu sabia, vamos lá porque eu vou te mostrar a segunda lição da cartilha.
Sérgio – No mesmo quarto?
Nico enxugando um copo – O confessionário tá ocupado. Querem ir na sado-maso?
Sérgio – Pode ser.
Gracinha – Cadê teus amigos?
Sérgio – Nem sabem que estou aqui.
Gracinha – Safadão!
(Sérgio e Gracinha vão para o quarto enquanto Thomás, Ângelo e Miguel, que estavam no banheiro, voltam para a cena conversando. Sentam-se na mesa habitual, perto do balcão.
Damariz está em uma das banquetas do balcão, no mesmo lugar onde Miguel a havia deixado. Continua sozinha bebendo seu Volcano, prestando atenção no papo dos caras.)
Thomás – É fácil mudar o clima quando se dá um tiro, né cara?
Ângelo – Meu a Aninha é demais! É bom quando rola uma sintonia, né? Tipo assim: eu sei que ela é prostituta, mas a gente se conhece há um tempão, já fomos pra cama e tudo (dá uma risada maliciosa).
Miguel interrompe – Ah, não...!
Ângelo - Nunca conversei muito com ela. Era entrar, cumprir o roteiro e pronto. Teve até uma vez que chegamos a nem fazer nada. Acho que ela estava meio triste daí eu resolvi desencanar.
Miguel interrompendo de novo – Tá xonado?!? Por puta ainda?!?
Ângelo alegre – Não, deixa eu falar! Hoje rolou um lance de amigo, saca? Ela até me falou o nome real dela: é Géssica, velho!
Miguel – Deixa de ser bobo! Você acha que esse tipo de coisa importa mais do que a grana pra ela? Ela é paga pra não sentir, cara-pálida!
Ângelo – Você está com a macaca hoje, eu entendo.
Miguel – Não, não, não, não e não! Ângelo deixa eu te falar uma coisa, de brother. Presta atenção: a Ana Lee é uma engolida, como vários aqui que, por não terem conhecimento o suficiente, têm a criatividade tolhida e, por isso, não conseguem achar uma forma menos abjeta de vida, sem ter que vender a alma, a existência e o que têm de mais valioso para o demônio do imperialismo.
Thomás – Ih, Miguel. Que papo é esse? “Demônio do imperialismo”, “gente vendida”... desde que o mundo é mundo as pessoas vem trocando força de trabalho por outras coisas de igual valor.
Miguel interrompe indignado – Igual valor???
Thomás - Ninguém morre por trabalhar e a polêmica em torno do imperialismo ficou pra trás, cara. O lance hoje é se virar do jeito que dá, sem reclamar. Tudo o que vive consome, sem exceção, cara.
Miguel – Tudo hoje é medido em relação ao status de determinada pessoa, doidão!
Thomás evitando a polêmica – Pára, pára! Não dá pra discutir isso com você em mesa de puteiro.
Miguel (exaltado) - Um bosta iletrado, mas que é jogador de futebol entra em qualquer casa noturna na faixa, pois desse modo o lugar vai ficar conhecido por atrair esse tipo de gente, vai ficar taxado de “pico chique”, (cínico) vai dar status pro lugar...
Ângelo – Mas é assim que funciona, Miguel.
Miguel (ameaçador) – Deixa eu falar! (pausa) Em outras instâncias isso ocorre com mais gravidade. Tipo: se um biólogo atropela trinta porque estava bêbado, ele vai preso. Agora se o desgraçado for um juiz, um deputado ou um desembargador não vai. Você pode me explicar isso? Isso é a lei do status. Privilégios pela nomenclatura atribuída a você e reconhecida pela sociedade. Isso rende agradinhos caros e é mais importante que grana, cara. A grana vem daí e não por que você trabalhou que nem um jumento o mês inteiro. Esses, os que trabalharam, estão fadados a serem desgraçados.
Ângelo (paciente) – Eu consigo reconhecer tudo isso que você está falando. Você sabe que sou bem mais você do que qualquer um desses babacas que vêm aqui no fim da vida, “tudo mal-resolvido”, sem nem sequer saber diferenciar gripe de dor de cotovelo e ainda ficam botando banca de gente-grande, né? Mas, sinceramente, senta desse lado da mesa. Você consegue se ouvir? A impressão que dá é que você está frustrado, cara...
Miguel (à beira do colapso) – Frustrado o caralho!
Ângelo - Eu te conheço, sei que você é um maluco forte e criativo. Por que você não tenta se adaptar da melhor forma possível? Não dá pra mudar o mundo, velho.
Thomás – Deixa eu falar? (ele levanta humildemente o indicador para solicitar espaço na conversa).
(Miguel bate na mesa com o punho cerrado, o que não causa muito efeito nos que estão ao redor, afinal, polêmica em mesa de puteiro...)
Miguel – Olha quem fala pra se adaptar, Ângelo! Até ontem era você quem estava reclamando da vida!
Eu faço parte de uma classe maldita! Sou um pensador e não sei fazer outra coisa. Não tenho valia pro sistema, preciso forçar a barra até despontar no outro lado. Além do quê, nêgo hoje cansa fácil de pensar.
Thomás – Deixa eu falar?
Ângelo – Não, deixa o cara falar (aponta para o Miguel).
Miguel - Eles compram nossas obediências. Falam em construir escolas, investir na educação mas quantas bibliotecas você vê por aí? Já viu o preço de livro novo?
Thomás – Bem- vindo à selva!
Miguel - Presta atenção no que passa no canal aberto, é bem mais interessante e mais fácil produzir bestas sociais. Você não consegue pensar quando está viciado nisso, a cocaína do Nico é melhor do que o que a programação da tv. Usam uma edição alucinante, cores vibrantes e som hipnótico pra você não conseguir entender o que eles querem vender nas entrelinhas. E o jornalismo televisivo então... Todos os dias eles elegem um crime comum como se fosse a coisa mais aterradora da humanidade e o “buraco abaixo”, a raiz do problema, não é discutido abertamente senão o trabalho pra mudar o sistema teria de ser feito. Te impõem o medo pra você permanecer na linha.
Thomás, agora impondo sua opinião – Um pouco de neurose é salutar pra todo mundo...
Miguel - ...na seqüência da desgraceira toda arquitetada e exposta eles te enfiam notícias de futebol pra dar um pouco de auto-estima pro povo, trazendo tudo para o nível do cotidiano de novo. Fora a exposição tendenciosa dos fatos... Depois que você desliga tudo e fica sozinho, não é paz que você sente, são resíduos visuais que ficam pairando na cabeça e um sentimento de vazio. Daí nossa angústia diária: de intuirmos que o que realmente importa não é tratado com objetividade. Sentimos bem lá no fundo que estamos sendo engodados a toda hora por uma força mais potente que nós e que, sabemos, não se chama democracia. Força essa que nos reintroduz no sistema mesmo nas nossas ilusórias horas de folga. Estamos viciados, cara, em prazer imediato, em novidades porque os caras não aceitam junkies sem poder de consumo dentro da sociedade deles! Todos os dias eles jogam no mercado novas necessidades tecnológicas previamente planejadas pra ter curta vida útil e somos obrigados a consumir sem pensar nem pra onde vão os dejetos desse nosso vício. Todos estão nesse coma profundo. Desesperados por um pouquinho de auto-estima, orgulho; querem ser aceitos em algum grupo apenas para sobreviver e assim continuam girando o círculo vicioso.
A Ana só quer ser igual à personagem da novela, ao padraozinho do exagero, cheio de músculos, peitos e bunda, pois isso representa luxo e fartura.
Thomás – Uma coisa não tem nada a ver com a outra, cara.
Ângelo – Sei lá, cara. Acho que a Ana é diferente.
Miguel (agressivo) – Você é bobo!
Ângelo (sereno) - Ela tem uma certa melancolia de quem sofreu na vida. Ela é sensível e eu percebo dignidade em seu olhar, tipo de mulher batalhadora... Acho que ela não estaria aqui se tivesse condições.
Miguel (inconformado) – Ângelo! Pára com isso! Sexo é a melhor propaganda do mundo. Eles vendem qualquer coisa com sexo e não é qualquer sexo, é o sexo do silicone e do botox, industrializado. As pessoas investem no corpo como se fosse um capital que gera lucro. Você está caindo na mentira do sistema como se fosse uma criancinha, maluco! Mentiras e mais mentiras, muitas mentiras sensíveis pra você virar um zumbi emocional! O sexo vende cerveja e carros e muitas vezes corrompem o trabalho de gente séria. Um exemplo: se gostar da natureza está na moda o filho da puta vai lá e compra uma caminhonete com tração nas quatro rodas, motor flex e um velocímetro que pode te levar às nuvens. O cara pode nunca ter pisado no campo antes e nunca vai participar de um rali mas vai querer ficar parado no trânsito da cidade com uma dessas. Isso chama-se “capital simbólico” e é exatamente isso o que todo mundo está atrás. Inclusive a Ana ou Géssica (ele pronuncia “Analgéssica”), sei lá o nome dela...
Ângelo – Miguel, esquece esse assunto, cara. Você está muito estressado.Vamos relaxar, o que você acha? Olha, escolhe uma menininha que eu pago o programa pra você.
Thomás – É, vamos lá. Eu te pago outra e a gente faz uma esbórnia, que a esbórnia é a cura pra todos os males.
Miguel (entristecido) – É por isso que tudo acaba em pizza no nosso país...
Thomás – Não, Miguel. Desencana.
Miguel - ...vocês todos fogem do assunto e essa é a pior fuga, pior que pó, porque você fica a mercê das decisões de gente escrota. Pelo menos o pó é algo que dá a morte a quem procura.
Não agüento ouvir vocês tentando justificar a nossa psicose. Nós fomos tolhidos à exaustão durante anos para que fiquemos quietos, sem poder de união porque colocaram na nossa cabeça de que somos fracos, que nada tem jeito e “é melhor deixar do jeito que está, pelo menos estamos vivendo...” (pausa e depois conclui exaltado) Conformistas!
Ângelo finaliza – Beleza, Miguel.
(Entram em cena Camargo, Cláudio e Bira (visivelmente bêbados). Cumprimentam Nico.
Miraculosamente Gracinha e Sérgio também aparecem. Sérgio se espanta com a visita repentina de Camargo e Cláudio.
A música abaixa um pouco, Nico vai ao microfone e a conversa cessa na mesa, nesse ínterim.)
Nico ao microfone - Crianças hoje temos convidados especiais. Os próprios deuses são nossos espectadores aqui. Vênus e Marte se encontram no céu enquanto o titio Nico serve “Volcano” pra alguns e, para outros, “Million Dólar Coktail”; que, à propósito, é um drinque forte. Quem não agüenta é melhor desistir enquanto é tempo.
(A música retoma o volume anterior. Cláudio vai até o colega, Sérgio, de braços abertos.)
Cláudio (feliz) – Você aqui sem a gente? Por vontade própria?!? Mas o que é isso??? Justo você, que é quase um pastor? (e ri).
Gracinha – É! eu batizei ele na religião da esbórnia, meu bem (acentua “esbórnia” com o seu sotaque puxado).
Camargo – Boas novas: no próximo dia doze estarão todos aqui: Steven, Raoul...todos!
Sérgio (sem muito entusiasmo) – Ótimo!
Camargo fala exageradamente alto – Vamos comemorar que a vida sem comemoração é coisa de doente. Agora eu quero a mais safada da Casa de Chá porque hoje eu sou o pintudo aqui! Cadê aquela cabrita da semana passada, Biira??? (vê Ana sentada na poltrona) Ah, vem aqui que eu quero ver se você já está molhadinha. Tá pronta pra dar duro?
Ana (apressada) – Estou sempre! Vamos lá?
(Ana fica meio constrangida. Na mesa dos rapazes, todos estavam observando calados, desde a hora que os empresários entraram até a hora em que subiram – Camargo, Ana, Paloma e Sérgio.)
Miguel (já mais calmo) – Está vendo essas figuras? Hoje eles vão subir de toalha e sabonete. Mas pergunta pra Ana se, apesar desse jeito podre que ele tem, mesmo ele sendo feio e velho, mesmo que ele não agüente nem um round com ela; se ela não daria pra ele – e só pra ele – em troca de uma vida luxuosa.
(Ângelo observa sério enquanto Camargo e Ana saem de cena e permanece olhando para a porta que dá ao corredor dos quartos.)
Ângelo – Esse cara é um escroto!
Miguel – A gente sabe disso, mas você sabe que é (acentua) claro que daria!!! Ela comercializa sexo e a imagem sadia dela, de procriadora do rebanho.
(Ana sai de cena com Camargo e, ainda andando, dá uma olhada pro Ângelo pelas costas, depois some. Enquanto isso Cláudio e Sérgio sentam-se em outra mesa, distante de onde estão os caras e a Damariz.
Graça vai se sentar na poltrona com Sabine e Paloma.)
Thomás – Toda mulher é uma puta em potencial. Elas querem saber de conforto e luxo. Aí quando querem sexo elas procuram um cara que nem eu pra ser amante.
Nico (cínico) – É: pobre e tarado!
(Todos riem menos Miguel, que permanece contemplando a mesa e mexendo em algo (tipo um palito) ou, ao invés disso, fica desenhando no molhado da mesa.)
Nessa hora, Damariz que estava só ouvindo o papo enquanto bebia seu drinque, dirige-se até a mesa dos rapazes e senta-se sem ser convidada e começa a atacar.)
Damariz - Vocês adoram falar, né? Muita teoria e pouca vivência. Vou contar uma historinha de quem viveu no final de todo o processo dessa sociedade da qual vocês só idealizam, viu criançada!
Vocês já comeram lixo? Claro que não, né? Mas só faz mal à saúde se você tiver medo de comê-lo.
Era uma vez uma garotinha que decompunha o resto de tudo o que era empurrado cansativamente para os turistas consumirem nas festas de temporada de Maceió...
(As iluminação predominante começa a cair deixando permanente apenas um foco na mesa (que, alcança Nico debruçando-se no balcão para ouvir a história) e os “respingos” brilhantes emitidos pela esfera espelhada do teto do salão. A música ambiente cessa. Parece que todos estão catárticos na cena.)
Damariz - ...são eles que trazem a riqueza pra cá, não é? Então, ela achava tudo o que precisava pra sobreviver no lixão. Achava até dinheiro miúdo. Essa menina, depois de crescida já não mora mais no lixão, ela tem o suficiente pra viver bem e ainda põe dinheiro dentro de embalagens vazias de xampu para os seus que ainda continuam lá.
(É exibido um vídeo animado no telão para ilustrar a história que Damariz está contando.)
Damariz - Ela tinha só onze aninhos e mais parecia um menininho naquela época: com a cabeça raspada e boné para proteger do sol causticante do nordeste. Morava no lixão, numa barraca improvisada. Tudo feito com o material retirado do que os caminhões trazem da cidade. Muitos dos que trabalhavam de segunda a segunda catando lixo, voltavam todos os dias para seus barracos em algum outro ponto da cidade. Ela não! Ela ficava por lá mesmo com o pai, o irmão mais novo e um cachorro para alegrar um pouco a vida dali. Sua mãe morrera dando à luz ao seu irmão.
A ironia de tudo era ver o mar lindo e os prédios de gente abastada de lá do lixão de Guaxuma, o maior de Alagoas. A quantidade de moscas era enorme e o cheiro inefável. Com o tempo dá pra se acostumar com tudo. O dinheiro que eles arrecadavam com o material não alcançava o valor do salário mínimo. Um dia ela se cortou feio em uma latrina quebrada, naquele desespero de chegar perto do lixo novo que o caminhão estava trazendo. O pai dela levou-a ao médico na mesma hora. Depois de fazer o curativo e conversar um pouco com o pai maltrapilho sobre o dia-a-dia deles no lixão, o médico fez uma proposta suja ao homem ignorante que, preocupado com o futuro certamente maldito da filha, consentiu com olhos marejados. Aquela fora a última vez em que se veriam. Ela ainda experimenta o gosto amargo daquele momento...
O médico levou-a para morar com ele lá nos prédios abastados e todos os dias ela ficava olhando pro lixão com esperança de ver seu velho e seu irmão de lá. O médico cuidou dela com pompa, mas em troca ele trazia homens para dentro de casa pra vê-la de biquíni. Ela servia-os de bebida e sentava inocente em seus colos. A primeira experiência sexual foi com esse médico. Logo já estava fazendo programas e recebeu seu primeiro tostão que, sem pensar, foi entregá-lo ao seu velho, ansiosa por dar-lhe a nova de que agora ela poderia tirá-lo de lá. Não fosse ele ter sido assassinado num bar perto do lixão. Dizem que quando ela foi embora ele entregara seu irmão à FEBEM e caíra na mendicância, derrotado pela vida.
Um dia, quando estava bêbado de cachaça batizada, ele tirou um sarro de um outro catador que estava bêbado também. Os dois bateram boca e ele foi atacado com um gancho de rasgar saco bem no pulmão. Ele cuspia sangue para todo lado. Quando o homem puxou o gancho encravado, sangrou o coração há tempos agonizante do pai da moça. O corpo finalmente voltou ao lixão e o assassino fugiu na mesma noite. Nem preciso dizer que ele está foragido até hoje, né?
Daí em diante ela ficou pelo mundo. Primeiro só fazia programas com os amigos nojentos do médico. Às vezes ele chamava vários e ela era obrigada a transar com todos, bêbados. Pra ela aprender a beber e ficar tarimbada na arte do cortejo foi um passo. Estava começando a pegar corpo, já estava com a malandragem suficiente em sua alma pra decidir-se em ir pras ruas. Não tinha mais nada a perder. Ela fugiu da casa do médico e foi morar num cortiço com gente de todo tipo lá. Fora várias vezes pra delegacia e já era conhecida do delegado e dos policiais, pra quem deveria fazer seus usuais boquetes pra ser liberada. Apanhou muito de clientes bêbados.
Um dia ela se apaixonou por um hippie que vendia artesanato naquelas bandas. Achou, com o fundo do coração, que iria se casar e parou com os programas. O cara se entupia de farinha quase todas as noites; quando não tinha ela apanhava e achava que aquilo era normal entre homens e mulheres. Achou que havia nascido pra apanhar mesmo.
Ela foi morar com ele numa barraca até que ele foi preso por tráfico. Ela sempre ia visitá-lo na cadeia. Ficou quase seis meses mangueando sua arte sozinha enquanto a barraca ficava no bar de um amigo que só fazia isso pra que ela desse pra ele. Ela voltou a fazer programas esporádicos com os amigos do médico pois ganhava muito pouco dinheiro com o artesanato.
Quando ele saiu da cadeia voltou a cheirar mais e mais. Estava mais revoltado também. A situação era quase insuportável até que ele teve um piripaque. A sorte dele é que isso aconteceu na casa do médico amigo dela - que também gostava de dar uma narigada. Ele foi levado pro hospital num estado deplorável, ganhou uma cicatriz no gogó, da traqueostomia e voltou para Vitória, sua cidade natal. Lá foi internado pela família.
Ela voltou pra noite e, de vez em quando ia à casa do médico. Foi ele que a levara pra Clareira...
A Clareira era um grupo fechado de médicos místicos e ricaços. Era uma seita muito estranha. Eles acreditavam viver outros planos da realidade quando faziam a trepanação. Acreditavam que quando liberam a pressão do crânio, deixando vazar o líquido raquidiano de lá, o cérebro podia vibrar junto com o coração. Nesse grupo, quando você era iniciado ganhava um jarro que eles chamam de Cisterna de Sereno, que é pessoal. Todo mundo tinha a sua. Lá era coletado um pouco do líquido raquidiano para ser misturado com vinho, que deveria ser tomado para sublimar o corpo e a alma de quem havia sido trepanado. Durante o ritual, cânticos eram entoados e aconteciam muitas coisas ali...
Um dia ela foi convidada por um desses magnatas pra vir pra São Paulo com ele, pois ele tinha uma casa de luxo e lá ela poderia ganhar três vezes mais do que ganhava em Maceió. Ela veio e aqui começou a fazer programas nessa casa que ficava na frente do aeroporto de Congonhas. Tudo quanto é gringo rico freqüentava o lugar. Tinha gente que pagava o preço de um programa a cada menina que estava na casa na mesma noite apenas pra que elas lhe dessem suas calcinhas pra ele fazer não-sei-o-quê com elas.
Ela não parou de freqüentar a Clareira, que tinha um braço bem maior em São Paulo. Foi lá que ela conheceu Haller, um industrial gringo do ramo de automóveis. O cara limpava a bunda com notas de cem dólares e, acreditem ou não, ele se apaixonou por ela e resolveu comprá-la pra levá-la a Berlim e ser puta só dele. E mais uma vez foi feita a proposta suja na vida dela, só que dessa vez não se arrependeria. No mesmo mês estariam embarcando rumo ao Velho Mundo. Ficou por lá durante dois anos vivendo em pleno luxo.
Nessa época ficava com Haller de manhã e à noite ia pra balada. Foi quando conheceu a heroína. Começou a se degradar, sugava muito dinheiro de Haller que já era meio velho e trepava de vez em quando. Ela era só mais uma peça de arte na mobília do gringo. Um vasinho exótico para enfeitar a sala. Quando a droga começou a vincar sua cara, quando começou a ficar com marcas purulentas pelo corpo ele a mandou de volta pra São Paulo. Cuspiu em sua cara e disse que ela tinha ficado nojenta e que esse era o começo do fim dela. Mal sabia ele que ela, há muito tempo, vivia sempre quase no fim. (acentuar “sempre”).
Ela chegou ao aeroporto e pela meia-calça vazava sangue e pus das feridas nos tornozelos e das coxas, que foram incessantemente picadas durante um ano e meio. Ela não tinha mais veias saudáveis e estava amarela da icterícia. Foi até a boate do aeroporto e lá estava só o zelador, que informou que o dono do lugar havia sido preso há uns quatro meses: ”Apareceu na televisão e o cacete...”
Ela estava completamente perdida. Sua primeira crise de abstinência foi violentíssima. Ficou como mendiga na primeira noite em São Paulo. Roubaram-lhe todas as suas coisas, sem nem tirar das malas, enquanto ela estava prostrada na calçada, vomitando mais sangue do que achou que tinha no corpo.
Resolveu que iria à casa de umas antigas amigas, pedir ajuda, pois, se não comesse naquele dia poderia morrer na rua mesmo. De todas as meninas que moraram ali com ela, só a Patrícia ainda estava lá. Depois que ela contou a história pra elas foi de comum acordo que ela ficaria por lá mesmo e que todas iriam ajudá-la.
Depois que se livrou da droga foi para a Augusta fazer programa e em um mês conseguiu sua auto-estima de volta. Hoje ela está aqui, na frente de vocês, mas por muito pouco tempo.
(Aqui termina o clipe do telão. Nesse momento o silêncio é constrangedor. Todos na mesa estão estarrecidos. Ela se levanta com ar altivo. As luzes começam a voltar, lentamente, junto à música e ao som ambiente.)
Damariz - Meu caminho sempre foi incerto, mas hoje quem está no comando sou eu!
(Damariz encara Miguel, que engole à seco.)
Damariz para Miguel (desafiadora) - Já rolei no lixo e no ouro e sei muito bem o que a luxúria pode fazer com a cabeça de uma pessoa que foi engolida pela ânsia por grana, meu chapa! Eu não preciso de aulas de ninguém, (bate no peito com a mão espalmada) eu sou a professora aqui. Meu apê está quase pronto e daqui alguns meses vocês não vão mais me ver nessa vida escrota.
Meu sobrenome é perigo e, se você quiser um pouco mais, vem ser meu álibi na cama. Meu programa é cem reais mais o quarto.
(As luzes e a música já estão reestabelecidas quando ela se levanta da mesa e vai à porta que dá aos quartos. Ao abri-la, ela pára, olha friamente para a mesa onde estava e sai de cena.)
Nico ao microfone - É, meu bem. Afastem as réguas das almas. Se você está sentindo cheiro de nitroglicerina isso não é delírio. Chegue mais perto, não desvie o olhar. Venha provar um pouco de pecado da carne e se inebriar nos caminhos que te levam pra longe de casa até não saber mais nem quem você é, pois, todos nós nascemos com um pouco de aventura no espírito.
Senhoras e senhores, essa é a delirante Paloma, a pomba.
(Sobe Paloma, no palco cenográfico e começa a fazer um strip. Nesse momento Ana Lee sai de cabeça baixa, chorando, abraçada à Marlene. Os caras imediatamente vão ver o que aconteceu.)
Marlene – Não aconteceu nada que não aconteça pelo menos uma vez por semana. O cara estava bêbado e esculachou ela.
(Sai Camargo cambaleando e Ângelo o aborda logo de cara.)
Ângelo (transtornado) - Aí! Tem gente que acha que dinheiro compra tudo, né? É isso aí, mesmo! Pra comprar briga é fácil, fácil! Cê tá achando que é quem, ô Zé-Ruela? O dono da bocada?
Camargo responde à altura – Aí, ó moleque. Acho que nem mulher paga tá ajudando com a tua auto-estima esfarrapada. Vê se arruma um terapeuta pra te dar uma surra de pau mole, seu bosta! Pra ver se ameniza a dor do teu fracasso na vida! Bundão!!!
(Ângelo quebra uma garrafa. Thomás e Miguel vão ao encontro do amigo. Marlene entra no meio da confusão. Nessa hora tem uma rodinha com os dois no meio e seus respectivos companheiros em volta, se encarando. Marlene empurra Ângelo (que já ia partir pra briga) pondo a mão em seu peito.)
Marlene olha bem nos olhos de Ângelo e, incisiva, lança - Faz um favor pra você: seja só mais um cliente que aqui só tem cobra criada.
(Miguel e Thomás puxam Ângelo pelo braço.)
Thomás – Porra, bicho! Parece que você nunca viu isso acontecer! Você sempre foi da turma do “deixa disso”. (quebra o gelo e põe a mão no ombro de Ângelo levando-o ao balcão) Vamos lá que eu vou te pagar uma.
Ângelo – Não fui com a fuça desse puto desde que chegou aqui. Arrogante do cacete! (ele grita e os dois seguram-no firme) Tá achando que é dono do puteiro?!?
(Nessa hora entra em cena Bira, cambaleando pela porta de acesso à Casa.)
Bira - Que porra está acontecendo aqui? Pode não parecer mas isso aqui é casa de família. Se vocês não respeitarem vou ser obrigado a escorraçar todo mundo e procurar clientela na rua.
Sabine (sarcástica) – Bicho, como eu faço pra ficar assim? É ácido, isso aí? Você tá atrasado, malandro. O show acabou e você vi-a-jou!
Marlene – Êêê, pra variar você nunca tá aqui quando eu preciso. Ainda por cima já chega causando?!?
Bira – É que eu confio em você, mulher. Com você aqui a gente nem precisa daqueles dois sonsos lá fora. O que aconteceu, hein?
Marlene – Esquece, Bira! Vai dar um rolê.
Bira – Dá um beijinho aê (faz um biquinho).
(Marlene se afasta sem dar atenção. Bira vai até a mesa dos rapazes.)
Bira (indignado) - Olha só como eu sou benquisto... (fala sozinho).
Thomás – Ô, Bira. Tua mulher entrou no meio de um monte de macho enfezado. Essa aí é durona!
Bira – Você não sabe da missa a metade. Ela já foi presa por que entrou num bar armada atirando pra todo lado por causa de mulher, malandro. O último que mexeu com ela ficou com um sorriso permanente na cara. Dorme no barulho da tia, dorme.
(Bira olha para os empresários e já abre os braços e o sorriso.)
Bira - Meus queridos. Estava procurando vocês mesmo. Que tal uma partidinha?
(Camargo encara Ângelo que o encara de volta.)
Camargo (provocativo) – É melhor a gente ir mesmo senão alguém vai sair machucado.
(Ângelo faz menção de se levantar e Thomás segura seu braço.)
Cláudio – Ótimo!
Bira você precisa pôr uma sinuquinha aqui, cara. Assim você acaba consumindo mais por aí do que em sua própria casa.
Bira – Que nada! O Adalberto está falindo e eu tenho uns esquemas com ele. É só ele abrir as pernas que o negócio dele vem todo pro meu nome.
(Saem pela porta da frente Camargo, Cláudio e Bira. Sérgio senta na poltrona da frente do palco cenográfico com Ricardinho. Ana sai do banheiro e senta sozinha na mesa da frente de onde estão Ricardo e Sérgio. Ângelo vai atrás dela e se senta à mesa bem perto dela.)
Ângelo - Ana, você não tem vontade de sair daqui?
Ana (chorosa) – Sabe, Ângelo. Isso aqui dá muito dinheiro. Só Deus sabe o que eu passei quando cheguei em São Paulo. Eu tenho faculdade, cara! Gastei muita sola de sapato atrás de emprego, pra ganhar uma merreca e tentar ser digna. Casei cedo pra fugir de um ambiente familiar doentio, com uma mãe bêbada que apanhava dos merdas que ela levava pra casa. Apanhava na minha frente, cara! Saí de uma cidadezinha minúscula do interior do Paraná. Um ovo! Vim pra cá desquitada de um bosta que achou que eu não teria peito de sair do amparo de um casamento fodido pra vir me virar sozinha e com dois filhos em Sampa. Fiquei de favor na casa de uns tios até achar um anúncio pra ser recepcionista de puteiro. Mal eu sabia...
Ângelo (tocado) – É, deu pra perceber que você não gosta muito disso tudo que rola aqui, né?
Ana – Por muito tempo eu senti nojo, Ângelo. No começo eu tomava dez banhos e ainda me sentia nojenta. Depois de uma noite aqui, chegar em casa e brincar com meus filhos tudo isso vai embora.
Muita mina chega aqui achando que é só diversão, que é fácil. Depois de um mês, quando elas vêem a realidade, muitas já estão sem nenhuma auto-estima, cara. Querem saber de ganhar a grana da noite e sair fora. A grana vem muito rápido se você se dedicar. A maioria dos caras demora em média vinte minutos pra gozar. Têm aqueles que cheiram muito e nunca gozam. Às vezes eles não têm noção e machucam a gente de verdade, ainda mais eu, que tenho o útero baixo pra caramba. Nem imaginam o que é ter um útero, acham que só é legal quando subjugam a gente. Ficam achando que machuca porque o pênis deles é enorme. Na verdade são uns animais!
Ângelo – Ana, tudo o que quiser você consegue. É só visualizar isso. O primeiro passo que você der todo o novo caminho se descortinará na sua frente.
Ana – É fácil pra você falar. Você nasceu numa família normal, não precisou se foder na vida. Ganha bem trabalhando pro seu pai. Você sempre teve sossego...
Ângelo – Não, Ana. Todos têm uma cruz pra carregar. É sério, você também pode ser bem-sucedida fora daqui.
Ana – Você acha que foi o único que veio com esse “papo de aranha” pra cima de mim?
Ângelo interrompe Ana – Eu quero sair daqui com você. Quero te conhecer melhor.
Ana – Você tá louco, cara!
Ângelo – Quanto você tira numa noite que nem hoje
Ana – Começou mal. Tá querendo comprar minha noite? Paga pro Nico, pega a toalha e o sabonete e vamos pro quarto.
Ângelo (misterioso) – Então me aguarde.
Ana – Quê? Aonde cê vai? Tá doidão?
(Ângelo sai de cena pela porta de acesso, apressado. Ana meneia a cabeça imaginando que Ângelo vai dar com os burros n´água se tentar conquistá-la dessa maneira.)
Nico ao microfone - Senhoras e senhores, essa é Seda Sabine ou Sabine Sedada.
(Ela sobe vestida de sado-masoquista).
Vestida de quitina marrom
Pra girar no teto do salão
Cair no seu colchão fossilizado
Com pulga e guimba de cigarro.
Bebi todo o perfume da fonte
E me enforquei no meu rosário
Estou perdendo contato (e eu gosto)
Enclausurada eu sua “outra”.
Inflamação e incerteza
Viver é um jogo de azar
Corta essa demagogia
Psicologia é boa no bar
(Refrão) E eu gosto muito
Dessa vida encardida!
Nico no microfone - Atenção, senhorita Ana Lee. Sua presença é ansiosamente aguardada na recepção da Casa de Chá.
Hmmm, parece que o babado está forte, mona. Ai, essas rachas, viu! Gente, vamos logo que a vida é uma só! Vocês estão esperando o que pra virar tudo de cabeça pra baixo?
(Ana põe a mão na cabeça, pensa um pouco e se levanta. Pede a bolsa para Nico que retira-a de trás do balcão e a entrega a Ana. Nessa hora Damariz volta à cena pela porta de acesso dos quartos. Gracinha levanta-se e vai ao encontro dela e puxa-a pela mão delicadamente quando a música ambiente recomeça. As duas começam a dançar grudadas, com as coxas entrelaçadas.)
Gracinha - Poxa, Damariz. Tu é uma dama mesmo. Paguei um pau quando tu contou tua história. Tu tava toda posuda.
Damariz (de olhos fechados) – Continua que eu estou ficando com tesão.
Gracinha – Tu fez aquilo tudo mesmo? Tu tem história pra contar mas deve ter muito mais pra mostrar. Qual é teu lugar preferido: a cama ou o palco?
(Damariz abre um dos olhos e percebe Ricardinho e Sérgio “alucinando” com o espetáculo.)
Damariz – Tem uns caras olhando ali...
Gracinha – Deixa eles, comer você deve ser uma experiência transcendental!
Damariz (ofegante) – Você quer gozar do outro lado?
Gracinha (ofegante) – Quero!!
Damariz – Então continua comigo.
(As duas começam a gemer e gozam no meio do salão. Apagam-se as luzes e a chuva começa no telão. Muitas trovadas. O telão mostra a rua à noite e os clarões ao longe. A cena faz fade-out para o claro até aparecer o rosto de Paloma na poltrona da sala de estar. O barulho da chuva continua em back-ground.)
Paloma – As lembranças da minha infância são de dentro da FEBEM. Depois que eu fugi dava pra um padre em troca de abrigo e cigarros. Conheci uns punks e fui morar num prédio interditado. Quase todos eles foram presos porque nós éramos menores e dávamos pra eles (ri). Até eu fui presa por essas besteiras - por vender fuminho, acredita?!?! Se aquela vaca daquela juíza imaginasse a gravidade dos outros crimes que cometi não acharia artigo pra me enquadrar!!
Nico – O crime é a pimenta, um tempero muitíssimo apreciado na arte. Todos devem ser inocentados dos crimes que cometem na imaginação e se alguma coisa é confessada, isso vira arte! O criminoso nunca é um artista porque precisa depurar seus métodos, porém, isso não nega a relação direta do crime com a arte. Ousar se levantar contra o estabelecido ou despir a natureza, isso virou a minha cabeça quando era um jovem estudante de Artes Cênicas. (nostálgico) Eu pensava: o que seria do mundo se todos os assassinos tivessem antes a chance de penetrar no corpo de Ralscolnikóv em seu crime e seu castigo? Haveriam menos detentos e mais sado-mazoquistas na Casa de Chá! Eu gosto de estimular essas viagens nas pessoas e até sirvo-lhes alcalóides a fiado e, pode acreditar, a maioria deles vêm de ervas, sementes e extratos que podem ser obtidos nos mais ingênuos jardins. Eu mesmo produzo os meus...
Cláudio – Eu abomino a idéia de que todos somos criminosos em potencial. Isso é coisa de vagabundo que enche a cabeça de romance policial, de gente mal resolvida ou de psicopata; daí o cara tem mesmo é que ir pro hospício, sair do convívio saudável. Apesar do nosso convívio hoje não ser muito saudável – é culpa do governo! Criminoso pra mim tem é que morrer! Pô, vai arrumar um emprego, preencher o tempo com coisas produtivas. Eu tenho pena da nossa juventude hoje. Tudo o que esses malucos põem na televisão incita eles a serem criminosos.
Camargo – Eu fiz muita merda na vida. Mas eu não tenho dó de ninguém, não. Afinal de contas vivemos numa selva, é comer ou ser comido. Eu fiz alguns banquetes... (dá uma gargalhada sonora). O problema é quando tem uns chatos que não se satisfazem e não largam do teu pé enquanto não enriquecerem às suas custas, os caras se aproveitam. Tudo bem! Uns são caros e logo somem da tua vista, outros viram fregueses e qualquer deslize seu eles já estão em cima de mãos estendidas querendo um trocado para ficar quieto. O cabra pode fazer o que quiser desde que as mancadas não caiam na boca do povo. Aí é foda, bicho! Todo mundo é malandro – essa é a cultura do povo – mas se a sua mutreta fica famosa todo mundo dá uma de moralista. Vai fazer o quê? A gente joga conforme o baralho, as regras são só pra enfeitar (dá um sorrisinho malicioso).
Ana Lee – Eu só temo pelos meus filhos, eu já estou corrompida mesmo. Tenho horror só de pensar em visitar filho na cadeia. E se acontece alguma coisa com eles então? O mundo está podre, as pessoas estão cada vez mais loucas. A gente vê cada coisa na TV...
(O telão se apaga. Aumenta o som da chuva que permanece até o Terceiro Ato.)
TERCEIRO ATO
“Pecadillo”
(Barulho de chuva e trovoadas.
O telão mostra o nome do ato e as luzes se acendem. O cenário é o do Bar do Adalberto. Na cena estão Bira, Camargo, Cláudio e Sérgio jogando sinuca, de pé.)
Cláudio - Camargão, está confirmada nossa noite. Todos vão vir! Estou com frio na barriga só de pensar.
Camargo – E aí, Bira. Como estão os preparativos?
Bira (grave) – Camargo, eu tenho uma proposta meio delicada pra te fazer, meu amigo. Que demanda um pouco de cautela e a cumplicidade total da parte de todos.
Camargo – Acho que agora a gente precisa de algo bem forte, né? Adalberto, vê um Domeqc pra gente.
(Eles encostam seus tacos no balcão, um perto do outro antes de se sentarem. Em pouco tempo já estavam com seus copos de conhaque na mesa.)
Bira – Vamos nos sentar pois o assunto exige concentração.
Sérgio – Ih, quando começa assim...
Bira – É, realmente o papo é tenso e eu vou precisar da cumplicidade de vocês.
Sérgio se levantando – Olha só: eu vou sair, vocês resolvam tudo o que têm pra resolver e, se me perguntarem, eu nem vi vocês hoje. Qualquer coisa estou lá na Casa de Chá.
Cláudio – Sérgio, deixa de ser bundão!
(Sérgio bebe o resto do conteúdo em seu copo e sai.)
Camargo – Deixa ele, o cara nunca tinha entrado num puteiro na vida. Tampouco deve ter pego uma cabrita antes e, agora que a gente conseguiu o feito heróico na moral dele, o cara tem de se adaptar. Não podemos exigir muito. Mas o que você estava falando mesmo?
Bira (calmo) - Então, milagrosamente eu recebi uma proposta que, se fosse em outra ocasião nem hesitaria em recusar. Milagrosa pois chegou exatamente no momento em que eu estava planejando a festa pra vocês e, esse fato invariavelmente pode mudar a cara da festa.
(Dá um gole e continua.)
Bira – Qual é o limite da libido de vocês?
Cláudio (empolgado) – Nossa, meu frio na barriga está virando um iceberg. Nunca estive tão excitado quanto nesses últimos dias que precedem a festa. Diz aí o que é logo. (Desiste gesticulando) Não, não...! Continua com o suspense, não se avexe.
Camargo (enérgico) – Deixa o homem falar, porra! Tá parecendo puta apaixonada!
Bira – Então, vocês sabem que eu sou um homem conhecido, de contatos tanto de gente rica como de gente miserável. Afinal, eu trabalho num ramo meio escuso e é preciso ter jogo de cintura excepcional pra estar entre o crime e a legalidade e permanecer ileso, entendem? (faz uma pausa e traga o cigarro).
Ontem eu estava indo para o meu estabelecimento trabalhar quando recebi uma ligação em meu celular. A pessoa do outro lado era um amigo antigo, da época em que eu tinha apenas um barzinho em Santo Amaro. O caso é que esse cara sempre esteve metido em trambique de todo tipo. Inúmeras vezes foi parar no hospital e na cadeia - aliás, não sei como ainda está vivo ainda. O cara é todo remendado das facadas e tiros que recebeu. Tudo bem. O negócio é que ele me deu uma força numa época da minha vida que, se não fosse essa força, eu não estaria aqui. Não gosto nem de lembrar...
Cláudio – Mas o que tinha acontecido? Fala aí, porra!!!
Bira – Não, isso aí é outra história.
Cláudio (impaciente) – O que foi: dinheiro, briga...?
Bira – É, deixa pra lá...
Cláudio – Foi briga! (depois de um tempo ele conclui) Ele matou um desafeto teu?!?
Bira (firme) - Cláudio, desculpa mas não quero nem lembrar disso.
(continua no tom calmo de antes) Então, o cara ligou pra mim e eu percebi que ele estava numa enrascada. Se meteu numa fria no jogo, com um pessoal sem escrúpulos. Eu tenho a impressão de que esse pessoal é “caga-grosso” do crime organizado, saca?
Cláudio estranha – “Caga-grosso”?
Camargo (impaciente) – É, “Caga-grosso”, “pica-grossa”, o pessoal é fudido, tipo, poderoso. Entendeu? Bom, mas o que esse cara precisa, quero dizer, de quanto esse cara precisa?
Bira – Muita. Os caras já tomaram a casa dele e ainda falta bastante pra saldar.
Camargo – Quanto?
Cláudio – É, de quanto?
(Camargo manda um olhar de desaprovação para Cláudio e volta-se de novo para Bira.)
Bira – Cinquentinha.
Camargo (assustado) – Quê??????
Bira – É! Só que o cara teve uma idéia pra poder arrecadar esse dinheiro. Ele tem uma filha de dezoito anos. Uma drogadinha perdida que está se encaminhando para o crime.
(Os dois (Camargo e Cláudio) ficam estarrecidos nessa parte, prevendo o que o Bira estava por falar.)
Bira muda o tom justificando-se – Ela vive uma vida miserável na favela. É linda, a menina. Eu a conheço. O pai dela aparece de vez em quando no barraco onde mora a filha, só que nunca fez muita coisa por ela. É complicada a história. Só que ela está de saco cheio dessa vida: mora com uma amiga, o pai manda uma merreca pra ela todo mês - que ele só vive de trambique também, né. Uma hora tem, outra não... Daí ele disse que ficou sabendo que ela está envolvida com uns traficas de lá da área dela, entendeu, e não gostou nada da idéia, claro! Ele já falou com ela sobre o assunto e ela consentiu, afinal, só precisava de uma força pra ela mudar de vida e, essa força só poderia vir de mim, o amigo do pai dela que tem puteiro.
Cláudio – E a mãe dela?
Bira – Sumiu desde a nossa época.
(Camargo põe a mão na boca e Cláudio bebe seu conhaque em uma só golada, depois faz o mesmo com a cerveja.)
Cláudio (sombrio) – Adalberto traz o conhaque e deixa a garrafa aqui.
Bira – Eu me comprometi com ele de que a menina ia ser bem tratada onde quer que fosse. Que informarei o comprador das conseqüências de qualquer maltrato que ela venha a receber e de que nós entraremos em contato com ela toda semana. Se isso não acontecer, já sabe, né?
Bom, o caso é que eu achei que isso iria ser interessante na festa que vocês querem dar, tipo a grande atração, entende? O leilão da virgem. Eu vou arrumar um cara pra sustentá-la e dar condições pra ela arrumar a vida dela até que ela fique madura e consiga dinheiro pra tirar o pai dela da bosta. Quanto à emancipação não há problemas, pois ela já o tem há algum tempo por motivos óbvios...
(Cláudio olha assustado pra Camargo que está impassível agora e encara Bira muito sério.)
Cláudio transferindo a responsabilidade – E aí, Camargo?
Camargo olha pra mesa pensativo – É, eu preciso dar uns telefonemas.
Bira – Isso, pensa nisso direitinho depois me fala. Mas não demora pois a menina chega hoje pra ficar lá na Casa de Chá e, puta maior de idade até tem acerto, pra menor o negócio complica. Quero ela fora dali o mais rápido possível.
(Bira bebe resto do copo já de pé e sai.
Na tela a transição a câmera parada exibe, no rés do chão, um bar ralé da Augusta e as gotas de chuva estourando na calçada. Vê-se os passos atravessando a cena. Ouve-se buzinas, pessoas conversando e a chuvarada, com muitos trovões. Há um fade-out na cena e, só o que se ouve é o barulho da chuva e os trovões, até que, ainda no escuro, Nico fala ao microfone.)
Nico - Onde você quer chegar, babe? Até onde chegou, honey? Fizemos nossa cama quentinha sobre ossos glaciais pra nos proteger do frio dos outros. Temos uma vela no peito cuja chama bruxuleante e frágil nos dá indícios de algo que parece ser nossa vida, mas qualquer sopro e...puff!!! o melhor de nós se dilui no ar como fumaça derradeira. A todos os que se propõem a causar o incêndio, eu vos saúdo!!!
(A luz se acende e Bira aparece cumprimentando Nico baixinho e entrando no escritório logo após. O som da chuva diminui e o burburinho da balada volta a predominar.
Paloma sentada no sofá, quase deitada com a cabeça apoiada na cabeceira entortando o pescoço pra frente. Está com as pernas abertas e esticadas. Fala gritando. Está completamente embriagada.
Completando a cena estão Miguel e Thomás na mesa costumeira (ao lado do balcão) e Ricardo, sentado no balcão com Sabine (perto da poltrona.)
Paloma (falando alto) – Eu quero mijar!!!
Sabine fala aponta pra Paloma e comenta com Ricardo – Olha que vacilona!
(Thomás põe a mão na cara rindo como se dissesse “eu não acredito”.)
Paloma (mais alto) – Eu quero mijar, caralho!!! (faz uma pausa, repara em Miguel e solta) Aê, Miguel pega uma cerveja pra mim senão eu vou mijar aqui!
(Ele está sentado na mesa de costas pra ela. Quieto e visivelmente desinteressado, tanto que nem olha pra ela quanto fala.)
Miguel – Mija aí, então.
Paloma (imperativa) – Dá esse lixo pra mim, eu vou mijar nele!! Passa pra cá esse lixo!!!
(Paloma aponta um lixo entre as banquetas no balcão. Todos riem e ela cai de lado falando umas besteiras inaudíveis.)
Paloma (nostálgica) – Cadê o Nico pra eu desabafar? Nicoooooo! Eu preciso do seu colo de bicha boooooooooa!
(Nessa hora sai Nico do banheiro abotoando a calça. Entra no bar sem nem olhar pra ninguém, prepara uma dose e bebe. Depois sai Sérgio com um sorriso de orelha à orelha. Todos reparam, só Paloma não se dá conta. Ele está completamente diferente, sua postura séria havia ficado naquele banheiro.)
Sérgio em tom de satisfação – Esse lugar é um ótimo hospital para recalcados e eu estou curado graças à vocês! Em homenagem a todos vocês eu ofereço uma rodada do que quiserem por minha conta.
Nico (irônico) – É, mais um cliente feliz.
(CONVERSA PARALELA.)
ÊNFASE NESSA CONVERSA
(Na mesa os Miguel e Thomás conversam.)
Miguel – Thomás, você não tem um canto pra abrigar um companheiro lá, não?
Thomás – Ih, cara. O que aconteceu? Vai me dizer que saiu na mão com a velha?
(Paloma se levanta de chofre e caminha entre todos pedindo um gole de qualquer coisa dizendo: “deixa eu dar uma beiçadinha?”.)
Miguel – A mulher já me expulsou de lá. Me deu uma semana. Confiscou todas as minhas coisas. Ela acha que eu esquento a cabeça, que sou que nem ela. HIHIHI!!! Já estou na merda mesmo, sou quase um monge, cara! As únicas coisas que realmente me importam estão aqui na minha bolsa e as únicas que estou liberado pra pegar lá são meus livros, que eu vendo por aí, o resto...
Thomás – E aí, como estão as vendas?
Miguel - Quem compra são os da mesma massa da qual fui moldado: os boêmios, artistas, gente solitária ou libertina. Os boys só querem saber de se alhear. Agora eu estou escrevendo minha obra máxima, o sumo da minha filosofia. A minha maturidade e experiência aliadas à força da minha juventude. Vou ofertar ao mundo o testemunho de um pensador marginal, que vê o florescer de uma nova era mas está excluído dela, porém, está iluminado. Enclausurado em um mundo lotado e sem leis. Vai ser um sucesso pois nós, os excluídos, somos maioria.
Thomás – Cara, da pesada isso aí. Não estou querendo me alhear, não, mas então, quanto ao lance do apê, eu até estou querendo me mudar e dividir um apê com alguém, só que vou precisar de pelo menos dois meses. Vamos precisar de fiador, também.
Miguel – A gente conversa com o Bira.
(Sérgio) – Onde você mora, Niquinho?
(Nico) - Eu, hein! Não quero surpresas no meio da noite. Finge que eu fui só um espectro, uma epifania, um sonho, sei lá, algo da sua cabeça. Não tenho endereço, sequer existo, tudo bem?
(Faz uma cara de quem quer assustar, agitando as mãos como se fosse pegar Sérgio e emite um “búú” com voz de bobo.)
(Sérgio jocoso) – Ai que medo! Esse fantasma vai baixar lá no meu terreiro. Será que ele não incorpora em mim, não? Vou adorar ser o cavalinho.
(Nico) – Olha, a Mãe Jacobina aqui só faz trabalho agora mediante um donativo simbólico.
(Sérgio desconversando) – Você usa lápis de olho ou ele lindo assim mesmo? Deixa eu ver de perto?
(Nico) – Agora não, bebe isso aqui e sossega, vai.
(Nessa hora ouve-se os berros de Marlene lá de dentro.)
Marlene (possessa) – Você é um otário mesmo!! Nem conte comigo, tá!!! Essa vai ser a sua última palhaçada. Você não cansou de ser um merda na vida?
Bira (se justifica) – Marlene é pro nosso bem! E além do mais já está tudo certo, ela vem hoje e não tem mais volta! Já deve estar chegando.
Marlene – Você nunca mede as conseqüências, só pensa em você. Se precisar eu volto pra rua, viu??? Eu não dependo de você pra nada, cuzão! Olha aqui, ó! Eu rasgo teu bucho, viu!!!!
(Ouve-se um tapa e uns berros dos dois. Umas cacetadas e logo um silêncio. Vê-se a porta do escritório se abrir e uma mão pendurar uma gravata feia na maçaneta. De repente os dois estão transando e gemendo muito alto. Nico decide quebrar o clima.)
Nico ao microfone - Senhoras e senhores. O dia da festa é amanhã e, portanto, já temos um cardápio deslumbrante preparado. Vai ser um banquete à la orgia grega, com todo o requinte de exotismo dos antigos e luxuosos triclínios. O que é mais excitante é que a festa é fechada para os amigos da Casa de Chá, então quem não pôs o nome na lista vai ficar de fora. Esta é a última chamada.
A bebida hoje é o “Grogue Cigano”. Senhoras e senhores essa é Paloma, a Pomba.
(Paloma é acordada por Ricardo que está do lado dela Ele ajuda-a a ir até o palco cenográfico e fica por lá assistindo a apresentação de pé. Ela sobe cambaleando no palco cenográfico e pega o microfone.)
Paloma – Alguém tem um cigarro pra me arrumar, aí da platéia?
(Nico gesticula incitando os Meus Meninos a começarem logo a música.)
“Mate-me por Favor”
Eu não confio em mim
Intimamente.
Meu mundo está rodando
Com faróis apagados.
Eu não quero placebo
Às três da manhã
Pode ser outro eu
Ou pode ser ilusão.
Dramas noturnos inauguram meus dias
Mas mesmo assim ainda vou me entregar.
Embriagada e com fogo no corpo
Então solta meu braço, ah!
Eu não respeito você
Com meu prazer:
É misantropia
Ou quem me enternece.
Vou dar alforria
Pra minha mente,
Você me quer assim
Você me quer demente.
Dramas noturnos inauguram meus dias
Mas mesmo assim ainda vou me entregar.
Embriagada e com fogo no corpo
Então solta meu braço, ah!
Me traz heroína
Me suicida
Destruição construtiva
Não é novidade.
Eu faço o que eu quero
Legitimada
Pelo meu realismo
Meu ser urbano...
Dramas noturnos inauguram meus dias
Mas mesmo assim ainda vou me entregar.
Embriagada e com fogo no corpo
Então solta meu braço, ah!
(A performance de Paloma estava horrível. Não conseguia tirar a roupa com sensualidade, era como se ela estivesse tirando-a para entrar no chuveiro da sua casa. Nesse momento um dos leões de chácara entra e fala algo para o Nico que consente com a cabeça.
Isabel adentra o recinto vestida de sainha e chinelos, carregando uma mochila nas costas. Seus cabelos estão presos com grampo. Ela espera o fim da apresentação e pergunta a Nico.)
Isabel - Ô, quem é o Biramar? Eu quero falar com ele.
Nico (afável) – Quem é você, docinho?
Isabel – Fala pra ele que é a filha do Cica.
(Ainda dá pra se ouvir os gemidos dos dois quando Nico dá duas leves batidas na porta.)
Bira (puto da vida) – Porra, Nico! Agora não dá, cacete! O que eu falei pra você sobre a gravata na maçaneta?
(Um tempo se passa.)
Bira entende a situação e muda o tom de voz – Tá! Já sei. Espera que eu já tô indo.
(Nico volta.)
Isabel (blasé) – É, eu já ouvi.
Nico – Você aceita algo pra beber? Um suco, refrigerante...?
Isabel – Tô sem grana, cara. Só se for de graça.
Nico – Tudo bem, pode pedir. São as regras do anfitrião: convidados podem beber.
Isabel – Certo, tem Maria-Mole aí?
Nico – Quantos aninhos você tem, babe?
Isabel (ousada) – Maluco, você não parece ser o tipo cidadão-modelo. Além do mais, nada do que você fizer vai me corromper a essas alturas. Então, se não tiver Maria, serve conhaque mesmo.
Nico (cínico, porém, com um sorriso na boca) – Bonita criança. Educadinha também!
(Entram em cena Bira e Marlene se arrumando.)
Bira – Olá, Isabel. Tudo bem? E seu pai?
(Bira beija e abraça a menina.
No meio da música Paloma desce do palco cambaleando, de calcinha e sutiã (está só com um seio à mostra, apenas com uma alça ainda no lugar) e se dirige para onde Thomás está.
Ricardo vai se sentar na poltrona ao lado do palco cenográfico.)
Paloma para Thomás - Descola um cigarro aí.
(Thomás dá e acende pra ela.)
Paloma – Valeu. Quer um boquete?
Thomás – Paloma, hoje não. Mas eu agradeço a atenção. Você é um anjo de menina.
Paloma – Cuzão!
Thomás (cínico) – Eu também te amo.
(Ela mostra a língua pra ele e vomita no sofá. Marlene vê toda a cena e vai até Paloma que já está sentada. Nico vai até os Meninos e, discretamente pede pra que eles terminem a música por ali mesmo.)
Marlene dá uma bronca com o dedo em riste – Escuta aqui menina, você vem pra cá pra viver as suas fantasias e nós estamos aqui pra ganhar a vida, tá entendendo?
(Paloma limpando a boca com as costas da mão.)
Paloma olhando pro chão (insolente) – Se teu marido não te come direito não é problema meu, põe um silicone, faz uma lipo, mas não vem me encher o saco. “Eu faço o que eu quero legitimada pelo meu ser urbano!“
Marlene (imperativa) – Gracinha, Ana ajudem aqui, vai! Levem essa garota lá pra dentro que quando ela ficar melhor nós vamos ter uma conversinha.
(Paloma se contorce, porém, sem muito ânimo, quando as duas tentam ajudá-la a levantar.)
Paloma grita – Tira o dedo do meu cu, me deixa viver! me embriagar! Mais de mil bocas malditas passaram pelo meu corpo, “então solta meu braço, ah!!!”
(Canta a última frase quase gritando. As duas levam Paloma carregada e relutante enquanto Marlene volta para dar atenção à Isabel e ao Bira.)
Bira – Desculpa o inconveniente. São os ossos do ofício. Então, e seu pai? Como está?
Isabel – Mandou isso pra você. Ele pediu pra se comunicar com ele só por esse celular.
Bira – Ok, depois eu falo com ele. Essa daqui é a Marlene, minha esposa. Marlene, essa é a Isabel.
(Marlene volta para onde estava, olha a menina de cima abaixo com um jeito blasé.)
Marlene – Então essa é a menina? Como vai você, mocinha?
Isabel – Firmeza. E aí, tem como eu beber uma Maria-Mole, dona?
Marlene (firme) – Você tem certeza do que está fazendo, né, menina? Eu não vou segurar a onda de ninguém na delegacia, é por isso que eu não tenho filha do teu tamanho. Aqui eu mando fazer e mando desfazer, então é bom você ir se acostumando.
Isabel (insolente) – Já vi que vocês são meio moles mesmo. Meu pai disse que aqui ninguém ia ter preconceito de mim só por causa da minha idade.
(Bira faz um sinal com a mão para Marlene ter um pouco de calma.)
Marlene – Nico faz uma Cuba com bastante gelo e coca. Mas só uma, viu! Se ela pedir mais venha falar comigo que aí não bebe mais nem caldo-de-cana aqui.
Nico – Sim, senhora.
Bira – Vamos lá pra dentro. Eu vou arrumar um quarto pra você. Nico dá uma toalha e cinco sabonetes aí. Aproveita e faz um favor pra mim: dá uma caneta e um guardanapo.
Nico – Pois não, chefinho.
(Nico dá o que Bira pediu e começa a fazer a Cuba.)
Sérgio suspira com um olhar apaixonado fitando Nico – Ai, esse Nico é demais, não é?
(Bira olha pro Sérgio surpreso e volta o olhar pro papel.)
Bira – Ih, já era! Você caiu na teia do Nico, né?
(Bira entrega o papel e a caneta para Nico, que já terminou a Cuba. Nico pega o papel e a caneta, põe em um canto e depois entrega a Cuba pra menina.)
Nico – Tudo pela clientela, chefe. Não gosto de ninguém insatisfeito.
Bira – Liga pra esse número e fala pro Camargo que eu quero falar com ele ainda hoje. E ó: se a demanda pelos seus serviços extras aumentarem eu vou começar a cobrar, hein.
Sérgio (lascivo) – Hmmmmm, pagando ia ser mais gostoso. O Nico iria ser meu todos os dias.
(Bira entra com as duas: Marlene e Isabel.)
Sérgio – Nico eu tenho muito o que falar com você. Umas dicas, sabe?
Nico – Vê se não se apaixona, hein. Eu só fui um atalho entre você e a felicidade. Nada mais.
Sérgio – Muita coisa vai mudar entre mim e a Rosália daqui pra frente.
Nico – Alô ...seu Camargo?
(Sérgio vai se sentar com Ricardo na poltrona perto do palco cenográfico. Nesse momento entram em cena Damariz e Gracinha (maravilhada!!!), pela porta que dá acesso aos quartos. Gracinha interrompe o andar de Damariz puxando-a pelo braço e a abraça.)
Gracinha (mansa) – Espera aí (pausa). Não é assim, transar e sair correndo. Eles é que fazem isso, eu não paguei você! O que aconteceu agora naquele quarto foi completamente novo pra mim. Eu tenho medo do que pode acontecer, sabia? Tenho medo de me apaixonar.
Ricardo bêbado – Psiu, vamos fazer uma festinha particular!
(Elas nem dão atenção a ele.)
Damariz – Lindinha, curte o que você tem pra curtir agora. Essa é a sua hora, a sua vez. Todos aqueles caras que você ia visitar nos presídios do Rio eram tão crianças quanto você era. Eles não tiveram a chance que você está tendo de viver sua juventude plenamente. Naquela época você havia se entregado a pessoas de espírito escasso e remendado. Você nem tinha descoberto a vida ainda, era uma criancinha iludida por romances que eram sustentados pela adrenalina e por ganhos fáceis.
Gracinha – Eram uns meninos na vida, na cama então...
Ricardo – Hei, o vamos conversar os quatro. Senta aqui, ó! (bate num espaço entre ele e Sérgio).
Damariz - Hoje você sabe que ser a “princesinha do pagode” não é suficiente quando se tem um buraco no coração deixado pelos pais que fugiram amargurados por sua causa.
Gracinha - Com você eu descobri algo mais potente, mais maduro, mais sólido, sei lá...! É amor! É tudo isso que você me fala, esse seu jeito de mistério, mas que é ao mesmo tempo carinhoso e reconfortante.
Damariz – Você é muito carente, bonitinha. Só nós sabemos o que você sentiu quando chegou do baile e viu seu barraco pegando fogo. Toda aquela multidão, todas as suas emoções expostas às pessoas que você condenava por levar suas vidas de modo metódico e sem emoções. Elas a quem você chamava de falsas e hipócritas, elas que dariam a notícia do sumiço de seus pais e seus ombros pra você chorar. Eu não te condeno - você não sabia de nada do mundo naquela época. Sei que hoje você se arrepende de um monte de coisas. Mas saiba que seus pais fugiram pra tentar fazer algo por você e, realmente conseguiram, né? Pois finalmente você não está mais revoltada, apenas sente tristeza e muitas saudades.
Saiba que eles te amam muito e estão muito bem, morando no Rio ainda. Num lugar que não consigo enxergar muito bem onde é. Mas eu tenho uma boa notícia: você vai conseguir se realizar pessoalmente e isso está muito próximo.
Gracinha - Damariz fica comigo? Eu nunca senti isso antes.
Damariz – Você é uma criancinha linda e inocente, apesar de saber exatamente o ponto da loucura dos homens. É uma gracinha!
(Ela se encaixa no pescoço de Damariz que passa a mão em seu rosto. Depois Damariz segura bem o rosto de Gracinha, olha bem em seus olhos e beija a sua testa com carinho singular, demoradamente. Quando afasta os lábios uma marca vermelha de batom fica na testa de Gracinha.)
Gracinha – Ai, eu senti uma coisa estranha quando você me beijou.
Damariz, ainda acariciando os cabelos da Graça completa - Você está marcada, amor.
(Gracinha olha para ela espantada e a abraça com força.)
Graça - Marcada pelo amor. Eu sinto uma cega confiança em você.
(Damariz pega-a pelos ombros afastando-a e olhando-a em seus olhos.)
Damariz – Pode ter certeza que o que vai acontecer daqui pra frente poucas pessoas vivenciaram. Você é uma felizarda e não está sozinha. Nada de mau vai acontecer a você, só deixa seu corpo vir ao bojo do meu. O que aconteceu naquele quarto agora foi singular.
Gracinha (maravilhada) – Foi lindo, foi santo. Se os homens soubessem o que nós sabemos... Eu tô inundada de você, sinto que posso respirar até debaixo d’água, como se imergisse nas lágrimas de Deus.
Damariz – Você vai ficar pra festa, né? No próximo dia doze uns amigos meus vão vir aqui e eu vou te apresentar à Clareira.
(Gracinha olha Damariz com estranhamento e se afasta das mãos dela devagar.)
Gracinha (desconfiada e meio apreensiva) – Clareira é aquele lance de furo na cabeça, né? Sei não, Dama. Será que eu preciso mesmo fazer isso?
Damariz – Você já passou da hora de se apresentar. Está preparada. Sabe isso o que você está sentindo? Como se estivesse iluminada? É assim que vai permanecer daquele momento em diante. Vai ser especial, como você é. Olha pra mim, eu descobri um monte de coisas depois da Clareira e, pode ter certeza, quando eu fui apresentada sabia que isso tinha que acontecer. Foi melhor pra mim, como vai ser pra você.
(Damariz abraça-a e a Beija de novo.)
Damariz – Só tenha paciência, minha criança. E não se preocupe: com você, outra pessoa daqui também vai se apresentar. Como eu te falei, você não vai estar sozinha.
(Ana chega puta da vida, dando passos duros. Não está vestida como habitualmente, não parece ser “da noite”. Ela entra em cena pela porta que dá acesso à Casa, contorna o balcão, dirige-se até a última banqueta, joga a bolsa e senta-se escorada no espelho da parede. Nico vai até lá e guarda sua bolsa.)
Ana - Porra! Homem é besta mesmo. Bêbado e carente, ainda, ninguém merece. Homem é muito fraquinho.
Gracinha – Que foi que aconteceu, mulher?
Ana (estafada) – Nico, você tem alguma coisa pra me acalmar aí?
Nico – Vou fazer um especial de Absintho, com um plus de Artemísia. Mas ó, experimenta esse bolinho de haxixe aqui.
Ana (contrariada) – Nááááá, Nico! Eu só quero relaxar um pouco e não ficar babando por aí.
Nico – Tudo bem. Ó, tá caprichado e delicioso.
Damariz (ansiosa) – Conta logo, Ana! Você apaixonou o coitadinho, né?
(Nessa hora todas se juntam a ela pra ouvir. Nico se encosta no balcão.)
Ana – Ah, o cara transou comigo hoje, nós conversamos e agora ele está me enchendo o saco pra eu sair da vida e me casar com ele. Maior papinho!! Pagou duas horas de quarto pra Marlene e convenceu todo mundo a deixar ele me levar pra jantar – o que não foi difícil né, afinal, ele vem religiosamente toda quinta-feira pra cá desde que o Bira abriu a Casa. O cara já tinha me comprado roupas novas e me levou toda emperiquitada pra jantar num puta pico chique. Olha só! (mostra as roupas com desdém.)
Ana continua (indignada) - Nem sei como ele pagou tudo aquilo. Me encheu o saco! me importunou, sabe? Ele quer me comprar um romance, é isso??? Disse que nós nos conhecemos há tanto tempo e blá blá blá, que nesses últimos dias ele começou a viajar de como seria bom ir morar comigo e meus filhos num apê, (imita Ângelo com cinismo) “de levar uma vida juntos”...(cínica) Só de repente, saca?
O Ângelo é imaturo demais, imagina...?!?
Sabine - Vai ver é por isso que ele se apaixonou por você...
Gracinha – Cacete Ana!!! Você passa as noites sendo tratada que nem merda daí um cara resolve te tratar bem e você fica puta da vida?!?!?! Já não basta os escrotos que a gente tem que agüentar? O cara é dedicado. Eu conheço ele! Presta atenção nesses empresários de merda que vem aqui: o Camargo fez aquela palhaçada toda porque é tão cheio de si que deve engordar uns cinco quilos por dia. Olha o Sérgio, o cara é quase um castrado. Imagina, ele só vem aqui pra ser mulherzinha, nunca trepou sem sentir culpa em toda a vida dele.
Ana (espantada) – O Sérgio é “Zé-muié”?
Gracinha – É, menina! Olha aqui, ó! Eu já venho até preparada pro que der e vier.
(Ela tira um vibrador da saia e sacode pra Ana.)
Gracinha – Pensa nos figuras que a gente tem que bater até eles ficarem roxos; os “pavão”, que mordem o bico do seu peito, que puxam o cabelo, dizendo que a gente é obrigada só porque eles estão pagando... Ainda querem enfiar na sua bunda e descer o cacete na sua cara sem você querer, achando que isso vai te dar tesão.
Damariz – Esses comigo já nem começam o programa...
Ana – Nego adora quando a gente tá esfolada no fim da noite. Pensam que são os fodões...
Gracinha – E quando a gente está com a bola de algodão no útero e o cara quer fazer “atletismo” na cama? Acham que são os “pintudos do rolê”.
Sabine (jocosa) – O Ricardo gosta de comer bosta. Faz eu comer batata frita e cheirar pó até eu soltar tudo na boca dele. Até me pede pra eu não cagar até ele chegar... Já ouviu falar de coprofagia? (ela ri). Além disso, ele é “monoball”. Tipo, uma bola dele nasceu pra dentro, saca?
(Elas riem e olham pro Ricardo, que acena de volta inocente.)
Gracinha retoma o tom sério – Eu sei que você gosta dele! além de saber que você não se sente muito bem fazendo o papel de cortesã. Algumas de nós, como a Sabine, têm o dom pra fazer a “devassa”, mas você não. Está na sua cara! Se liga, Gessi!
Damariz (monótona e paciente) – Querida, você pode relutar aqui pra gente, mas se sente segura com ele, não é? Sabe o que isso significa?
Ana – É, eu sei. Ai, me deixa pois eu tô meio confusa.
(Ricardo se levanta, bebe o resto que está em seu copo e sai de cena pela porta da rua.)
Ricardo – Ô climinha chato! Parece novela, credo!
(Chega Ângelo do mesmo lugar de onde entrou Ana e senta-se. Sérgio vai até a mesa dos três.
Damariz pede uma cerveja pro Nico e, com Ana e Graça, vão se sentar na poltrona perto do palco cenográfico.)
Sérgio (brejeiro) – Oi gente. Posso me sentar com vocês?
Ângelo – Senta aí, cara.
Thomás – É só sentar e relaxar.
Sérgio – Além de vir pra cá, o que vocês fazem pra se divertir?
Miguel – Eu curto tocar trompete. Também escrevo, cara. Eu sou um artista multifacetado, entende. Eu vivo do material humano da noite de São Paulo e isso me dá tesão, além de ser o meu trabalho.
Thomás – Eu e o Ângelo só freqüentamos a Casa de Chá. Somos escravos nela e gostamos de servi-la todas as quintas.
Sérgio – Eu passei a vida sem saber o que era viver. Meu pai sempre me inferiorizou, a minha mãe era lasciva e, apesar de transarem no mesmo quarto onde todos nós dormíamos, me faziam confessar pecados que eu nem sabia direito do que se tratava. Se eu via um comercial de cerveja na televisão meu pai me acusava de sentir tesão pelas meninas de biquíni. Mal sabe ele que eu nunca senti tesão até hoje, quando conheci o Nico, esse semi-deus.
Ângelo – Você nunca sentiu tesão com garotas?
Sérgio – Garotas? Eu fui casado com a primeira mulher da minha vida!
Thomás – E ela não te dava tesão?
Sérgio – Feijão! Isso ela me dava. Feijão com arroz. Coitada, ela sempre foi dedicada e também sempre foi reprimida. Tomara que ela encontre a felicidade também. É uma boa pessoa, ótima mãe e esposa, porém, não pode reclamar, foi bem amada. Ela vai encontrar alguém melhor que eu. Tenho certeza!
Miguel (nostálgico) – É, a gente vem aqui desde que a casa abriu. Vínhamos com um amigo, o Grilo, que morreu afogado numa represa. Aqui todos crescemos juntos e pode-se dizer que o Grilo foi uma referência pra todos nós. Acho que por ter sido o mais velho da turma. Era nosso irmão mais velho.
Sérgio – Você gostava muito dele, né?
Miguel (chateado) – É que ele sempre foi o tipo irmaozão confidente, saca? Sempre foi meu confidente. Quando morreu eu me senti meio abandonado. (assume repentinamente um tom de entusiasmo) A grande ironia é que ele, quando vivo, foi o primeiro a nos fazer questionar sobre a morte. Abriu minha cabeça, de adolescente besta, pra Arte, Filosofia... essas coisas.
Ele era destemido, malandro, enfrentava qualquer uma sem pestanejar, sabe? Mas nunca arrumou dor de cabeça. Ele era o mais esperto.
Ângelo levantando-se – Gente acho que eu vou dar um tiro enquanto vocês conversam.
Sérgio (assustado) – Tiro??? Em quem?
Ângelo – Deixa pra lá, isso é coisa de gente grande.
Sérgio (entusiasmado) – Não, vem cá, fala! Tô curioso.
Ângelo – Vou cheirar um pouco.
Sérgio – Cocaína?!? Não pensei que vocês fossem esse tipo.
Ângelo olhando em volta – Fala baixo!
Sérgio quase implorando – Eu quero experimentar. Por favor, me dá um pouco?
Ângelo – Tá, vem comigo.
(Entram no banheiro. Enquanto isso Miguel pergunta.)
Miguel - Nico sabe em que quarto está a Paloma?
Nico – Está num dos temáticos. Acho que é o da enfermaria. Tudo a ver com o estado dela, né? Por quê, você vai fazer o médico hoje?
Miguel – É, dá um papel aí que eu vou resolver o caso dela.
Thomás – E e eu vou ser o enfermeiro. Não quero ficar aqui, deixa eu ser voyeur.
Miguel – “Vamo” aí, então.
(Entram Miguel e Thomás na porta que dá acesso aos quartos. Depois de um tempo após saírem Miguel e Thomás de cena, saem Ângelo e Sérgio - completamente desnorteado – do banheiro.)
Sérgio (aceleradíssimo) – Meu Deus! Que negócio é esse? Tem um caroço na minha garganta e uma metralhadora no meu peito. Sou jovem de novo! Que empolgação é essa? Nico me dá um beijo de amigo.
(Sérgio pega o rosto de Nico, que estava lavando louça, e tasca-lhe um beijo na boca. Nico dá risada depois.
Sérgio dança se contorcendo. Parece não agüentar o fluxo de energia dentro de seu próprio corpo.)
Sérgio para Nico – Aumenta o som aí, vamos dançar. Não! vamos pegar uma bebida e conversar. Ângelo vou te contar toda da minha vida. Você é meu novo melhor amigo (pega a mão de Ângelo, levando-o para a mesa).
UH!!! Gente, cadê o resto das pessoas dessa casa? Vamos festejar que nasceu um novo homem nessa noite!
Nico – Afe...! Agora o leão está solto. Pega leve, hein. A ressaca moral é pior que a outra ressaca.
(Eles se sentam.)
Sérgio – Hoje eu sou um deus, quer dizer, uma deusa! HIHIHI! Nico, eu quero cantar uma música.
Ângelo (preocupado) põe a mão no braço de Sérgio – E aí, cê tá legal, bicho?
(Sérgio suspira profundamente e olha pra cima com um sorriso
É exibido um vídeo animado no telão para ilustrar o papo dos dois daqui pra diante.
Sérgio sorri, fala rápido, gesticula, desvia a atenção, morde os lábios...)
Sérgio (como se estivesse pregando alucinado) – Anjinho, eu sempre fui infeliz. Só agora eu abri minhas asas de verdade. Parece que foram mil anos de cárcere religioso. Toda aquela felicidade que eles pregam, servindo à Deus é um engodo. Você fica privado de todas as coisas que acontecem no mundo, como se estivesse numa bolha. Sempre defenderam a idéia da vida brandindo uma espada com a cruz gravada na empunhadeira; dizendo que matar é pecado. Eles se esquecem que a vida é bem maior do que eles imaginam e que todos vamos morrer em prol de algo bem maior, de uma forma ou de outra. Cheguei à conclusão que o diabo deles é o justiceiro do Deus deles.
A vida tem ferramentas de auto-controle e a morte é inerente à vida. Eu já suspeitava disso e achava que esses pensamentos eram pecaminosos, eu me martirizava por isso. Eu não fui livre para pensar. Agora parece que posso dizer qualquer coisa! Pensar sobre a vida sem culpa de estar pecando. Consegui a chave da minha alma!
É por isso que eles não conseguem lidar com os problemas dos nossos dias. Eles matam quando sustentam as idéias alienadas inspiradas em interpretações das palavras de Cristo por um cara que vive cercado por todos os lados em nome de sua segurança e da tradição. Nenhum deles está interessado na cura de nada, no bem de ninguém, todos são corruptíveis! Além disso, as pessoas ficam mais doentes quando refreiam instintos básicos da natureza humana, eu acho.
Ângelo (bem menos agitado que Sérgio) – É, eu digo que sou membro do templo da lua. Uso essa designação para classificar religiões dionisíacas cujas práticas as pessoas se utilizam de métodos inebriantes para terem suas epifanias ou iluminações. É o caso dos dervixes, do norte da África ou dos xamãs da América Central. Eu estudo esse tipo de coisa, mas não deixo de ser um pagão. Acho que nós chegamos ao mesmo lugar, tanto seguindo os preceitos do templo da lua quanto os do sol, o templo apolíneo.
A verdade é que eu sou um incansável experimentador de sensações. Acho que há muita coisa escondida nos interstícios entre pensamentos e sensações. Eu vivo com o coração atormentado por sentir a dor das outras pessoas. Sei que isso não é legal pra mim, que eu preciso de anticorpos para não sucumbir a esses sentimentos, que não vou poder ajudar toda a humanidade, mas isso é incontrolável.
Sérgio – Com certeza!
Ângelo - Eu vivo numa gangorra emocional, às vezes passo dias sem sentir absolutamente nada, como um zumbi. Daí algo acontece e me desperta do sono, é quando eu sinto que estou vivo e tenho voz ativa, me revolto e fico enternecido, sabe? Não consigo suportar algumas injustiças gratuitas que são cometidas, mesmo que não sejam comigo.
Sabe, eu não falei até os cinco anos de idade, meus pais achavam que eu era doente, já tinham perdido as esperanças quando, numa madrugada, depois de ter ido à praia, eu comecei a falar dormindo. Minha irmã mais velha foi a única que havia presenciado, disse que sentiu um certo desespero no meu tom de voz.
Sérgio – Sério? Que coisa!
Ângelo - É, daí ela foi correndo contar a todo mundo. Não imagine que eu descambei a falar assim, do nada. Foi difícil! eu só proferia alguns fonemas. Só me libertei desse problema quando conheci Grilo, Thomás e Miguel. Mas depois do episódio com o Grilo eu me desiludi, nunca tinha tido experiência com a morte antes daquilo, nunca tinha visto um morto na vida. Muito menos de alguém tão próximo como o Grilo. Daí eu fiquei meio displicente, niilista até. Tive uma adolescência meio longe de tudo. Só me aproximava de pessoas decadentes, com problemas de caráter. Sempre achei que elas tinham algo para me dizer sobre seus motivos, de como sentiam suas dores do mundo. Acho que isso permaneceu em mim.
Sérgio – Eu sempre tive medo dessas pessoas. Ficava com medo de me contaminar. Acho que eu tinha algo dentro de mim que me ligava a essas pessoas, que eu tinha medo de deixar andar por aí.
Ângelo – É um animal que vive dentro de nós. Que precisa ser respeitado, um animal que é toda a nossa fantasia não-realizável, nosso demônio particular. Nossa lata de lixo pessoal.
Sérgio (exaltado) – É isso mesmo!!! Sempre perdi as batalhas com esse animal. Não aprendi a domesticá-lo e acho até que isso é impossível. Mas eu é que sempre fiquei na jaula, acuado.
Ângelo - O segredo é manter a convivência pacífica com ele.
Sérgio – É!! Senão ele toma a dianteira e passa a sorver a nossa energia vital. É como se fosse um vampiro matemático, com tamanho definido, forma e peso também; cuja geometria da sua carranca é projetada pelos dados e medidas dos nossos medos e, com as fórmulas fornecidas pelas nossas fantasias ele respira e se move pelo sótão da nossa alma. Essa é a matemática do monstro!
(Eles riem.)
Ângelo – Quando aprendemos a conviver com ele descobrimos que ele tem vida própria e é inextinguível.
Há muitas coisas por trás dos nossos atos e instintos, velho! Às vezes temos certeza de que alguém age por nós.
(Momento de silêncio. Os dois bebem e no bar entram Camargo e Cláudio. Falam com Nico e entram no escritório. Damariz e Graça saem de cena pela porta que dá acesso aos quartos deixando Ana sozinha, que se levanta da poltrona e, com copo, cinzeiro e garrafa, vai se sentar na mesa em frente. Ela bebe e fuma olhando pro nada.
O vídeo termina com um “puff”, como se o balão do flash-back tivesse suavemente explodido.)
Ângelo fitando Ana – Não sei por que estou apaixonado assim.
Sérgio – Será que não é a sua necessidade filantrópica? Seu senso de humanidade?
Ângelo – É, acho que me tornei um benfeitor compulsivo para me apaixonar pelas pessoas a quem quero ajudar.
Sérgio – É, parece que você tem facilidade em compreender as pessoas mesmo. Começa a dar consultas, cara!
(Eles riem.)
Ângelo – Não sei se é mais necessidade de estar em contato com o drama pessoal das pessoas para satisfazer um mórbido desejo pessoal ou se indignação com os caprichos cruéis da vida. Às vezes eu sinto com tanta certeza que posso penetrar no âmago das pessoas que penso que sou meio prepotente por cogitar essa possibilidade. Daí eu converso com algumas delas e realmente digo-lhes coisas que nem mesmo elas sabiam que sentiam. Há a possibilidade de elas estarem sendo sugeridas por mim.
Sérgio – Ângelo estou com uma vontade voraz de dar outra cheirada daquela.
Ângelo – Quer outra narigada? Toma, fica com esse resto de presente. Mas presta atenção: se você cheirar muito pode ter uma parada cardíaca, respiratória e morrer. É sério esse negócio! Quando acabar contente-se com isso. Bebe mais algumas para contrabalancear e pronto, vai pra cama, beleza?
Sérgio realmente agradecido – Valeu meeeeeeesmo!
(Sérgio vai até o banheiro. Ângelo se levanta e vai até Ana. Nisso chegam Miguel, Paloma e Thomás. Paloma está recuperada e senta-se no balcão enquanto os outros sentam-se na mesa habitual.)
Paloma (arrependida) – Nico, a Marlene está muito ocupada?
Nico – Você passou dos limites, hein. Ela ficou chateada com você, afinal ela dá a maior força pra todas aqui. Você sabe que ela é mais mãe de vocês do que qualquer outra coisa, né?
Paloma – Eu sei Nico. Não vai acontecer mais.
Nico – Ela está ocupada lá dentro.
Paloma – Você acha que ela ainda demora muito?
Nico – Acho que sim. A festa da Casa é amanhã e tem um monte de coisas pra resolver ainda. Essa festa é especial, não vai terminar amanhã. Eu sei disso, pois o Bira deu ordem para manter as portas fechadas por três dias pelo menos.
Paloma – Tá, então dá uma cerveja pra mim, por favor?
(Nico entrega e ela vai até Miguel e Thomás. Senta-se na mesa.)
Paloma – E aí, vocês vem pra festa manhã?
Thomás – Eu não perco isso por nada no mundo.
Miguel – Vou ver com o Bira pra ver se ele deixa eu montar um estande com os meus livros aqui (Todos riem.)
(Entram Camargo (encarando Ângelo, que encara de volta) e Cláudio. Eles ficam de pé na frente do palco, um virado pro outro.)
Paloma sacaneia – Miguel, por que você não vira michê, cara? Só pra arranjar um por fora. Se quiser eu posso te arranjar uma clientela que adoraria trepar com você.
(Saem Bira, Marlene e Isabel do escritório. Isabel olha Camargo de cima a baixo.)
Bira – Nico leva a Isabel pro quarto dela e ajuda com o que ela precisar. Depois vamos fechar a casa. Precisamos arrumar tudo para a festa. Você falou com o Camargo?
Nico – Olha ele aí!
Bira vai até eles – Ô, Camargo! Vamos lá para o escritório. Nico, os pedidos já foram entregues?
Nico – Só faltam os do laboratório.
(Nico sai com Isabel, carregando a mala dela.)
Bira – Nico! Vê se não falha, hein. Sem essas químicas nada vai. (volta-se para Marlene inquiridor) Marlene, já falou com o Santana?
Marlene, preocupada, leva a mão fechada à testa – Ai, Jesus! Esqueci! Também, é tanta coisa pra fazer... Tá vendo! eu fico atrás de você limpando suas cagadas que até esqueço o que tenho que fazer.
Bira – Marlene, se o Santana não vier aqui ainda hoje, amanhã tem três viaturas aí na frente pra revirar esse puteiro! A gente não pode nem sonhar com essa possibilidade.
Camargo (apreensivo) – Bira, pelo amor de Deus, cara...!
Bira – Calma Camargão! O Santana é um sargento amigo nosso, a gente emprega o pessoal dele, os que ficam aí na porta fazendo segurança. Ainda bem que você está aqui, assim nós podemos falar com ele juntos.
(Bira está quase saindo quando Thomás o chama.)
Thomás – Bira, Bira!
Bira – Fala rápido, Thomás.
Thomás – Nosso nome está na lista, né?
Bira – Tá, tá sim, Thomás. O dia em que vocês não vierem pra Casa de Chá pode ter certeza que eu passo o ponto pro Adalberto administrar. Agora me deixa trampar um pouco.
Thomas (malandro) – Certo Birão!
(Sérgio abre a porta do banheiro, olha todos, que param de falar observando o semblante de maníaco dele. Célere, ele sai de cena pela porta da frente do puteiro.)
Sérgio ao sair – Preciso viver! Preciso desesperadamente viver esta noite.
Nico - ...esse aí tá pego. Amanhã vai ser a pior ressaca da vida dele.
Bira – Caiu no mundão dos infiéis.
Camargo – Caramba, tomara que o cara fique fora de encrenca hoje.
Bira – Vamos lá logo conversar.
(Eles entram no escritório.
Damariz e Graça entram em cena, pela porta de acesso aos quartos e, sentam-se no balcão. Damariz se estica pra pegar sua bolsa.)
Damariz – Graça, você vai ficar por aqui hoje? Vamos a uma festinha comigo?
Graça – Vamos. Onde é?
Damariz – Lembra daqueles amigos meus?
Gracinha – Da Clareira?
(Damariz acha o celular na bolsa e disca.)
Damariz – Sidney?? Tudo bem?... Chegaram bem?... Quem veio com vocês?...Ué?!?!?!... Mas só a Sofia?...Vamos fazer um suingue? Eu quero apresentar uma pessoa hoje, ela já foi marcada, não dá mais pra esperar... Tá, então quando vocês estiverem prontos me liga nesse telefone, tá?... Daí a gente pega um táxi pra esse hotel onde vocês estão. É aqui pertinho do centro... Ah, então, eu vou comprar um Merlot pra gente quando eu sair daqui. Vocês vão querer alguma coisa?... Qualquer coisa me avisa. Beijo, até mais.
(Ângelo estava ouvindo Damariz em sua ligação enquanto Ana falava com ele. Ele nem estava prestando atenção em Ana nessa hora. Ele pede licença e vai até Damariz.)
Ângelo (humilde) – Damariz posso falar com você um minuto?
Damariz – Tava demorando! Então é você, Ângelo? Agora posso sentir teu pai maia te ofertando.
Ângelo – Eu ouvi você falando ao telefone e me senti impelido a perguntar. Desculpa a ousadia, é que foi inevitável.
Damariz – Era mesmo pra você ouvir, criança. Você está curioso, né? Quer saber o que é a Clareira.
Ângelo – É, quando você contou aqueles lances lá na mesa eu me lembrei de tudo o que eu já havia estudado sobre arte pré-colombiana... Mas não é sobre isso a minha curiosidade. Sabe, eu tenho um lance com espiritualidade...
Damariz – Você sente e vê coisas que não entende, né?
Ângelo – É, além disso eu li o que aquele americano escreveu nos anos setenta. Qual é o nome dele mesmo?
Damariz – Bart Hughes. Ele era um estudante de medicina frustrado e fazia experiências com LSD antes de se trepanar. Mas a Clareira é diferente,viu. A maioria tem que fazer mapa-astral pra marcar direitinho dia de se apresentar, porém, o caso de vocês é excepcional, afinal eu já sabia disso tudo antes.
Depois de nos apresentarmos nós mudamos completamente nosso estilo de vida. Abandonamos a vida mundana pra recomeçar de um jeito todo especial.
Eu, como contei a vocês, fui obrigada a me afastar por um tempo, mas vou me dedicar integralmente quando sair da noite.
Graça – Mas Dama, você não acabou de marcar uma orgia?? Como você fala que é preciso abandonar as coisas do mundo?
Damariz – Mas o sexo é sagrado, Graça. Antigamente vivia um povo, na região onde atualmente é a Índia, cujo estilo de vida era baseado no culto à natureza, a Mãe. Suas atividades não eram exploratórias, o sexo era livre, as mulheres eram respeitadas e não rebaixadas. A natureza era a Mãe Divina. Isso até a chegada dos germanos, conquistadores do Ocidente, que começaram a pregar que a natureza existia para nos servir, que o sexo era algo sujo e que mulher era uma classe de gente que existia para servir ao homem. Essa coisa pudica é cultural e que está enraizada nas nossas almas.
Ângelo – Eu quero saber como é isso. A transcendência é mais importante do que a vida que eu levo agora.
Dama – Eu já sabia disso. Você vem com a gente hoje. Graça olha seu irmãozinho aí!
Graça (amedrontada) – Dama acho que eu não vou fazer isso, não.
(Toca o telefone da Dama.)
Dama – Oi, Sidney... Estamos indo pra aí então. Até logo. (desliga o telefone) Meninos, chegou a hora. Vamos?
(Saem os três. Ângelo se despede de Ana e quando chega em Thomás e Miguel...)
Thomás – Onde é a festinha, velho?
Ângelo – Essa é particular. Depois te conto.
Miguel imita Ângelo com ironia – “Particular...”. V´ambora Thomás? Amanhã a gente se diverte, a nossa noite acaba aqui. Você quer ficar pra tentar extrair alguma coisa a mais dessa balada? Eu já estou bem louco, preciso da minha cama. Não quero acordar aqui de novo e me arrastar de volta pra casa debaixo de sol quente.
(Thomás pega a garrafa preenche seu copo.)
Thomás – Ô! deixar cerveja na garrafa dá azar.
(Thomás toma tudo de uma vez. Os dois se despedem e saem. Ana boceja.)
Ana (cansada) - Nico acho que agora nem rola mais ninguém. Acho que eu vou pra casa ver meus filhotes.
Nico – Géssica, como estão a Amanda e o Tiago?
Ana – Estão lindos. A Amanda sempre pergunta de você. Está cobrando aquele tratamento de beleza que você prometeu que ia dar pra ela. Eu até comprei o que você me pediu, creme, esmalte... Tá tudo lá esperando você. Poxa, Nico, eles adoram você! Você precisa ir em casa mais vezes.
Nico – Eu sei... Se não fosse essa festa eu iria hoje com você. Tem coisa pra cacete pra fazer aqui.
Ana – Eu sei. Mas não vai faltar oportunidade.
Ai, Nico, esse negócio aqui na Casa está me matando, sabe? Às vezes eu penso em me casar de novo, mas tenho medo, sabe? Hoje o Tiago me ligou pra dizer que perdeu o dentinho da frente e eu estava no meio do programa. Me descuidei sabe, deixei o celular ligado sem querer. Quase que eu mando o escroto que estava comigo ir pra puta-que-o-pariu e fujo daqui pra sempre. Mas nessas horas a gente tem que ter a cabeça no lugar, né? Não sei como eu vim cair aqui nessa vida. Mas eu não posso reclamar, no fim das contas acho que eu faço drama demais.
Nico – E o Ângelo?
Ana – Ah, a gente conversou um pouco hoje. Ele mais parece um psicólogo. Diz que quer me ajudar. Eu sei que ele tem bom coração só que parece ser meio imaturo. Eu sei que esses são os eternos cafajestes: delicados, bem articulados, atenciosos e mentem como ninguém. Conseguem esconder quando estão com medo, e quando a gente menos espera, leva um pé na bunda.
Não entendo porque ele vem aqui se é um cara sério. Se quisesse algo sério com alguém, se fosse sincero, não viria aqui transar e ir embora depois. E se for sincero é do pior tipo: o que paga pra ter colo, que precisa de um drama no dia pra dormir bem. Esse tipo precisa de aval pra fazer qualquer coisa na vida, precisa ser dependente!
Nico – Mas não acho que o Ângelo seja o tipo “cafajeste”, ele me parece ser o tipo “sincero”, que, na maioria da vezes, são grossos, medrosos e não tão bem-sucedidos. Esses se apaixonam com facilidade.
Geralmente os cafajestes são os que se casam, que têm filhos, carro e muitos amigos. Eles buscam na mulher a imagem da mãe, vivem cheios de amantes e sempre mantém uma relação distante das mulheres, pois acham que a única que realmente merece o seu amor verdadeiro é a genitora, as que resolveram agüentar suas instabilidades... Sexo pra eles é na base do toma lá, dá cá.
Ana - Hoje ele me disse que quando eu quisesse sair de novo com ele era pra eu pedir na hora que fosse. Ele é que deveria me convidar, não acha?!?
Nico – Ih, ele precisa de aval, é meio inseguro...
Ana - Ele me disse que gosta da minha companhia. Acho que ele não está apaixonado por mim, acho que nem sabe o que é isso. Não sabe nem o que sente, como todos os homens.
Nico – Tô sabendo. Ele não fala o que você quer ouvir.
Ana – É! Eu quero um cara que seja louco por mim.
Nico – E você? Ele foi mais um cliente pra você?
Ana – Acho que eu sinto um pouco de medo de me envolver. Nico, não preciso de mais um filho na minha vida, de mais um dependente. Se fico com alguém que depende da minha felicidade, tô fodida! Em compensação ainda tenho um pouco de medo de estar entrando em outra fria, de me meter com outro canalha.
Nico – É, babe. De qualquer forma você está fazendo certo, deixa as coisas rolarem. Só que eu te aviso de antemão que, pela minha experiência de psicólogo de banheiro com as rachas choronas: os que mais causam medo, os mais insondáveis, são os das paixões avassaladoras e, os melhores relacionamentos que eu vi acontecerem foram os que saíram de um puteiro igual a esse.
Ana – É, vou deixar rolar. Mas não dou muita esperança, não. Se quiser ficar comigo vai ter que aceitar minha vida. Eu não vou voltar a me foder na vida pra sustentar meus filhos. (faz uma pausa) A impulsividade desse cara tá me dando medo.
Nico – É só o tempo, minha querida. Só o tempo constrói os relacionamentos mais sólidos. É assim mesmo: acumulando lembranças é que se cria a saudade. Mas só as melhores lembranças na balança das vantagens e desvantagens é que criam o apreço.
Ana (apressada) – Isso aí, Nico. Deixa eu me trocar que já tem ônibus pra mim. Dá a bolsa pra mim, lindo?
(Ana pega a bolsa e entra no banheiro enquanto saem do escritório Bira, Camargo e Cláudio.)
Bira – Então, tá. Amanhã vai ter uma van esperando o pessoal nesse hotel às onze. Vai ser bem legal.
Camargo – Então tá. Até amanhã.
Cláudio – Tchau, parceiro (saem pela porta da frente).
Bira com as mãos nos quadris – Vamos fechar Nico? Você arruma tudo por aí? Qualquer coisa me ligue. Bom, eu vou indo também.
Bira (gritando) - Tá pronta Marlene?
Marlene grita de volta - Espera aí!
(Marlene sai vestindo uma jaqueta e posta-se ao lado de Bira. Ana sai do banheiro.)
Bira – Ana será que você consegue chegar aqui lá pra umas nove e meia?
Ana – Sim, vou chegar mais cedo pra ajudar aqui.
Bira – Então tá bom. Manda um beijo pra Amanda e pro Tiago.
(Ana despede-se de todos saindo apressada.)
Bira volta-se para Nico inquiridor – Você resolveu o negócio das químicas?
Nico – Sim, chefinho. Amanhã, antes de sair de casa vai ser a primeira coisa que eu vou fazer: vou colher minhas sementes e sintetizar meus extratos. Lembra aquele fluído de isqueiro que eu te pedi pra preparar a Jurema Preta? Aquele que tem nafta? Você conseguiu isso no centro pra mim?
Bira – Ah, quase que eu esqueço. Espera aí.
(Bira entrou no escritório e logo saiu com o fluido.)
Bira – Tá aqui. Então, amanhã te espero aqui lá pra umas três. Tá bom?
Nico – Vai sossegado, chefe. Bons sonhos. Tchau Marlene.
(Despedem-se de longe e saem. As luzes se apagam e a última cena é a de Nico dando um suspiro de cansaço por trás do balcão.
As luzes fazem fade-out e se apagam. Na tela aparece o rosto de Ricardo, fazendo seu depoimento.)
Ricardo – Eu não sei explicar o que acontece. Simplesmente vem, sabe? Não importa o que vou sentir no outro dia. Com certeza é arrependimento, mas isso eu já sei que é da ressaca. Só o que importa na hora é sair, sumir, ir atrás de emoção.
Não sei de onde vem o vazio que sinto antes de ir à Casa. Nessa hora nem penso. E mesmo lá, entende? Tem uma hora que nem toda a cachaça do mundo é suficiente. A sensação é “um querer mais e mais” sem fim.
Sérgio – Eu achava que nada tinha sentido sem uma sólida base religiosa. Quando pela primeira vez eu senti o vazio real, o desalento, o desamparo total, uma complexa emoção tomou conta de mim. Eram duas forças: uma intelectual e outra, digamos, instintiva. O engraçado é que pela primeira vez pude identificar claramente o que se passava comigo sem o véu da culpa. Aí resolvi assumir minha passividade ante o Universo, e isso foi bom demais. Um verdadeiro ponto de virada na minha história.
Hoje posso atravessar uma avenida de olhos fechados em plena hora do rush. Posso morrer como ser-humano e não como um pretenso ser divino. Aliás, quando eu morrer, joguem meu corpo no lixão, ou sei lá, no meio da floresta; belo e nu, pronto pra voltar pro estômago do monstro.
Isabel – Às vezes me sinto mal de verdade! Choro sem saber o por quê, não consigo ver o sentido de estar viva... Daí me dou uma bronca e paro com a palhaçada de choramingar. Sabe, se choro, não gosto de nego em volta querendo ajudar, paparicando. Também não tenho dom pra consolar. Afinal, qual é o sentido dessa merda toda? Não deve ter, é isso! Daí a gente fica pra lá e pra cá feito hamster arranjando sarna pra se coçar, arrumando pra cabeça. É esse o sentido. E ainda tem gente que gasta miolo pensando nessas coisas, imagina?!? Se minha vó estivesse viva com certeza mandaria eu ir varrer chão.
Damariz fala como se fosse uma hippie mística – Tudo está em harmonia enquanto Shiva desenvolve a dança do Universo. É um erro tentar ir contra o fluxo…
QUARTO ATO
“O Triclínio”
(O telão exibe o nome do ato e segue com um vídeo que sugere a iniciação de Graça e Ângelo, com o barulho da furadeira e os gemidos deles. As sombras das pessoas no ritual contrastam com imagens reais de sangue escorrendo em seda e de vinho sendo misturado a um outro fluído.
No final do clipe há um morf dos astros que vai da noite até o fim da tarde.
O palco para o início deste ato é o da Casa de Chá, com a diferença de que há fios presos nas paredes fazendo as vezes de varal. Várias calcinha estão penduradas ali. Outro diferencial é um rádio-relógio ligado bem encima do balcão do Nico.
Quando a luz se acende Nico está passando pano no chão. Paloma está de pijamas, sentada no sofá (sonolenta ainda) e reclamando de dor de cabeça. Bira está saindo e entrando com uns carregadores com caixas de bebidas nas mãos e Nico está com um rodo limpando o chão. O rádio está mal sintonizado numa estação de música brega.)
(Bira aponta para um canto ao lado do banheiro,)
Bira – Põe isso ali.
(Nico vira-se e aponta o balcão.)
Nico – Não, não. Por trás do balcão. É melhor pra mim.
Bira – Então põe lá, vai.
(Os carregadores põem e Bira dá-lhes algum dinheiro. Sabine sai do quarto e senta-se ao lado de Paloma. Marlene entra em cena empunhando um celular. Ela entra pela porta que acesso aos quartos.)
Marlene (agitada) – Alô... cadê vocês? ...ai, eu já estava preocupada. Vocês nem dormiram aqui! ...duas pessoas?... tá bom ... tudo bem. Só me dá o nome delas... Sidney e Sofia... Não, não precisa do nome inteiro, eu deixo avisado aqui na portaria, quando eles chegarem é só dar o nome... Tá bom, tô esperando então.
(Marlene desliga o telefone e diz para Paloma.)
Marlene com as mãos nos quadris - Bom dia, mocinha! A senhora dormiu bem?
Paloma – Olha, desculpa Marlene. Não é nada com você.
Marlene – Tá com uma puta ressaca, né?
Sabine – Que bafão hein, Paloma!
Paloma (agressiva) – Ah, vê se não enche o saco! Não tô com saúde pra você.
Marlene (bem-humorada) – O negócio é o seguinte, meninas: hoje excepcionalmente a cozinha da Casa de Chá está fechada pra nós, pois o pessoal lá está até as tampas com serviços para a festa de hoje...
Sabine – “Cozinha da Casa de Chá”?
Marlene continua (jocosa) – É. E é provável que eles trabalhem a noite inteira e, o pior de tudo é que eu acho que vou ter que chamar outros cozinheiros pra render o pessoal de lá. O pior não é contratar, afinal quem está pagando é o Camargo e os empresários. Ruim mesmo é que eles vão ter que trabalhar vendados para não saberem que estão num puteiro.
(Ela dá risada sozinha. Depois retoma a compostura com uma pigarreada.)
Marlene (séria) – Então, vocês façam uma lista do que vocês querem comer que eu vou mandar trazer lá do Adalberto pra vocês, tudo bem? Vamos rapidinho que tem muito trabalho antes da festa começar. (ousada) À propósito: cadê a “prenda” do leilão?
Nico – Adivinha.
Marlene – É. Deixa dormir que hoje eu quero ela muito bem disposta.
(Chegam Graça e Damariz muito bem vestidas. Graça está de óculos escuros e com um pano dourado na cabeça. Elas vão para a poltrona e se sentam.)
Graça e Damariz falam uma após a outra – Bom dia, meninas.
(Todas respondem. Entra Ana, cumprimenta a todos e senta-se no balcão, pondo a seguir a bolsa de onde ela a tirou na noite anterior.)
Paloma – “Bom dia”?!? São quatro horas de tarde!!!
Sabine – E você acordando. Pra mim ainda é “bom dia”.
Marlene para Graça e Dama – Vocês já comeram, meninas?
Dama – Já, obrigado Marlene.
Marlene – Então tá. Nico agiliza isso pra mim, por favor.
(Marlene entra no escritório e Nico vai pra trás do balcão.)
Nico – Hoje a titia vai pagar tudo então vamos aproveitar. Vamos fazer do jeito mais fácil: eu tenho esse papelzinho que vou passar para cada uma fazer seu desejo. Façam uma letra bem bonitinha, tá bom? Valendo!
(Ele escreve e passa para Paloma. Depois volta a passar pano no chão.)
Paloma com a mão na testa – Ai, minha cabeça.
Sabine – Quer Aspirina?
Nico – Laranja e ovo, honey. É a mistura perfeita. No seu estômago agora está acontecendo uma revolução. Seus ácidos gástricos e o álcool formaram uma mistura similar a de um estágio do processo de fabricação de um tipo de cola e a fórmula perfeita para desfazer isso é a que eu te falei. Outra coisa: sabia que quando se está morrendo de sede a sensação que se tem é a mesma da ressaca? Então eu te aconselho que ao invés de dar dinheiro à fábrica de Aspirina, beba bastante água.
Paloma – Nicão, não leva a mal não, mas com Aspirina é mais fácil e mais rápido.
(Sabine termina de escrever e passa o papel para Nico, que pega o telefone no balcão e liga para o Adalberto.)
Nico - Adalberto tem como entregar aqui dois cheese saladas, um cheese bacon e uma coxinha? ...Valeu Beto. Abraço.
Ana fala enquanto Nico faz o pedido – Mas por que é que você bebe tanto assim, então? Todo dia é a mesma coisa. Por que você não bebe para se divertir, Paloma?
Sabine (sacaneando) – É o espírito da tragédia. O espetáculo da decadência, da beleza triste. ”...difícil ser imaculada, extasiada ante o precipício...”.
(Nico desliga o telefone e volta a passar o pano no chão.)
Dama – A Paloma deve ter a lua na casa do sexo.
Nico – Eu acho que ela deveria fazer teatro.
Paloma – Gente do Teatro sempre tem algo a dizer sobre tudo, sempre tem uma reação pronta, nós nunca sabemos quando eles estão atuando. Sempre têm o compromisso (irônica) com a alegria e com a espontaneidade. É tudo uma máscara. São fingidores profissionais!
(Nico pára de passar o pano no chão.)
Nico (indignado) – Opa! Péra lá! Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Nós, artistas, somos sensíveis e percebemos muitas coisas que as pessoas ordinárias não vêem. Nós somos os multiplicadores de muitas idéias e padrões de comportamento que moldaram até o seu caráter, sabia? Além disso, essa é uma profissão como qualquer outra, babe. Todos representamos nesse mundo, querida! Todos seguimos o roteiro.
Paloma (insolente) – Ah! O cacete! Vocês artistas são intensos, diletantes, intelectuais e glamorosos demais pra mim (conta nos dedos e cita pausadamente). Artista adora querer mudar o mundo! Só eles têm a fórmula do belo!
Eu odeio scripts, adoro ser nojenta e me sentir mal com isso. Depois uso meus remedinhos e fico devidamente anestesiada, confortável dentro da minha carcaça.
Sabine – O povo quer arena, igreja com sessões semanais de exorcismo em público, longos casos policiais sendo transmitidos no telejornal... Alguém tem que sangrar pra satisfazer a platéia. Eles precisam de um Cristo.
Paloma – É. E eu não tenho dom pra ser redentora de nada. Os perfeitos, (cínica) “os multiplicadores de idéias!”, que salvem o mundo que eles próprios foderam e me expulsem dele. Não estou nem aí. E se vocês querem saber, não vou tomar nem Aspirina nem omelete de laranja. Vou é dropar um conhaque pra limpar a voz e pra nem ver o dia passar hoje!
Ana fala baixinho – Se mata então...
(Nico brada olhando pra cima, levantando os braços com vassoura e tudo.)
Nico - Incipit Tragoedia!
(Paloma vai até o balcão, faz uma dose e mata. Depois se encaminha até o quarto, dizendo ao sair.)
Paloma - Alguém pode me dar um toque quando chegar o meu gorduroso? Vou lavar minhas calcinhas que na semana que vem tem balada forte e eu não quero ter que ir “ao vento”.
Nico – Vai que eu te aviso.
Sabine – Vê se guarda aqueles trapos que estão pendurados no banheiro, viu ô!
Graça (suave) – Nossa, eu não sinto a necessidade de nada. Sinto-me leve, bem disposta, saudável...
Sabine (meio enfastiada) – Estado de graça...
(Nico, entusiasmado, pára de fazer o que estava fazendo.)
Nico – Não acredito!!! Você foi à Clareira ontem!
Ana (estranhando) – Clareira? Você foi pro meio do mato?
Graça (sorrindo) – Eu estava nele a minha vida toda tentando encontrar uma civilização melhor. Agora eu encontrei um atalho pra luz.
(Graça sorri meio boba e olha pro ar como se estivesse rodeada de borboletas.)
Dama (maternalmente) – Ela está iluminada.
Nico (efusivo) – Que coisa linda! Que saudades da Clareira! Eu me sentia como uma criancinha...
Dama – Ontem foi excepcional. A Gracinha e o Ângelo têm tudo a ver com a Clareira.
Nico (exageradamente surpreso) – Não acredito! O Ângelo?!? Menina, que coisa! E ele gostou?
Dama – Adorou!
Nico (doce) – Que lindinho o Ângelo! Adoro ele!!!
(Bira abre a porta do escritório e avisa, apenas com o rosto à mostra.)
Bira - Nico, você pediu algo lá do Adalberto? Acho que o cara está aí.
(Bira fecha a porta. Nico sai e volta com os lanches. Entrega a cada uma das meninas e depois vai até os quartos com dois lanches nas mãos. Depois de um tempo ele volta para atrás do seu balcão e todos permanecem em silêncio comendo.)
Nico – Gente, eu estou com um frio na barriga que vocês nem acreditam.
Ana (receosa) – Ai, Nico. Você fica falando essas coisas e eu fico com medo. Desse jeito vou voltar pra minha casa e falar pra Marlene que estou passando mal.
(Nico pega o telefone. Chegam Camargo, Sérgio, Cláudio, Steven e Raoul. Eles cumprimentam a todos de longe, mas Sérgio dá uma piscadinha para Nico. Paloma entra.)
Sérgio (lúbrico) – Olá, senhor Nicodemus!
Nico (seco) – Oi, Sérgio.
Camargo para Nico – O Bira está lá dentro?
(Nico faz um gesto para que eles entrem, pois seu telefone acaba de tocar.)
Nico – E aí, vou precisar desse lance até as seis, mona... Trinta e cinco, oquei? ...E as massagistas?... (suspira) Ai, não fala isso que eu fico com tesão... (volta à impostação normal) Já avisa pra todas que hoje não vai entrar câmera... Nem celular vai ser permitido... Tá bom então... Ai, pra você também. Tchau.
(Nico desliga o telefone. Nessa hora todas já estão terminando de comer. Paloma volta à cena e senta-se na poltrona ao à frente do balcão.)
Nico para Paloma – Já terminou de comer?
Paloma – Ai, acho que o gorduroso pesou demais. Não estou afim, depois eu como.
(Deixa seu gorduroso encima do balcão e volta a sentar-se.)
Damariz – Tem uma cervejinha aí?
Sabine – Também quero!
(Elas vão atrás do balcão e abrem duas latas. Nessa hora Isabel entra em cena com os cabelos molhados e senta-se no sofá ao lado do balcão, com os pés apoiados na almofada, de forma que seu queixo apóia nos joelhos.)
Ana sorrindo – A bela adormecida já fez seu sono de beleza?
(Isabel narra seu sonho que começa ser ilustrado no telão.)
Isabel meio sonolenta – Eu sonhei que um homem me perseguia dentro de um parque de diversões. Não lembro direito, mas eu sei que ele me viu quando entrei no labirinto de espelhos.
Pra me esconder eu fui fundo, no meio do labirinto. Pensava que ele não havia me visto entrar lá, mas aí ele aparece e fica parado bem na porta. Eu conseguia vê-lo de onde estava, mas parece que ele não me via. Ele falava e tirava uns apetrechos de maquiagem de uma mochila: “Você não vai conseguir sair, só tem uma entrada e eu estou na frente dela”, ele falava.
Ele se maquiava e falava comigo enquanto o fazia. Perguntava: “Como você gosta mais: de pierrô ou de columbina?”. Perguntava, mas eu sabia que ele não estava se vestindo nem de um nem de outro jeito, mais parecia um palhaço decadente, com uma peruca verde, fosforescente longa, com a maquiagem toda borrada. Mais parecia um travesti. Daí, quando ele tirou a roupa, parece que olhou pra mim. Eu não sabia se era só impressão. Ele falava: “nessa parte você vai ter que se virar pro outro lado pra não me olhar. Eu sei que você está me vendo. Depois você vai poder ver bastante.” Ele ficava de costas parado. De repente eu sentia algo quente nas pernas e, quando percebia, ele estava bem atrás de mim, mijando em mim! Eu olhava para a imagem que estava vendo antes e ele continuava lá de costas, mas eu não percebia que eu também estava de costas lá na frente dele.
Paloma – Você mijou na cama, né?
Isabel (incisiva) – Claro que não!
Sabine – Você é mais freak do que eu, babe.
Nico – Você está meio perdidinha quanto a sua auto-imagem, né, bonitinha. Mas você tem algo perigoso aí dentro dessa tua infância, além do seu natural receio do que vai acontecer hoje.
Graça – Você sempre acha que estão te sacaneando.
(Entra Madame Gunda e, quando vê o Nico abre os braços.)
M. Gunda – Niquinho! Quanto tempo!!!
(Nico pára de fazer o que estava fazendo e, sorrindo largamente, abraça a moça com força.)
Nico – Nossa, que saudades! Nós vamos nos divertir muito hoje, amor! Tem um monte de novidades pra te contar. E o Inácio?
M. Gunda – É hoje...
Nico – É. Quando fiquei sabendo achei o máximo. E aí, tá animada?
M. Gunda – Você não faz uma idéia do quanto!
Nico – Ai, que bom! Além do seu vai ter outro evento surpresa hoje.
M. Gunda – Ah é?
Nico vira-se para todas – Gente, deixa eu apresentar as duas pra vocês (põe um dos braços no ombro de Gunda) essa é uma antiga amiga da Casa muito especial. O nome dela é Madame Gunda. Essa daqui (puxa a menina pelo braço) é a Belzinha, que vai mudar de vida hoje. (vira-se para as duas) Lindas, aquela é a Sabine, a Ana, a Damariz, a Graça e aquela outra é a Paloma.
(Elas acenam de volta. Damariz puxa uma cadeira de ferro.)
Damariz – Bel vem cá, senta nessa cadeira.
(Isabel vai até lá meio sem vontade e senta-se. Damariz olha bem nos olhos da garota e segura em suas mãos. Está ajoelhada na frente dela.)
Damariz (terna) - Eu sei que você vai ser leiloada hoje. Vamos falar abertamente: você tem vontade fazer isso mesmo? Pra uma pessoa que você nem conhece ainda. Eu já fui vendida várias vezes na minha vida e me arrependi de todas.
M. Gunda (impressionada) – Leiloada? Jesus, como o Bira vai deixar isso acontecer???
Isabel – Eu é que quero isso. Qualquer coisa é melhor do que aquele fim-de-mundo em que eu vivo. Não tenho nada nem ninguém. Meu pai é um canalha e minha mãe sumiu, sabe? Tô disposta a fazer tudo e, pode ter certeza que quem vai ter que me engolir é quem for me comprar. Não tenho nada a perder, então, nem esquenta comigo.
M. Gunda (espantada) – Comprar? Ai, meu Deus! Tem jeito pra tudo, é só se esforçar!!!
Dama (séria) – Presta bem atenção no que eu vou te falar: qualquer um compra uma messalina porque ela assim o quer e só por isso! Ninguém nunca vai comprar a mulher por trás da messalina, nem a liberdade de ninguém. Nunca se esqueça disso.
Isabel – Qual é o seu nome mesmo?
Dama – Damariz.
Isabel – Nem esquenta. Eu tô bem Damariz.
Dama (sorrindo) – Pode me chamar de Dama.
Isabel – Eu tô bem, Dama. Só não sei o que é que eu vou vestir, não tenho roupa pra isso.
Dama se levanta – Isso é por nossa conta, deixa eu te montar, mona!
Ana levanta-se também e grita para o escritório - Marlene, onde está aquele espelho velho?
(Marlene do escritório.)
Marlene - O que vocês vão fazer com ele?
(Nico deixa o rodo de lado e vai atrás do balcão.)
Nico – Vamos montar a nossa prometida pra ela ficar linda pra festa.
(Marlene sai do escritório, atravessa o palco e entra na porta que dá para os quartos. Enquanto isso todas vão pegar suas respectivas bolsas.)
Marlene fala ao passar – Espera aí que eu pego. Só eu sei onde está.
(Marlene trás o espelho com rodinhas até o centro do palco. Ele é oval e tem um vidro ao invés de espelho, então, quando Isabel olha para ele, ela está olhando para a platéia, dando a impressão de que olha a sua própria imagem.)
Ana – Oba! Adoro isso.
Paloma – Você já tomou banho, né!
Isabel – Claro! Sempre tomo quando acordo.
(Ana saca da bolsa uma caixinha de maquiagem. Damariz pega um pente.)
Paloma – Espera aí que eu tenho um secador e uma chapinha.
(Todas ficam ao redor de Isabel olhando para o espelho. Marlene começa a fazer a chapinha em Bel, enquanto isso, do outro lado, Graça está com a tesoura na mão. As duas ficam revezando os lados. Ana cuida das unhas das mãos, Graça está depilando as pernas e a Madame Gunda cuida das unhas dos pés, munida de uma cumbuca e um nécessaire, que foi cedida por Marlene. Nico está na maquiagem e Sabine olha no espelho enquanto mexe nos cabelos.)
Nico (orguhoso) – Eu já fui maquiador de celebridade, meu bem!
Graça – Hmmm, que inveja!
M. Gunda – Ai, que bonitinha! Ela tem polidactilia nos pés, que nem a Marilyn Monroe.
(COMEÇAM A CANTAR)
Eu vou falar a você a verdade (Marlene)
Vê se não vai se encrencar.
Não conta que a emancipação
Vai te trazer segurança.
O incauto conhece a tristeza
E o podre quase sempre se estrepa.
Olha bem quem gosta de posse, (Ana e Marlene)
Desmancha logo a obsessão,
Confia na intuição.
Tão certo é o amor eterno
Quando a isso não se faz menção.
Eu vi muito desesperado (Graça arranca a cera com força)
Com o cabronco encarnado,
Que perde logo a noção.
Você apanha dia sim, dia não.
Janta sozinha e revoltada
E planeja fugas perfeitas.
Que é isso, nem presta atenção. (Sabine)
Você é uma aquisição (Sabine e Paloma)
Deixa o bofe pensar que ele pode (Sabine e Paloma)
Esse é o nosso dom. (Sabine e Paloma)
E do recibo vê se não esquece, (Sabine. (Paloma se senta no chão, no
Exige tudo o que lhe cabe canto esquerdo do palco e fica lixando
A mordomia é a sua cara! as unhas.)
Vai aproveitar o que é bom.
Mas olha só, é uma menina! (Madame Gunda)
Olhando pela fechadura.
Na sua idade eu era uma princesa
Fantasiando com castelo encantado.
Mas já que aconteceu assim
Não esquece nunca de você
E preza pelo seu futuro.
(PAUSA NO INSTRUMENTAL)
Mas e se o prometido (Isabel)
Não for gente honesta,
Que se enfia em mutreta...
E se for assaltante?
Violento, psicopata, sei lá!
(A música volta.)
Isabel - Eu volto pra casa de chá???
Ana – É. E aí?
Damariz – Ai, credo! Psicopata, vade retro!!!
Sabine – Que nada! Se precisar a gente vai te ajudar, é só voltar pra cá.
Graça gesticula com a tesoura – Se ele for doente, não esquece da gente. Qualquer coisa nós vamos lá e ó! (faz menção de cortar o saco).
Se ele não for decente, (Refrão - Todas)
Não esquece da gente,
Das meninas da Casa de Chá.
Querida, ele nem é louco, (Nico)
Ele que venha abusar! (Damariz)
Eu tenho várias cartas na manga (Nico)
E gente pra te vigiar.
Pára com a paranóia, (Damariz e Nico)
Honey, não deixa o medo te parar.
Paloma de saco cheio – Tá bonita pra caralho! Se veste logo e passa um perfume. Fica se emperiquitando toda pra esses babacas daqui? Não perde seu tempo.
(Isabel começa a vestir umas roupas que Damariz está separando.)
Damariz – Põe isso aqui.
Nico – Ai, vai ficar linda com esse sapato!
(Sabine desencana e senta com Paloma. Elas acendem um baseado.)
Sabine – Nico, diz aí que vai ter michê aqui pra gente aproveitar. Hoje quem paga sou eu.
Nico voltando a passar o rodo no salão – Só deus grego!
Ana – Que tipo de perfume você gosta? Bel – Ah, eu gosto de perfume masculino. Marlene – Olha, tem muita menina que usa Lavanda. Dizem que é tiro-e-queda! Sabine – Que nada! Lavanda é perfume de macumbeiro, nós somos (enfatiza) garotas de programa!! Damariz - Eu prefiro um aroma mais doce, é mais afrodisíaco.
(Damariz asperge um pouco de perfume em seu próprio punho e dá para a menina cheirar.)
Damariz – O que você acha desse? Bel – Ai, que delícia!
(Damariz perfuma a moça.)
Marlene – O segredo é passar aqui, aqui e aqui. A garotada fica louca! Damariz - Não esquece de escolher uma calcinha bem provocante, hein! Damariz – Vamos ver essa blusinha? (e põe uma blusa na frente dela) – Hmm, acho que não. E essa? Gunda – Eu acho que fica melhor assim. Nico, me ajuda com meu vestido? Nico (solícito) – Claro, honey!!! Eu só preciso terminar de arrumar isso aqui.
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(Ênfase nessa conversa.)
Sabine – Você é uma vaca mesmo! Paloma – Se vier você aproveita, né? Safada! Não fala muito, não! (Elas riem.)
Sabine – Eu quero é mais!!! Paloma – Sua putinha. Faz uma peruana. Sabine – O pior é que hoje vou ter que pôr o algodão... Paloma – Ah, põe que depois eu te ajudo a tirar...
(Sabine traga, põe o baseado na boca com a brasa pra dentro e assopra na de Paloma. Ela, por sua vez, segura e assopra de volta na boca de Sabine num beijo ébrio.) |
Ana – Quem te desposar hoje vai ser um felizardo.
Olha, quando chegar a hora, deixa ele fazer todo o serviço, você vai precisar de energia pra agüentar a noite toda.
Paloma – É. E mesmo que não goste finja. Esse é o dom que toda mulher tem que ter.
Graça – Mas se você quiser amarrar esse homem dance a noite toda pra ele, mas não deixe ele chegar perto. Eles ficam loucos!
Sabine – Dá uma gemidinha pra gente ver a sua pegada.
(Ela geme e todas dão gritinhos e riem. Isabel se levanta, olha para sua imagem real e depois para o espelho, analisando de baixo para cima. Passando a mão pelo corpo e fala.)
Isabel - Nossa! Se a bitch da minha mãe estivesse aqui iria ver como é que se trata de uma menina da minha idade!
(Todas riem menos Ana.)
Ana desaprova – Ai que coisa feia. Ela te ama, tenho certeza!
Isabel – Ama nada. Se você soubesse de tudo o que ela me fez...
(Todas estão falando ao mesmo tempo, mas quando Nico fala todas prestam atenção. Nico está passando o rodo no chão.)
Nico – Olha, o que importa é que você está deslumbrante. Vai arrasar. Se eu fosse hétero você ia estar perdida.
(Isabel olha para Nico desconfiando.)
Sabine – Hmmm olha a Bel! Vai fazer o Nico virar ramón.
Nico – Cruz em credo!!! Agora eu preciso trabalhar que nem gente grande. Preciso checar uns quartos reservados.
(Nico encosta o rodo com o pano molhado na parede e ruma para a saída do salão, indo para os quartos.
Nesse momento, com exceção de Paloma e Sabine (que estão às voltas com o baseado), todas estão entretidas com a roupa de casamento que Gunda tirou da sacola.)
Isabel – Ai, deixa eu ir com você.
Nico – Isso babe! Assim você me faz companhia.
(Eles chegam até a beira do palco quando, à beira da porta que dá acesso aos quartos, Isabel puxa o braço de Nico falando baixo para ninguém ouvir.)
Isabel (lúbrica) – Fala a verdade, você não é só veado!
(Nico se certifica que ninguém está vendo e prensa ela na parede com violência.)
Nico (enfezado) – Cala a boca!
(Ela geme lasciva, provocante. Ele chega bem perto da boca da menina, dá pra sentir seu hálito. Pega-a pelo braço.)
Nico – E você não é virgem, sua pilantra!
(Ela dá um sorrisinho safado.)
Isabel – Depende de quem vai pra cama comigo.
Nico - Vem aqui e fica quieta!
(Eles entram. As luzes se apagam. No telão dá pra ouvir os gemidos e eles conversando. As duas sombras aparecem com efeitos psicodélicos por trás. O som é só o instrumental de “Metrópole Insone” rearranjada para esta cena. Enquanto isso bailarinos inteiros de preto entram dançando no meio da penumbra, ao ritmo da música, levando os objetos de decoração da festa. Só se vê o vulto deles.
O pano de fundo da decoração para a festa se desenrola sobre a parede de vidro original.)
Nico grita – Evoé! Apresento essa virgem Bafomé!
(Eles gozam e ouve-se o barulho de um vidro se quebrando.)
Isabel – Que é isso? Tá louco???
(O telão mostra a sombra de Nico que rasga a trepanação dele com um caco do vidro. Pega a mão dela e passa na ferida dele.)
Isabel (assustada) – Pra que isso, maluco?
Nico – Coloca dentro de você o meu sangue e quem te comprar hoje vai pensar que você é virgem.
Isabel – Você acha que o cara não vai desconfiar desse sangue?
Nico – Eles sabem pouco sobre mulheres, por que você acha que vêm aqui? Agora se arruma e volta!
(Vê-se no telão a movimentação de carros em fast e o barulho das pessoas na frente da Casa de Chá. Ouve-se gente falando o nome na entrada, outras reclamando que que não pode entrar, que “sempre freqüenta a Casa de Chá e agora eles vêm com essa palahaçada”, que “nunca mais volta se não puder entrar hoje”, ouve-se o porteiro explicar que a festa daquele dia é fechada, que ele não pode fazer nada. Ouve-se ainda uma briga lá na frente, uns caras zoando umas putas na rua... A música entra nesse momento (um tipo de música de recepção.
De repente mulheres vestindo batas entram com velas acesas nas mãos, em filas, dos dois lados do palco iluminando e dando vida à cena enquanto o som do burburinho boêmio vem à tona. Elas vão deixando as velas nas mesas e seguem dançando pelas pessoas que estão lá. As luzes se acendem lentamente e revelam a Casa de Chá já cheia. Quando todas elas deixam as velas, dois homens musculosos, tatuados e carecas, vestidos como se fossem eunucos etíopes - sem camisa, com calças largas de seda, braceletes dourados nos dois punhos e, em torno do pescoço, usam uma gargantilha de metal com três pedras verdes: uma na frente, uma em cada um dos lados e, no lugar da que supostamente deveria estar atrás, há uma argola para que sejam presas correntes que servirão de guia, como se eles fossem algum tipo de animal doméstico -, acendem tochas ao fundo do palco. Depois começam a cuspir fogo e a passar a tocha em seus corpos, partindo logo após para acrobacias.
Nico já está trabalhando e está vestido de gala: com colete, de onde saem babados da gola, iguais aos das mangas. Nico ainda ostenta um elegante pano em sua cabeça. Bira e Marlene também estão de gala: ele de smokin, ela de vestido longo e coque nos cabelos loiríssimos. Bebem champanhe em taças finas e estão de pé do lado esquerdo do palco apreciando a festa.
O salão está com outra ornamentação, há panos pendurados e membranas de lado a lado do palco. Narguilés espalhados por aí, almofadas de veludo bordô com franjas douradas, sedas indianas por todos os lados, mesas com artefatos de prata, incensários e rosas nos vasinhos de mármore. No canto direito da cena, ao fundo, há uma fonte em formato de estátua de mais ou menos um metro e trinta, de Baco menino babando vinho dentro de uma banheira rodeada de cachos de uvas. Ele segura uma taça que também deixa transbordar vinho. No meio da parede do fundo, que era coberta de espelhos, agora é coberta por uma tapeçaria que retrata um banho romano com belos nus entrelaçados em poses harmônicas. Nos cantos mais próximos da platéia estão dispostas duas peças que lembram pilares romanos e, sobre elas estão vasos de mármore. As duas peças têm, mais ou menos, um metro e vinte cada um e, de lá saem ramos tenros de hera-estrela.
Há uma cama em formato de coração no canto (onde estava a mesa de sinuca), à direita, onde, no momento, encontram-se deitadas, com copos nas mãos, Sabine e Paloma. Elas cochicham e apontam para os eunucos até que em um dado momento elas vão até Nico, pegam uma corrente cada uma (entregues por ele) e prendem sem nenhuma cerimônia nos dois eunucos, levando-os quase arrastados para a cama, onde começam a se amassar.
O telão excepcionalmente permanece funcionando por todo o ato exibindo imagens de plasticidade e movimento psicodélicos. Há muitas mandalas girando, flores que se distorcem e águas coloridas. As luzes possuem tons alaranjados, amarelados, rosados, arroxeados, azulados e movimentam-se levemente. A “bola de espelhos” está desligada.
Os Meus Meninos estão tocando violino, bongô, cítara, guitarra e outros instrumentos que estão ali, sendo tocados por outras pessoas da festa também. Usam chapéus com penas douradas presas neles. A música que eles tocam parece “Venus in Furs”.
Para servir a clientela há anões vestidos como se fossem generais indianos, com uniformes brancos. O blazer é fechado do lado. Na cabeça eles vestem um turbante que ostenta uma pena vermelha felpuda em cima.
As pessoas estão chegando e, quando chegam, ficam maravilhadas.
No balcão, alguns aquários redondos estão cheios de sementes e flores das respectivas plantas, um deles contém DMT.
Estão também na cena Damariz, Graça e Sérgio. Dançando com Sofia está Sidney, seu acompanhante. Sabine e Paloma estão se beijando e fumando maconha. Ricardo está ali do lado vendo os potes e conversando com Nico.)
Ricardo – Cara, o que tem nesses potes?
Nico – Alucinógenos que florescem em qualquer jardim, remédios que não enriquecem os psiquiatras, sonhos que os babacas do governo nunca vão poder proibir que nós sonhemos. Come uma florzinha dessas.
(Ele dá uma florzinha roxa que tira da lapela e dá ao menino.)
Ricardo – Você é um xamã urbano, cara!
Nico – Por que não podemos sentir prazer sem necessariamente ter que trepar? Essa é minha filosofia e a sua sorte de hoje.
(Nessa hora entram Thomás e Miguel.)
Thomás (maravilhado) – Eu nunca entrei num pico que nem esse!!
Miguel – Cacete!!!
(Eles se sentam ao lado de Camargo, Cláudio e mais dois empresários. Todos têm uma menina de bata ao lado.
Nesse momento a música cessa e todos procuram lugares para se sentar. Quem não se senta nas mesas acomodam-se nas almofadas dispostas no chão.)
Nico ao microfone - É um prazer tê-los aqui nesse evento especial. Vou me apresentar: eu sou Nico, ou Niquinho para os meus faunos. Sou bartender e a estrela suprema da Casa de Chá. Para quem não conhece a Casa de Chá, aqui nós vendemos carinho - o sonho é à parte. Esses aqui são os “Meus Meninos”, eles executam as minhas viagens e assim, sendo eu o coração e eles, meus lábios e minha voz, somos muito felizes juntos. Ali estão meus eunucos etíopes e, por fim, os gênios que conduzem esse colosso erótico: nossos célebres anfitriões reais, Marlene e Bira.
(Bira e Marlene levantam seus copos cumprimentando os convidados.)
Nico prossegue - O drinque de hoje é o “Adão e Eva”. Não costumo passar a receita dos drinques assim fácil, para as pessoas, mas posso dizer apenas que nesse aqui vai gim, licor de laranja e rende duas únicas e quentes porções.
Eu vos convido a ficar até o fim, pois garanto que essa vai ser a noite da vida de muitos, vai mudar a de tantos outros e vai ser a inestimável e doce lembrança de todos.
Senhoras e senhores, por trás dessas cortinas há delírios adocicados, escultura em cujas curvas poucos tiveram o privilégio de se aventurar. Concedida pelo sultão, amigo de se seu humilde anfitrião, essa concubina veio de além-mar especialmente para esta noite. Eu tenho o orgulho de apresentar um tesouro da Babilônia. Abram bem os seus olhos, pois o que vão ver é um presente do oriente. Aproveitem o espetáculo e relaxem com nossas massagistas tailandesas e com nossos eunucos etíopes, que, aqui entre nós, “eunucos” são só no modelito pois eu garanto que ali não falta nada.
(Abrem-se as cortinas e entra uma moça vestida com sedas finas, um rico ornamento dourado e um penteado exuberante (inspirado no Satiricon do Fellini), fazendo contorcionismo com uma cobra albina. Entram também as moças com batas e tinas para massagear os pés dos homens e eunucos para massagear os das mulheres.)
Paloma – Safado, hoje quem vai pagar sou eu e você vai fazer o que eu mandar, entendeu?
Eunuco – Direitinho.
Quando uma das moças vai massagear Sérgio ele fala - Não, você é linda, mas eu prefiro o eunuco.
(Um dos eunucos é chamado pela moça e este começa a massagear Sérgio.)
Sérgio – Você não é eunuco mesmo, né?
eunuco – Pagando bem eu sou o que você quiser, coração.
(Camargo se diverte vendo as expressões de seus convidados de honra.)
Camargo - Do you want her?
Raoul – Man, that´s amazing! I´m inside a real dreamland! That´s a living white snake!
Camargo – I told you.
Steve – Man, I´ve made my mind! I´m leaving China to come live here, in this paradise.
Camargo – Enjoy, people, it´s only the beginning.
(Graça está sendo massageada por Dama. As duas estão sentadas em almofadas junto à Sofia e Sidney, que permanecem abraçados ao lado das duas.)
Sidney para Dama – Damariz, essa festa é um sonho digno da Clareira.
Sofia – Muito obrigado pelo convite, dama.
Damariz – Sabia que vocês iam gostar.
Graça – Dama, o êxtase é quase insustentável. Preciso de algo.
Dama – Vou buscar um narguilé com ópio.
(Dama se levanta.)
Sofia – “Ópio”? O negócio é mais exótico do que eu imaginava...
Sidney (deslumbrado) – Puxa...
(A moça termina o show e todos aplaudem. Damariz, que estava indo buscar o narguilé, pára para prestar atenção em Nico, que volta ao microfone. Graça vai ficar sem entorpecente...)
Nico ao microfone - Meus caros convivas. É de perder o fôlego, não? Mas eu vos aconselho a não explodirem agora. A nossa próxima atração é uma atração especial. Mais especial para dois amigos de longa data aqui da casa. Eles se conheceram no circo e usaram suas aparências a seu favor, não cedendo nunca às cada vez mais criteriosas exigências para serem aceitos e transitarem nos altos escalões dos meios “artisticuzinhos” da elite da mídia moderna.
Foi uma longa e intensa paixão de seis anos, lado a lado, batalhando cada cachê, dividindo o mesmo alojamento em cada canto desse país. Acumularam muitas histórias tristes, engraçadas, belas e até chocantes; porém, todas elas fazem parte de uma única história tocante de duas personalidades marcantes que se encontraram nesse mundo vasto e superlotado. (pausa)
Ele, filho de engenheiro e psicóloga, é formado pela USP no curso de Artes Cênicas – onde nós dois nos conhecemos. Ele dirigiu e atuou em vários comerciais e filmes. Montou seu próprio circo itinerante, mas sua paixão pela interpretação não o impediu de trabalhar duro em cima dos tablados. Quero lhes apresentar o noivo, Inácio Abrantes, o seu Inácio.
(Todos se levantam e abrem espaço. Um anão segue como se estivesse abrindo caminho no meio da multidão (na verdade só a parte da frente se afasta para trás dando passagem) jogando pétalas de rosas antes de Inácio passar. Enquanto isso Meus Meninos fazem o acompanhamento musical e dois eunucos (não aqueles que estão com Paloma e Sabine, mas o que massageava Sérgio e um outro) cospem fogo nos cantos do palco.
O anão vai até Bira, cumprimentam-se com um toque de mão das ruas, abraçam-se e se beijam no rosto. Ele, o anão, está vestido como general indiano, mas possui adornos prateados que o diferencia dos outros anões, que, por sua vez, não possuem adornos de metal.)
Nico – Ela nasceu em Sorocaba de pai advogado e mãe astrônoma. A vida infelizmente abreviou a vida de seu pai quando ela tinha doze anos. Batalhou muito em empregos humilhantes para subsidiar sua paixão: os estudos. Formou-se em Letras pela Universidade Estadual de São Paulo e escreveu para várias revistas e jornais. Tem um livro publicado, foi à África em uma missão humanitária e, depois de um casamento infeliz, resolveu jogar tudo para o alto e viver pelo e para o circo, onde conheceu Inácio. Senhoras e senhores essa é a Madame Gunda.
(Ela entra entre os anões jogando pétalas no chão e por trás, jogando por cima dela. Os Meus Meninos acompanham musicalmente a passagem dela também, enquanto os eunucos cospem fogo. É no momento em que Inácio a vê que começa a chorar copiosamente. Ela está vestida com um vestido de noiva com flores bordô estampadas e uma enorme flor de laranjeira em sua cabeça. Vai até a presença de Bira e o cumprimenta cordialmente. Ela se volta para o noivo e começa a rir.)
Alguém entre os convidados grita - Gunda, Gunda, seu marido cabe na sua carteira.
(Inácio volta-se para onde veio o grito e manda-lhe o dedo do meio.)
Inácio puto, mas com lágrimas nos olhos - Seu bosta, só não te arranco os dentes porque estou muito emocionado.
(Todos riem. Nico passa o microfone do balcão para Bira, que está à frente dos núberes. Nico começa a beber matando copos com uma só tragada.)
Bira ao microfone – O matrimônio, em nossa sociedade, representa a renúncia e a plena aceitação daquele de quem se desposa.
Não é a abdicação dos objetivos pessoais ou a negação de si mesmo e sim, no ato do casamento, dar as boas-vindas a um complemento, um apêndice de nossa alma. Esse é o primeiro fruto da união. O terceiro membro entre os dois amantes é a própria união, que precisa ser tratada e cuidada como se fosse uma criancinha, mesmo que ela seja desobediente, né, Marlene?
Marlene sorridente – Eu que o diga...!
Graça (maravilhada) – Eu nunca imaginei um casamento assim. Dama, quero que o Bira case a gente!
(Bira faz um sinal de silêncio levando o indicador à boca.)
Bira prossegue ao microfone – Um dia, na vida de todos nós, livres-pensadores, a balada já não é mais um lugar para a diversão e sim uma busca impulsionada pela solidão, onde somos sugados e sugamos a energia emocional dos outros solitários por intermédio de papos vazios, desenvolvendo a arte da palavra com intentos subjetivos e tornamo-nos então vampiros. Até que um dia alguém aparece para nos complementar e o que mais queremos nessa hora é complementar essa pessoa também. A solidão se vai e aí sentimo-nos transbordados. Daí, apresentamos essa pessoa à instituição mais importante dessa sociedade: aos nossos verdadeiros amigos.
Com o passar dos anos a pessoa que foi escolhida já possui laços fortes e amigos íntimos entre os seus próprios amigos. Aí, faz-se a necessidade de celebrar o casamento. Escolhe-se o membro do grupo que é o mais fiel, que ainda gosta de ouvir Beatles, que continua se divertindo da mesma forma de quando se conheceram, que ainda não se mudou para a Suécia e que, geralmente, ainda possui um objeto emprestado que nunca devolveu - no meu caso, já adianto que possuo direitos inalienáveis sobre o seu Bukowski, Inácio. Então esse membro realiza publicamente a cerimônia da união. (Todos riem) Quem trouxe as algemas?
(Sai um anão do meio do público e entrega-as ao tatuador eunuco.)
Bira – Então, estando apenas os dois em concordância - pois ninguém tem nada a ver com isso mesmo. Pelo poder a mim concedido pela minha patota, eu vos declaro tigrão e panterinha. Façamos as tatuagens.
(Gunda se ajoelha e os dois dão as mãos para o tatuador, que tatua as iniciais dos nomes do casal nos anulares esquerdos dos cônjuges. Ele faz um curativo de plástico na pintura e depois recomenda como se deve tratar dela. Dá-os um tubo de Bepanthol e depois entrega a algema para Inácio, que prende Gunda, ela faz o mesmo com ele. Eles algemam suas mãos esquerdas e, feito isso, a única forma de estarem juntos com a diferença de altura é ela carregando-o no colo,)
Bira – Devo lembrar aos senhores que hoje os pombinhos estão fadados a ficar até o final da noite algemados. A chave foi muito bem escondida no quarto três, o quarto nupcial.
Inicie-se as comemorações. Nico, música!
(A música recomeça e todos querem abraçar e beijar os noivos. Nico vai ao palco com a música tocando. Ele tem um copo de conhaque nas mãos e bebe numa só golada,)
MEDDLEY
Surpresa!
Veja o show da volúpia,
Tudo o que se tem
Mas é preciso pagar.
Não desvie o olhar
Da carne que treme,
Da prisão da mente
Que não quer libertar.
Toque a sua pele
E veja de novo
Tudo funcionar
De dentro pra fora.
Você está bem aqui
E clama por mais
Não atrase a lembrança,
Como vai ser seu ontem.
VEJA! VEJA O SHOW DA CASA DE CHÁ!
(No meio da apresentação entram engolidoras de espada tatuadas e com piercings. Os eunucos continuam cuspindo fogo. Gunda passeia dançando com Inácio em seus ombros.)
Cláudio grita no meio da roda em que está sentado no chão – Santa esbórnia!!!
MEDDLEY
É o seu sêmen
Primo desse seu escarro,
Frutos desse sangue grosso
Em veias feitas pra enforcar.
Seu ímpeto é purulento
Chagas nesses seus mamilos
Duros, que estão engolfados,
Que desperdício esse suor salgado!
Sua coleção de falos mudados.
Penetro lento na sutura,
Anseio novas substâncias
E passo a língua na costura
Vou te guiando nessa galeria
De dor
De prazer
E aromas, delírios
E sombras.
Xamã urbano
Maestro e lasciva!
Meu nome é Nico
Vem pra uma sessão comigo.
No limiar da inflamação
Vejo ramos nas suas artérias
E frutos rubros, amarelados
Por entre os dedos melados.
Eu quero a sua inflamação!
Me deixa essa infecção!
Saliva e intoxicação!
Eu quero a sua inflamação!
Me deixa essa secção!
Saliva e menstruação!
Afecção...!
Aversão e ojeriza!
Inflama! Inflama pra mim! Inflamaaaaaaa!!!
(Nico enche outro copo e bebe em uma só golada. Vomita em sua gravata e a observa.)
Nico - Que desperdício!
(Daí ele lambe a gravata.
Todos aplaudem Nico com vontade. Nico o público em alemão e sai do palco. Quando está descendo Sérgio pega-o antes que ele dê a volta no balcão.)
Sérgio - Eu sei o que você fez, viu? Só pra deixar registrado. A virgem não é mais virgem, mas isso é um segredinho nosso, tá?
(Nico põe a mão no peito de Sérgio e empurra-o com força contra o balcão.)
Nico - Eu nasci homem e continuo assim, paga pra ver! Vê se cresce, seu merda!!!
(Sérgio fica estarrecido olhando com os olhos esbugalhados pro Nico, que ainda o está encarando. Nico o solta e deixa Sérgio lá, sem saber pra onde ir. “Meus Meninos” começam a tocar algo.)
Miguel - Nico, cara! Quanta droga tem aqui. E os gambés, velho?
Nico (levemente bêbado) – Nem esquenta com isso, aproveita que hoje tem um negocinho que você só iria experimentar lá pra cima da linha do Equador.
Miguel – Mas o que é?
Nico – Ópio, dos melhores. Eu mesmo cultivo as papoulinhas na minha casa. É coisa fina.
Miguel – Não acredito!!! Todos eles: Burroughs, Ginsberg, Baudelaire, Artaud, Charlie Parker, Basquiat, Iggy Pop..., todos eles foram inspirados pelos opiáceos! Como eu uso isso?
Nico – Ê idolatria!!!
Eu tenho tintura de láudano, mas você pode usar o cachimbo.
Miguel – Dá o clássico cachimbo.
Nico – Mas você não vai saber usar.
Miguel – Eu me viro.
Nico entrega os apetrechos – Vela, cachimbo e almofada. Boa viagem.
Miguel para Thomás – Thomás, pega um também.
Thomás – Não uso nada que possa matar minha alma, cara.
(Miguel larga os apetrechos perto da estátua de Baco e beija-a na boca sugando-lhe um pouco de vinho antes de se deitar para começar a fumar. Sabine vendo Miguel se inspira e larga o eunuco pra pegar um narguilé também. Nesse momento aparece Ângelo. (ele tem uma bandana na cabeça) Vai até Thomás.)
Thomás – E aí, velho. Que parada é essa aí na sua cabeça?
Ângelo – Eu mudei completamente de ontem pra hoje, cara. Estou iluminado! Preciso te contar o que aconteceu ontem.
Thomás – Iluminado vai ficar o Miguel. Olha ele ali, está fumando ópio!
Ângelo – Eu já não preciso mais de nada disso.
(Aproximam-se Graça, Damariz, Sofia e Sidney.)
Sofia – Olá, neófito.
Ângelo – Oi. Thomás, esses são Sidney e Sofia, da Clareira. Sydney, Sofia, este é Thomás, meu amigo de infância.
(Eles se cumprimentam.)
Ângelo – Vamos pegar um quarto e fazer uma sessão?
Thomás – Sessão?
Damariz – É. você vai gostar.
Thomás – Vocês não vão me furar não, né?
(Todos riem.)
Sofia – Furar? Depende do que você entende por “furar”?
Sidney desconversa – Acho que não se vê uma festa dessas desde a Roma antiga.
Thomás – Olha, se algum dia, em algum lugar, nasceu alguém parecido com o Bira, aí sim acho que as pessoas que estavam perto poderiam ter sido agraciadas com festas parecidas com essa. Caso contrário, acho que essa festa é única e tem a cara do pai.
Ângelo para Dama – E aí, Dama. Vamos fazer uma sessão ou não?
Damariz – Vão vocês. Eu e a Graça vamos ficar por aqui pra apreciar um pouco mais esse clima único, né amor?
(Os olhos de Graça movimentam-se perdidos no ar. Ela está com a boca aberta e com um jeito débil. Damariz segura o rosto dela e olha-a de perto.)
Damariz (apreensiva) – Tá tudo bem, Graça? Graça???
(Graça cai repentinamente. Todos ficam assustados. Ela começa a tremer e a balbuciar coisas sem sentido. Todos os movimentos dela são descontrolados.)
Sidney – Meu Deus! Pega esse quarto logo, vamos sair desse tumulto!
(Damariz vai até Nico.)
Dama (discreta) – Nico, pelo amor de Deus, me dá uma chave. A Graça não está passando bem.
Nico – Ai, meu Deus! Acho que ela reverteu a iniciação.
Damariz (séria) – Acho que sim.
(Nico dá a chave.)
Nico - Se precisarem de mim avisem pelo interfone.
(Damariz corre para ajudar a carregar o corpo desfalecido de Graça que já está sendo retirado.
Thomás está estupefato e fica sozinho no meio do salão.)
Thomás para Miguel (indignado) - Miguel, você viu o que aconteceu?
Miguel com a fala pastosa – Nossa, estou vendo templos dourados e cor-de-rosa. É meu sonho de banho grego revirado. Estou deslizando numa bolha de cristal como se fosse um pedaço de seda, cara!
Thomás – Cara, a Gracinha passou mal, o Ângelo está estranho pacas e eu tô sentindo cheiro de cocô, velho. Vai dar merda, eu tô sentindo!
Miguel – Cara, o mistério é simples. O mistério é alimentado pelas pessoas que inventam o mistério. Cada dia que passa ele está mais forte. Jimi Hendrix está entre nós agora, com certeza. Sente essa vibração.
Thomás – Só Jesus pra você, Miguel.
(Thomás se retira, ainda indignado, da presença de Miguel.
Bira sobe no palco cenográfico.)
Bira ao microfone - Um minuto de sua já dissipada atenção, meus caros. Gostaria de anunciar a próxima atração. Eu tenho aqui hoje a pureza em meu poder, meus lindos. E quero oferecê-la ao mais bem dotado de bens da casa. Haverá aqui um leilão como nunca se viu na cidade.
Meus amigos, eu vos convido a se indagar comigo sobre o futuro de uma linda menina, ainda cheirando a leite,
meus caros. Quase órfã, entregue a uma vida miserável, de muitas vicissitudes, numa favela de São Paulo, onde seu crescimento certamente está comprometido. Um lugar onde ela estaria entregue completamente à bondade alheia e, cá entre nós, ajuda mesmo nunca viria de nada ligado ao Estado. Quem serviria de guia para uma infeliz de dezesseis anos? Escolas estaduais? A Casa Família? Um traficante? Pessoas que querem se aproveitar desse anjinho!
Senhoras e senhores, devo avisar-lhes que só atendi aos rogos de um pai desesperado e de um anjinho triste com a certeza absoluta de que era esse mesmo o desejo de cada um deles e, ainda por cima, de estar certo de que a segurança da menina estaria em primeiro lugar nas prioridades desse leilão. O grande felizardo também será cobrado. Ah sim, senhores! Nós ligaremos toda semana para o futuro cônjuge da minha criança, falaremos com ela em todas as vezes e qualquer suspeita será motivo de averiguação. É só sob essas condições que será consumado o leilão de hoje. Quem não estiver de acordo nem precisa se manifestar hoje. Nem um montante será mais importante do que isso. O que me conforta é saber que aqui dentro provavelmente irá sair um de meus amigos feliz em ter a oportunidade de fazer também feliz a minha criancinha.
Meus amigos dar-lhes-ei o prazer de se deleitarem com a imagem dessa menina. Tragam a virgem!!
(Então a menina aparece na porta que dá acesso aos quartos e passa de mão em mão, carregada pelos que estão na platéia até chegar na frente de Nico e Bira. Ela se posta, meio envergonhada, entre Bira (que está do lado de fora do balcão) e de Nico (que está do lado de dentro.)
Bira - Amigos imaginem que essa donzela veio dos confins da periferia dessa cidade. Nem desmamou e ainda guarda segredos da infância. Senhores, esses seios jamais foram acariciados por nenhum outro varão.
(Nico olha pra ela e tira um de seus seios pra fora. Ela deixa o seio à mostra, porém, por um tempo curto e depois se recompõe.)
Bira diz ao microfone – Amigos, o lance inicial é de cinquenta mil.
Sabine, de sua almofada no chão - Eu dou cinquenta mil e quinhentos.
Paloma – Tá besta, mulher! De onde você vai tirar essa grana?
Sabine (pastosa) – Do cu! Desenbaça!
Camargo para o Cláudio - Agora é questão de virilidade. Eu não vou deixar uma mulher levar essa menina. (vira-se para Bira) Eu dou cinquenta e um mil!
Cláudio – Desculpa Camargão, mas amigos, amigos, negócios à parte. Cinquenta e dois!
Bira - Eu sabia que todos iriam perceber o real valor de uma mocinha como essa. (pausa) Quem dá mais?
Steven - Fifty three thousand dolars!
Bira - Senhoras e senhores, temos um lance alto! Agora o leilão é em dólar!
Camargo - Eu vou levar ela pra casa de qualquer jeito. Dou cinquenta e quatro mil dólares!
Damariz, que está perto de Isabel – Boa sorte, cabrita!
Raoul - Fifty five!
Cláudio - Ela não sai do Brasil! Cinquenta e seis mil dólares!
Camargo - Sessenta mil dóletas e pronto!!!
(Silêncio.)
Steven - Sixty one...!
Camargo - Eu dou sessenta e cinco mil dólares e é para finalizar. A menina é minha!
Bira (enfático)- Sessenta e cinco mil dólares, senhores!!! E quem dá mais por essa beleza imaculada? (pausa) Dou-lhe uma, dou-lhe duas... Vendida para o Camargo! Meus parabéns.
(Todos aplaudem.)
Isabel sussurrando – Nico, é agora. Você nem pra dar um lance, hein!
Nico – E depois eu pago com o quê? Meu pau não vale isso tudo!
Isabel - Promete pra mim que você não vai perder o contato comigo?
Nico - Vai que essa é a primeira lição da tua vida. Eu sou daqui, babe, e nunca vou sair! Mas nem esquenta, nada é definitivo no mundo.
(Isabel olha pra Camargo e entrega-se a um beijo sem muita vontade.)
Bira ao microfone - Sim, é ele mesmo, o senhor Camargo! Quer dizer algo aos nossos convidados?
(Camargo sobe ao palco e assume o microfone e brinca com sua platéia.)
Camargo ao microfone (jocoso) - Eu gostaria de agradecer aos adversários que infelizmente não conseguiram levar pra casa essa maravilha, foi mal! (Ele ri, faz uma pausa e depois toma uma postura um pouco mais séria.) Gostaria de agradecer todos os amigos que compareceram na festa e dizer-lhes que, devido ao sucesso desse evento, muitos mais serão feitos aqui.
Alguém da platéia sugere – Ê, Camargo! Canta uma musiquinha.
Camargo – Mas eu nem sei cantar!
Outro alguém – Mostra teus dotes de artista!
Camargo – Tá, tá! Vocês que pediram, hein.
Camargo vira-se para “Meus Meninos” - Vocês conhecem “Coquetel”?
(Eles acenam que “não” com a cabeça.)
Camargo – É um blues em mi menor, pega o tempo aí. É mais ou menos assim...
(Eles começam a tocar a nota e Camargo começa a cantar. Depois de um tempo eles pegam o ritmo.)
“Coquetel” (BLUES)
Quantos aninhos você tem, honey?
´stá conservada em uísque bom.
Caras e bocas de espelho
Já são sucesso em Moscou.
Você me conta suas aventuras
E do seu jei/to / livre de ser.
Pede outro Blood Mary
E enxu/ga a boca com/ desdém.
Emenda uma Cuba Livre
E me quer pra ser o seu escravo
Eu quero sua seiva com gelo
Numa tulipa com meu feromônio.
Meia de seda, Manhattan Sweet
Havana é um coquetel caliente
Vou me afogar em tanta luxúria
Bebendo seu perfume na fonte.
Experimenta uma Lagoa Azul
Mas antes pro/ve o Bei/jo do/ Vam/piro
O gos/to/ ru/bro da /chaga/ fria
Que se mistura com a imensidão.
Prazeres são servidos em doses,
Ideologia é questão de estilo.
Aprecio tudo isso com gosto,
Inestimável, em um bom bordel.
Agora eu quero o seu suor,
O seu batom, sua língua gelada
Lutando pela liberdade
Na batalha que se trava na cama.
(No meio da apresentação Damariz aparece correndo e vai de encontro de Nico.)
Damariz (desesperada) – Quem está de carro aí?
Nico – Pega o carro do Bira.
(Damariz recorre ao Bira.)
Dama (desesperada) – Bira, empresta teu carro, é uma emergência. A Graça não está bem.
Bira – Mas o que aconteceu?
Damariz – É isso o que nós vamos descobrir.
Marlene – Vocês querem que eu leve ela?
Damariz – Não, Marlene. Obrigado mas dessa daí eu preciso me responsabilizar.
(Nico dá a chave a ela. Ela entra e em pouco tempo todos saem carregando Graça em lençóis. Está desacordada e toda vomitada.
Uma das moças de bata - Tá tudo bem? Eu estudo medicina e posso ajudar, de repente.
(A moça repara a trepanação.)
A moça exclama com as mãos sobre a boca – Meu Deus, ela tem uma trepanação!
Sidney (incisivo) – Eu sou o médico dela e ela não tem nada!
(Sidney está perto da porta.)
Sydney para Bira e Marlene – Gente, obrigado por tudo. É uma pena a gente ter que sair assim.
Marlene angustiada – Vai logo ver o que essa menina tem!
(Ricardo está num canto do salão rodando e pára na frente de Miguel.)
Ricardo – Ipomoea.
Miguel – Somniferum.
(Ricardo senta-se e começa a viajar com Miguel.)
Ricardo – A história tem brechas, cara.
Miguel – Dá pra ver por entre elas.
Ricardo – Heróis são quimeras.
Miguel - ...no nosso imaginário, antes delas nascerem.
(Ricardo se deita e começa a tocar coisas imaginárias no ar.)
Miguel – Eu pensei que a única coisa que você fazia era chimbar as minas daqui.
Ricardo – Eu adoro esse clima libertino.
(Ângelo vai até eles.)
Ângelo – Eu dei um jeito na minha vida vazia. Eu vejo as quimeras. Agora entendo o funcionamento do Universo.
Miguel – Você vê o Jimi?
Ângelo – Eu abri minha cabeça.
Ricardo – Nossa, tô doido demais! Parece que você fez um furo na cachola.
Miguel – Hare krishna, cara.
Ângelo – Foi assim. Ontem...
(Miguel entra em transe e apaga nessa hora. Ângelo lança um olhar de desaprovação e vai sentar-se à mesa.)
Nico ao microfone – Senhoras e senhores, agora uma atração gastronômica.
(Algumas meninas de bata afastam as mesas de metal enquanto os eunucos entram com uma mesa baixa de madeira, que é posta no meio do palco. Todos pegam almofadas e sentam em volta da grande mesa.
São trazidas baixelas de prata para que sejam lavadas as mãos, copos de prata e garrafas igualmente de prata (todos do mesmo jogo). As moças e os eunucos que estão massageando param e começam a lavar as mãos dos convidados. Menos Paloma que continua deitada na cama falando indecências com o eunuco.)
Paloma (empolgada) – Oba! Hora da xepa!
Nico ao microfone – Um cardápio especial foi desenvolvido para seus apurados paladares. Um tanto exótico, sim, eu reconheço. Mas aqui vocês vão ter a oportunidade de saborear pratos requintados e que raramente são servidos nos restaurantes. Senhoras e senhores, sirvam-se de hidromel e apreciem o “fruto que vem do céu”.
(Ouve-se o zumbido das tanajuras e no telão aparece a câmera filmando o sol e a sombra de várias tanajuras voando. Entram moças e eunucos com bandejas. Eles deixam as bandejas nas mesas. Nessa hora Ana começa a passar mal e senta-se no balcão retirando-se da grande mesa,)
Nico ao microfone – No verão uma geração de formigas aladas sai do formigueiro onde nasceram para erigirem seus próprios reinos e fundar novas fortalezas. Essas são as futuras rainhas, que vão ser servidas e cortejadas pelos seus operários pelo o resto de suas vidas até que novas rainhas nasçam. É nesse momento em que os índios brasileiros recebem o maná do céu. Depois de fritas essas formigas viram uma iguaria única.
(As baixelas, de metal e em formato de formigas, são trazidas com aberturas onde estariam seus ventres ao mesmo tempo em que Nico está falando.)
Nico ao microfone - Outro inimigo comum em nossas casas pode ter sua rainha subtraída em nome do nosso paladar.
(Aparece no telão a rainha de cupim sendo frita.)
Nico ao microfone – Essa é a “Comida do rei” na África e na Índia. O cupim é rico em ferro e sua rainha tem um sabor especial.
(São trazidos os cupins em pratos de madeira entalhados pelos índios. Estão adornados com folhas grandes embaixo.)
Nico ao microfone - O próximo antepasto é um inimigo das nossas plantações, porém, pode ser uma rica fonte de cálcio para nós.
(Uma nuvem imensa de gafanhotos no telão. Em outros pratos de porcelana que parecem folhas em forma de asas, são trazidos os gafanhotos. Tudo o que é servido está disposto em abundância.)
Nico ao microfone – O “Gafanhoto crocante” é saboreado aqui nas Américas, também. Além de ser apreciado na África e na Ásia. São cozidos vivos. (pausa)
Agora, se vocês querem realmente romper com o problema do preconceito de vez, esse é o prato indicado para esse mal. Imaginem uma sociedade de pessoas que não adotam apenas um único julgamento sobre as coisas que as rodeiam. Imaginem que, ao invés de considerarmos as coisas a partir de uma única concepção, a que vai ficar amalgamada pra sempre em nossas consciências, nós nos déssemos uma única chance pra não limitarmos nossa percepção, deixando as portas abertas para outras possíveis qualidades que os seres podem nos mostrar. Vamos e convenhamos: nossas consciências não têm dado motivos de virtuosismo maiores do que a reputação dos nossos amigos artrópodes.
Imaginem a harmonia perfeita entre todos os seres se ao invés de preconceito adotássemos a colaboração, que foi um dos fatores mais importantes para a nossa evolução. Sei que isso não é difícil para os senhores que, afinal de contas, aceitaram de bom grado vir a uma festa de gala numa típica casa de chá.
(Alguns riem e Ana sai correndo em direção ao banheiro, mas não agüenta e vomita no meio do caminho. Marlene se levanta pra ajudar a limpar. Nesse momento aparece bem desfocado no telão, um enxame de baratas andando umas por cima das outras. O foco ganha nitidez aos poucos.)
Nico ao microfone – Senhoras e senhores; meus convivas. Ela possui oito centros nervosos ao longo do corpo e uma das melhores regenerações do mundo. Se fôssemos iguais a elas nesse aspecto, não haveriam pessoas prostradas por mutilações no mundo. Ela possui uma blindagem de quitina flexível que pode reduzir o tamanho de seu corpo em três vezes, para que ela passe pelas menores frestas. Possui cílios que podem captar ondas de até três centésimos na escala Richter e também têm três vezes mais proteínas do que o frango. Acreditem, elas são deliciosas e seu sabor é semelhante ao do camarão...
Damas e cavalheiros, eu vos apresento a blatela Germânica e sua prima, periplaneta Americana. Elas são muito apreciadas como iguarias na África e na Ásia.
Sabine canta alto e ri – “...vestido de quitina marrom, gira no teto do salão...”.
(Ana entra no bar e pega um copo d´água, depois senta-se na poltrona e fica assistindo de longe. Enquanto isso são trazidas baixelas ovais de porcelana marrom esmaltado, com detalhes dourados e que estão fumegantes. Elas podem ser abertas pelas tampas que são articuladas como asas de baratas.)
Nico ao microfone – Nos manuais de sobrevivência militares ela aparece como uma saída para escapar à fome. Sua receita é simples se a prepararmos em casa. Ela deve ser alimentada à base de alface e maçã por uma semana para que suas víceras sejam limpas. Depois devem ir vivas ao congelador para que morram.
Ao nos deleitarmos com essa iguaria nosso corpo utiliza-se integralmente das noventa e cinco calorias desse animal que é servido desprovido das patas e das asas. Elas podem ser assadas, fritas ou cozidas. As que vocês experimentam agora estão muito bem cozidas.
(Bira come e se deleita.)
Steven, com sotaque carregado – Nossa, isso é uma delícia! O meu preconceito veio por terra.
Thomás – Sabe, eu tenho três inquilinas dessas morando no compartimento da luz da minha cozinha. Sempre digo pra elas: se quiserem conviver comigo, tudo bem. A sua sobrevivência aqui depende que vocês se adaptem às minhas condições, que sou maior. Aí é simples: se eu encontrar alguma delas moscando ao alcance dos meus braços eu mato!
Mas elas aprenderam bem! Hoje em dia, só saem à noite. Quando acendo a luz posso vê-las paradinhas no teto como jóias vivas, só esperando eu sair pra vasculharem meus refugos.
Raoul com bastante sotaque – É como se eu comesse um inimigo. Sinto as qualidades desse animal passando para meu corpo.
Nico ao microfone – É, meus amigos. Os yanomâmis comiam as cinzas de seus companheiros com purê de banana. Os waris embrulhavam fígado e coração em folhas e comiam com pão assado. Os pertences desses mortos eram queimados até esquecerem-se do seu nome... Os kaxinawás comiam seus entes queridos para ajudarem eles a viajarem pela estrada do arco-íris.
Comer algo é tirar-lhe sua humanidade para esses índios. Isso não é diferente em nossa cultura. Um delicioso filé mignon não é um pedaço do boi, mas sim uma peça numa bandeja de supermercado. Não é humano nem tampouco um animal, é algo sem vida e sem forma anterior.
Há outro lado da alimentação que nós vamos abordar agora (pausa) - o sexual! Em muitas culturas acredita-se que a comida é mais do que o combustível para o corpo e, em outras, que ela pode oferecer um tempero para vida sexual.
Os pratos estão divididos em partes do corpo. Vamos começar pela cabeça.
(Sabine levanta-se com dificuldade da almofada e pega um cacho de uva, entre a enorme quantidade que está disposta envolta da estátua, para brincar com seu par, deitada no chão.
No telão um cérebro aparece encima de uma tábua de carne. Depois de alguns segundos mãos aparecem e pegam o miolo e cortam-no em cubos.)
Nico ao microfone – Esse prato é um delicioso miolo bovino, servido com farofa, especialmente preparado para estimular as fantasias e elevar a libido às alturas.
(Entram os eunucos com uma baixela em formato de cabeça com uma fechadura grande e de barro no alto da cabeça, que por sua vez possui uma fenda que vai de orelha a orelha, selando a comida que está dentro. Um dos eunucos tira uma chave grande de metal da cinta e, ao invés de enfiá-la na fechadura ele quebra-a. Da fechadura quebrada um líquido cor de madeira escorre pelo rosto entalhado e pela mão do eunuco, que a oferece-a à Ana, para que ela possa lambê-la. Ela se levanta e volta a se sentar à mesa.)
Ana – Hmmm, molho-madeira. Isso sim é bom!
Nico ao microfone - Para o coração, nós servimos “Faisão romântico”.
(No telão aparecem os faisões vivos andando por aí. Os eunucos entram com uma baixela ornada de penas coloridas e com o faisão entre muitos brócolis. De um lado da baixela há um espaço para castanhas e do outro um monte de ovinhos.)
Nico ao microfone – Esses ovinhos contém previsões para o dia de hoje.
(Bira pega um ovinho, olha espantado pra ele, aproxima do ouvido e, depois, põe de novo na baixela.)
Bira – Eu tive a impressão de ter ouvido um piado daqui de dentro desse ovo.*
Raoul – Eu ouvi também.
(Nico estica-se de dentro do balcão para chegar mais perto de Bira. Ele está tapando o microfone.)
Nico para Bira (com ar de mistério) – É, Bira! Não adianta fugir da sua sorte de hoje.
(Bira devolve o ovo sem ver o que tem dentro.)
Camargo - Que nada, dá isso pra mim que eu como.
(Camargo olha, está prestes a abrir o ovo quando disfarsa e põe o ovo de volta.)
Nico ao microfone – Para que a potência dos moços seja plena mandamos preparar “cujones”.
(No telão são mostradas apenas as gônadas de um touro que balança-as de lá pra cá. O foco vai se abrindo até que a câmera revela que se trata de um tourada. A sequência termina com o toureiro desfechando o golpe mortal em seu já antigo oponente.
Um eunuco traz uma baixela de cerâmica cravejada de pérolas, com pedras e correntes de ouro pendurados por toda a volta. Na tampa uma estátua fálica é o pegador.)
Nico ao microfone – Cubinhos fritos e bem temperados de gônada bovina com pimenta calabresa provê muita energia. (pausa)
E para que a sensualidade das belas moças seja acentuada mandamos fazer “Rã Crocante ao Molho de Iogurte e Menta”.
(Ouve-se o barulho de água, depois o telão mostra várias rãs pulando em volta de uma lagoa artificial. A pele úmida e colorida de uma delas é explorada pela câmera.
Entram os eunucos com baixelas de porcelana com esmalte verde imitando a cabeça de uma rã, em seu papo encontram-se as rãs reais fritas. Em suas cabeças vê-se cogumelos grandes.
Ricardo e Sabine não estão comendo, pois estão completamente entorpecidos nas almofadas, do lado direito do palco.)
*N.A.: A utilização ou não efeito sonoro sugerindo o piado fica por conta do senso dramático do diretor.
Cláudio para Camargo – Ouvi dizer que em um bairro de Tóquio tem um restaurante aonde os animais chegam vivos nas mesas. Pode ser porco, galinha ou cabra, o cliente é quem escolhe. Depois de o cliente fornicar com os animais vivos eles são mortos e preparados para que eles literalmente sejam comidos.
Steven (com sotaque de gringo) – O bairro é Raponggi.
Raoul – Have you been there?
Steven (de boca cheia) – Hum, hum.
Isabel (enojada) – Credo!! Que maldade!
Camargo – Os orientais é que manjam de prazer. Você tem muito o que aprender, meu bem.
Isabel – Ih, já vi que isso não vai dar certo... A casa lá é grande? A gente não vai precisar ficar grudado, né?
Bira – A nossa é a época em que a dor de milhões é o prazer de dezenas...
Ângelo (sombrio) – Algo ruim acaba de acontecer.
(Ele geme baixo e uma gota de sangue mancha sua bandana. O truque para esta cena é escamotear um canudo que parte de uma das mangas do ator, passa pelo seu dorso, por trás da camisa e chega até a bandana.
Ângelo se levanta e vai sentar-se na poltrona ao lado de Sabine, Miguel e Ricardo, que estão viajando nas almofadas.)
Ricardo (assustado) – Cara, você está bem? Esse teu buraco tá vazando.
Ângelo – Eu tô legal. Só senti um calafrio.
(Ana pede licença e vai até Ângelo.)
Ana – Que porra é essa na sua testa? Você se machucou?
Ângelo – Esquece isso. Fica comigo?
Ana (melancólica) – Ah, sei lá, Anjo. Eu tenho um pouco de medo. No começo é tudo uma maravilha, depois não sei se a gente - e principalmente você -, segura a onda dos problemas de um relacionamento. Sabe, Ângelo, eu sou uma prostituta e nem posso largar esse lance agora. Até quando você iria agüentar essa situação?
Ângelo – Você não é uma puta. Tudo está em constante mudança. O lago não é o mesmo depois da primeira vez que se entra nele. Além do mais você possui a dádiva de ser mãe e seu corpo é a história de todas as mulheres sintetizada em uma única mulher.
Ana – Tá vendo? Você busca a mãe em mim...
Ângelo – Você faz interpretações conforme tua experiência obtida em relacionamentos mal-sucedidos e suas classificações são fundamentadas em seus fracassos. Então como é que você vai conseguir ter uma idéia de um relacionamento saudável?
(Ele observa a reação dela às suas palavras.)
Ângelo - Eu sou só um cara cheio de defeitos que está aqui na sua frente pedindo pra você tentar.
Ana (carinhosa) – Você é muito carente, lindo. E eu não sei se vou conseguir te dar todo o carinho de que você precisa. Acho que afundaríamos junto.
Ângelo – Sou tão carente quanto você é.
Ana (direta) – Pára Ângelo, eu sei do que estou falando, já fui casada.
Ângelo – Eu quase posso ouvir você falando isso pras outras meninas. Você tem medo e tem jeito de desiludida. (suplicante) Não aprisione as pessoas no seu modelo ideal.
Ana – Ângelo...
Ângelo (lisongeiro) – Ana, você está linda hoje. É a capa do meu livro de poesias preferido.
(Aqui ele acerta em cheio o coração dela! Eles se beijam demorada e carinhosamente.
Enquanto isso Miguel está desacordado e Sabine começa a falar com Ricardo que está completamente chapado de “WoodRose”.)
Sabine
com voz pastosa –
Ricardo, você me entende, cara. A vida fede.
Ricardo (eufórico) – Não, a vida é linda!
Sabine – Eu quero comprar um diagnóstico.
Ricardo – Do quê, maluca?
Sabine – De fibromialgia. Sabe de algum médico canalha?
Ricardo – Pra que você quer isso, louca?
Sabine – Pra poder tomar morfina, Vicodin, oxycodona, codeína; essas porras que curam a angústia. (pausa) Quero morrer numa banheira com o corpo e a alma quentinhos como quando eu estava no ventre da minha mãe.
Ricardo – Eu conheço um bom psiquiatra, é disso que você precisa.
Sabine (irritada, porém, entorpecida) – Pro inferno com os juízes da normalidade, os traficantes da Lei!
(Thomás termina sua refeição e comenta.)
Thomás (satisfeito, esticando-se na cadeira) - O que seria de uma sociedade sem essas válvulas de escape?
Bira – Haveria rebeliões em todos os cantos do mundo.
Ricardo fala de onde está deitado – Nós somos especialistas em diversão!
Bira – Não, você só chimba, Ricardo. O especialista é Trimalchão, um antigo amigo meu que costumava dizer que nós somos ”bexigas cheias e que caminham; menos do que moscas, porque estas ao menos possuem certa resistência. Não somos mais do que bolas de salão”.
(Miguel acorda, apóia-se nos cotovelos, levanta-se com dificuldade e vai até a mesa meio cambaleante. Pega um copo de hidromel de alguém e levanta.)
Miguel (com voz pastosa) – Vamos brindar a quem nunca mais seremos. Façamos uma espécie comemoração fúnebre aos protótipos do que somos agora e que morreram num passado recente.
Steven – He´s completely stoned! That´s one of the worse social problems in my country.
Raoul – I hope wich God help and cure him.
Miguel continua – Meus pêsames aos Biras de toda quinta, aos Ricardos chimbadores, às Anas e Ângelos solitários; à Graça...
(Miguel olha em volta procurando por Graça.)
Miguel indaga ainda com o copo levantado – Ué? Cadê a Graça?
Marlene – Não estava muito bem e foi embora.
Miguel no mesmo tom de celebração anterior – De qualquer forma nós morremos em algum outro mundo, o das outras diversas possibilidades e não essa. Poderíamos ter nos casado, ter aceitado outro convite, estarmos viajando a negócios, mas estamos aqui! Essas pessoas renasceram aqui! A esses recém-chegados as minhas boas-vindas!!! Vamos brindar o que a correnteza da vida carrega com ela!
(Sabine ensaia um brinde. Levanta e abaixa o copo algumas vezes até que consegue sustentar o copo definitivamente no alto.)
Sabine (embriagada) – Eu gostaria de brindar à nossa deformidade moral!
(Sabine fala e logo após seu braço despenca jogando algumas gotas de hidromel no chão.
Miguel termina o discurso já sentado torto e escorado à mesa. Arrasta-se até a fonte em forma de Baco, levanta-se com dificuldade e bebe um pouco de vinho que jorra da boca da estátua e vomita ao lado.
Paloma levanta seu copo deitada na cama.)
Paloma – Ao nosso caráter corrompido!!!
(Sérgio se levanta e também levanta seu copo.)
Sérgio (meio efeminado) – Eu gostaria de aproveitar e anunciar minha nova condição sexual...
(Todos olham incrédulos para Sérgio, muitos riem.)
Cláudio (indignado) – Que papo é esse?
Sérgio – Agora, oficialmente eu sou veado!!! E a esbórnia é a minha nova filosofia!
Steven – He´s drunk, man! He´ll feel bad about it tomorrow!
(Todos gritam manifestando alegria, “aêêêêêê!! É isso aí!!!!”.)
Cláudio (com mesma indignação anterior) – Mas e a Rosália?
Sérgio – A Rosália é uma santa, mas eu não posso fazer nada. Tudo isso graças ao Nico, esse semi-deus. Graças a vocês também, é claro, pois se nunca tivessem me trazido aqui eu não teria conhecido o caminho do prazer.
(Todos brindam.
Camargo tenta abraçar Isabel.)
Isabel esquivando-se – Não, espera aí. Agora não, depois. Me solta. Vai, seja legal. Pagou, mas ainda não conquistou. Deixa eu te conhecer primeiro, pelo menos.
Camargo – Isso vai ser divertido.
(O telefone toca e Nico atende. Ele leva a mão à cabeça e desliga. Está atordoado. Ele prepara uma dose grande e toma. Chama Bira e Marlene no balcão e sussurra algo ao pé do ouvido de Bira.)
Bira – Eu não vou estragar a festa apesar de sentir muito. Fale só para os mais chegados.
(Bira volta à mesa e continua conversando. Nico vai até Ana e Ângelo.
Nessa cena os eunucos começam a retirar a mesa enquanto as massagistas reposicionam as mesas de ferro onde elas estavam no começo do ato.
Os empresários se deitam nas almofadas. Thomás e Bira sentam-se na mesa à frente do balcão.)
Nico – Gente, vocês sabem o que aconteceu com a Graça? Ela vai ficar em estado vegetativo pra sempre por causa de uma meningite.
Ana (pasma) – Ai, que horror!
Ângelo – Reverteu a iniciação dela. Eu não vou ficar com medo, a natureza vai agir como quiser comigo.
Nico – Tem muito a ver com a vibração dela.
Ana – Mas em que hospital ela está?
Nico - Está na Beneficência Portuguesa, lá na Vinte e Três de Maio, sabe? Ela está estável, porém, precisa ficar em observação.
(Thomás aproxima-se de Nico, Ângelo e Ana, que estão sentados no sofá ao lado do balcão.)
Thomás (revoltado) – O que aconteceu? Que velório é esse em plena festa?
Ana – A Graça se deu mal. Pegou uma meningite e está vegetativa.
Thomás – Pra sempre?
Nico – É. Agora não tem volta.
Thomás – Foi por causa dessa porra que vocês fizeram na cabeça?
Nico – Miguel, respeito!
Thomás – Eu falei que ia dar alguma merda ainda hoje! Aí! (aponta Ângelo com as duas mãos espalmadas) agora a gente vai ficar assistindo o Ângelo ir pro saco também, Nico?!?
Nico retirando-se – Bom, pense o que quiser.
Thomás – Que filho-da-puta!! Ele não quer nem saber!!!
(Nico vai para atrás do balcão.)
Nico ao microfone – Façamos festa em nome da casualidade. O passo lento e previsível ajuda a fazer o mundo girar, mas é a casualidade a responsável pelas maravilhas universais que, de outro modo, seriam improváveis e impossíveis. A casualidade, cavalheiros, protege os milagres que estão nos interstícios de todas as leis da física.
Thomás – Que papinho! Puta-que-pariu! Que raiva!
(Meus Meninos começam uma música oriental com guitarras e todos se levantam da mesa.)
Nico ao microfone – Vejam o sol se pôr na vida de muitos, seus semblantes de satisfação e as lembranças nascendo na fonte do prazer. Sintam o tempo verticalizando, a concepção da vida se transformando... Experimentem o gosto da lisergia. Não temam descer, os demônios não são reais. É só a próxima fase do processo profundo.
(Paloma ainda está deitada com o eunuco. Ana está abraçada com Ângelo. Os dois estão deitados no sofá.
Camargo está derrotado pela bebedeira enquanto Isabel está atrás do balcão com Nico, que faz massagem em suas costas.
Sérgio está com um eunuco, os dois se beijam na cama. Cláudio está sentado na almofada conversando com os gringos enquanto três moças dançam para eles.
Marlene entra e sai do banheiro, conversa com alguém no caminho, passeia, senta - está visivelmente na farinha!
Ângelo que estava conversando com Ana, vai ao banheiro e sai logo após. Ele encosta-se na parede ao lado do banheiro e escorrega até cair sentado e permanece assim, olhando estático e, separado do resto do grupo. Ana percebe e vai ao auxílio dele.)
Ana – Fala pra mim o que você fez nessa testa. Vai abre o jogo pra eu poder te ajudar, cara. Você não tá bem, vai dar uma de teimoso agora?
Ângelo (lânguido) – Espera só um minuto que a gente já conversa.
(Percebe-se que os homens da festa estão meio bodeados. Os eunucos sentam-se nas almofadas, sofás e na beira da cama.
Marlene levanta-se, pega na mão de Paloma e a trás para perto de si para que dancem juntas de forma lasciva, de modo que o eunuco fica sozinho. Ela, Paloma, entra em êxtase e começa a falar umas coisas sem sentido, como se fosse em outra língua. Marlene puxa as mulheres, uma por uma (menos Sabine que está apagada), de forma delicada, para que participem desse êxtase coletivo. Estão todas em um clima de intimidade singular. Aglomeram-se no meio do salão e dançam perto uma das outras, perto de seus pescoços, como se contassem segredos engraçados umas pras outras. Abraçam-se, passam as mãos nos braços das outras, em seus pescoços, riem, olham para cima, falam coisas sem sentido como se estivessem tomadas pelo espírito de Baco.
Os homens só olham e ficam de cochichos com os outros, todos deitados, entupidos de comida e bebida.
De repente ouve-se dois baques secos e é nesse momento em que entram três caras encapuzados empunhando armas. Todas as mulheres gritam, menos Sabine, que apenas abre os olhos.)
bandido 1 grita – Eu quero o Biramar. Se ele não se apresentar nós vamos queimar todo mundo aqui.
Ana (espantada) – Jesus Cristo! Meu Padinho Ciço, minha Nossa Senhora!
Bandido 1 – Não, babe! É a Inquisição! Tá fudida!
Paloma (cínica) – Se é a Inquisição nós estamos salvas!
bandido 2 – Cala a boca, vagabunda!
Paloma (ousada) – Aí, tiozão! Se tua mãe não te ensinou a respeitar mulher eu vou partir pra ignorância! No braço cê não guenta! Lá na minha área esse ferro é mato, doidão!
(Aí o bandido 2 repara no que está acontecendo.)
Bandido 2 - Que porra tá acontecendo aqui?
Sabine (cínica, porém, entorpecida) – A gente tá trepando. E você?
bandido 1 – Eu tô matando.
(As mulheres gritam e todos se agacham perto do balcão (com exceção de Miguel e Sabine). Paloma faz uma expressão de fastio, vira uma cadeira de ferro e senta-se virada para a direção dos bandidos.
Nessa hora aparecem Inácio e Gunda enrolados em toalhas.)
Gunda (boquiaberta) – Inácio, nosso casamento vai ser inesquecível meeesmo!
(O casal não espera serem interpelados pelos banidos e já tomam um lugar entre os outros, acompanhados pelo olhar silencioso dos bandidos.
O bandido 2 está quase tão estarrecido quanto todos os reféns da Casa de Chá. Ele começa a se dar conta do caráter insólito do evento.)
Bandido 2 - Cacete vocês são uns degenerados!!!
Paloma (cínica) - Ah, e você é o inocente, né?!?
bandido – Cala a boca ô bastarda de merda!!!
Paloma – Bastarda não!!! Filha de uma puta e de um saco sem rosto e, entre nós, quem é o diferente aqui?? (vira para Sabine) Aí Sabine não guenta no braço e acho que nem na cama, viu!
Bandido 2 apontando para Miguel e Sabine - Aqueles ali deram P.T.
Sabine (com a fala pastosa) – P.T o cacete, eu inda guento três rounds com você.
Bandido 1 - Putz, olha o estado daquele ali. (aponta para o Ângelo e o chama) Ô, gente-fina!
(Ângelo continua estático.)
Bandido 2 – Ô, maluco!!! Tá me ouvindo?
(Ângelo nem esboça reação.)
Bandido 2 – Deve tá no mundo-da-lua...
bandido 1 (pausadamente) – Quem é o Biramar? Bi-ra-mar!
Marlene grita de repente – Não! Tá querendo foder com a nossa vida? Quer o que com o Biramar?
Bandido 1 – Você é a Marlene, né? Cadê ele, dona?
Marlene – Você veio do meio do nada pra trazer desgraça?!?
(Bira interrompe Marlene e se apresenta.)
Bira (sóbrio) – Calma, tudo se resolve. Vamos lá no meu escritório negociar.
bandido 1 – Você é que é o Biramar?
Bira – Sim, “vamo” lá.
(Bira oferece a dianteira cordialmente, mas o bandido pega-o pelo braço e leva-o à força.)
bandido 1 – Você nem sabe quem é Dora, né? Vai pagar pela sua ignorância. Chega aí!
Isabel grita – Minha mãe?? Aquela vaca tem alguma coisa a ver com isso???
bandido 1 – Ah, você é a pirralha, então??? Chega aí também.
(Ele pega pelo braço da mina de forma brusca e levanta-a do chão puxando-a agressivamente.)
Isabel – Ei, vai se foder! Pra que isso, maluco?
Bandido 1 para bandido 2- Nós só queremos os dois. Mas se o “zé-povinho” aí se meter a besta a gente fura ele!
(Eles entram no escritório guiados por Bira.)
Marlene (chorando) – Eu sabia que isso iria acontecer um dia. Moço, o que eles vão fazer com meu marido?
(Ele ignora a pergunta de Marlene e continua vigiando os convidados. Paloma, que está sentada numa cadeira de frente pra ele de perna aberta, fica levantando e abaixando a saia mostrando sua calcinha fazendo um barulho com a boca.)
Paloma – Boop (levanta), boop (abaixa), booop (levanta)...
bandido 2 – Cê é chata, hein! É por isso que homem nenhum casa você.
Paloma – Aí, truta. Casamento é da época em que sexo casual era crime, quando viver com outra pessoa era um lance simples. Só existem casais porque somos os únicos animais que precisam de proteção até a maioridade. Onde está o amor que vocês tanto falam? Passa de fase e vem trepar. Olha aqui, ó. Booop!
Bandido 2 – Ééééé! Olha a Geni ai! Quer salvar o mundo com sexo??
Paloma – Não, estou te mostrando o que você não vai comer hoje, bundão!
bandido 2 – Você não “qué” viver muito, né?
Paloma – Trepar e morrer é a mesma emoção pra mim. Faz minha noite, babaca!
Sabine – Pára com isso, maluco! Você não vai fazer nada. Tem medo de fazer merda e fica aí fazendo o dono da situação pra gente. A gente conhece vocês até do avesso.
Paloma – E como...
Sabine - Vocês homens são passionais, impulsivos. É por isso que vocês bebem pra caralho, pois quando estão breacos é como se tivessem uma licença pra fazer tudo o que reprimem quando estão caretas.
Paloma passa a língua na boca, lasciva e manda – É tão fácil desestabilizar vocês! São fraquinhos demais. É só atacar sua frágil virilidade que vocês ficam malucos. Sabe o que eu quero fazer hoje? Quero acabar com a sua noite e, se deixar, com a tua vida!
Deixa de ser idiota! O que você está fazendo? Vem ser meu cachorrinho hoje! Pára com essa palhaçada. Fica na esbórnia a noite inteira na faixa que é bem mais gostoso.
bandido 2 olha pro Nico e resolve – Faz uma maria-mole aí.
Nico (lúbrico) – Hmmm, você vai usar esse ferro?
bandido 2 – Ih, caralho! Tá danado! Vocês tão “tudo” perdido mesmo.
(O bandido 2 repara nos dois gringos que estão tentando se esconder atrás de Thomás.)
bandido 2 (curioso) para Steven – E aí, tá todo bonitão aí, de terno e gravata, só nos pano chique... Qual que é a sua?
Steven (medroso) - Eu não tenho nada a ver com isso. Deixa eu ir embora! Eu tenho dinheiro, quanto você quer?
Bandido 2 (agressivo) – Quem te pediu dinheiro? Quem é você, maluco? Tá com medo do quê? Cê tá devendo?
(Ele chega mais perto, agora com mais interesse.)
Bandido 2– Você conhece quem aqui?
Steven – Eu sou sou estrangeiro. Visitante.
(O bandido 2 puxa os cabelos de Steven com violência até perto de si.)
bandido 2 (imitando o sotaque) – “Estrangeiro”? Visitante, maluco???
Raoul – Ele não fez nada!
(O bandido 2 vai até lá e dá uma coronhada em Raoul,)
Bandido 2 – Você é mina dele? Tá defendendo por quê? Aqui, embaixo o caos prevalece, malandro. Aqui vocês não mandam nada!
(Nico vem com o drinque e um sorrisinho malicioso no rosto. Nico joga o drinque no balcão.)
Nico (seco) – “Taí”.
(Ouve-se um tiro e um clarão de dentro do escritório, que está aberto. (Toda a iluminação do palco se apaga mantendo-se apenas alguns focos.) Marlene grita: “Nããão!”.
Um foco de luz está posicionado sobre os que estão perto do balcão, outro fica só em Ângelo cuja trepanação começa a sangrar em demasia. Ele continua do mesmo modo de quando saiu do banheiro pela primeira vez, sem fazer nenhum movimento. Um foco de luz permanece na saída do escritório, que mostra a fuga dos bandidos e outra que acompanha Marlene que corre em socorro de Bira.
Marlene se levanta assim que ouve o tiro e sai correndo. Depois de alguns segundos dentro do escritório ela começa a chorar mais alto, sugerindo o exato momento da morte de Bira. Nesse momento Ângelo leva a mão à cabeça e diz, (olhando pra baixo como se estivesse psicografando): “Sublimação”, e começa a tremer.
Isabel aparece na porta do escritório e estaca atônita, olhando para o nada.
Marlene sai lentamente do escritório e desaba na cadeira do balcão, cruzando os braços sobre o bar e enfiando a cara dentro. Todos correm até ela, menos Ângelo que, percebendo o sangramento em sua testa vai até o banheiro.
Aqui as luzes voltam a iluminar o palco inteiro.
Camargo entra no escritório com Cláudio desviando de Isabel. Sérgio sai pela porta da frente e volta logo depois.)
Sérgio para Nico (calmo) – É. Mataram os dois que estavam lá fora. Tá uma confusão enorme lá na rua.
(Nico tranca a porta de entrada.
O telão dispara cenas que mostram, de forma barulhenta (ruídos de maquinários misturados com alguns sons das cenas. As luzes lentamente baixam de intensidade. Aqui a idéia é mostrar cenas que rebaixem o ser humano ao nível mais baixo que o do animal: predadores na savana africana, pessoas comendo em restaurantes finos, mendigos revirando o lixo e com coxas de galinha na mão, desnutridos na África, gente rezando, dervixes rodando, lobos uivando, gente bebendo, gente caída de bêbada, gente fumando pedra com a cara esquelética, gente falando ao telefone em escritórios, comemorando em bares e falando alto (como se fossem os “donos do galinheiro”); babuínos brigando, lutas de Vale-Tudo, corredores de hospitais públicos com macas pra fora, fotos de suítes de hotéis luxuosas, mães felizes amamentando suas crianças, gorilas amamentando, filas enormes em repartições públicas, gente no garimpo, crianças trabalhando na Serra Pelada (documento dos anos 80) vitrines de joalherias, trabalhadores nas plantações de cana, gente em cadeia lotada, crianças na montanha-russa, brigas de torcida, adolescentes com a cara pintada do trote do vestibular, vítimas de trotes em vestibular, repórteres na televisão... Na televisão ouve-se a voz do noticiário sobre o assassinato do Bira enquanto há uma transição para uma chuva brilhante com o céu escuro até que tudo pára e a lua fica no centro com as estrelas sibilando em suas órbitas em volta. Esta imagem permanece e um silêncio quase divino predomina.
Sérgio pede pro Nico fazer uma água com açúcar e segura a mão de Marlene que está desconsolada. Marlene está soluçando e toda melada de sangue. As luzes que abrangem todo o palco continuam em baixa intensidade.)
Marlene (Desconsolada) – Quando eu entrei...ele ainda estava vivo...(dá uma fungada profunda)...Ainda estava vivo...sentado na cadeira...e com a mão na testa (pausa).
(Camargo sai do escritório com Cláudio. A cara de Camargo é de pesar.)
Marlene - ...aquela cara de...de...de desespero. Eu nunca tinha visto ninguém assim antes! Ele estava com a certeza da morte. É horrível!
(Ana tem Marlene em seu peito e acaricia seus cabelos. Ela também chora. Nico entrega o copo a ela.)
Nico (piedoso) – Bebe isso e respira, linda.
Marlene bebe e continua – O rosto dele está todo ensangüentado, eu não consigo ver ele assim. Vai acabar comigo. Nunca mais vou conseguir esquecer. É muito forte! (chora mais).
Sabine – Calma Má.
Marlene berra – Vai lá ver, porra, o estrago! Depois tenta ficar calma!
(Marlene limpa o nariz na manga)
Marlene continua (mais branda) – Quando ele me viu, olhou perdido pra sua mão e disse “sublimação”. Ele tinha tomado um tiro na testa e ainda estava falando!
(Ela pausa e dá uma fungada. Quando fala isso Nico encara sombrio Damariz enquanto Camargo e Cláudio, ansiosos, olham pra porta (como se estivessem esperando a deixa para irem embora. Nico pega o telefone.)
Nico ao telefone – O Sargento Santana tá aí? Sargento houve uma tragédia... Mas eles mataram os caras que você mandou!!! ...Nós conversamos aqui. Oquei!
Camargo – Hey, gringos, é melhor a gente ir embora. Aliás, leilão está cancelado, né? Você vai Sérgio?
(Sérgio olha para Camargo com desprezo que, de pronto, entende a mensagem, e sai em seguida.)
Camargo – Tchau pra quem fica. Valeu mesmo!
Isabel – Ai, meu Deus! Isso não podia acontecer. Parece um pesadelo!
Damariz – Não se preocupa. Sozinha você não está, se precisar eu mesma vou cuidar de você. Mas agora você vai precisar ficar calma.
Inácio – Não sei nem o que dizer. O Bira foi o cara que nos ajudou nos piores momentos do relacionamento, desde o começo ele esteve lá, agora ele morre depois de casar a gente? Nós dividimos a sua dor, Marlene. Nós não vamos deixar você cair.
(Um foco mais forte de luz concentra-se na porta do escritório e Bira aparece, ficando um tempo parado lá com um copo de Domeqc na mão (esse foco vai acompanhar Bira até que a iluminação geral volte para a intensidade normal). Ele tem o tiro na cabeça, está com a roupa inteira encharcada de sangue e vem à frente, ao centro do palco, lentamente, olhando para o copo de uísque com gelo, que segura com a mesma mão em que está o cigarro. Com a outra mexe a bebida. Ele bebe e encara a platéia pela primeira vez. As personagens parecem não vê-lo.
No momento em que Bira aparece o telão passa a exibir a imagem do ponto de vista dele, por intermédio de uma mini-câmera que está disfarçada no furo de bala na testa (faz fade-in partindo do branco total). O som que acompanha a entrada é ultra-sônico, como o que se acha escutar quando cai a pressão interna do corpo e se está prestes a desmaiar.)
Bira (elegante, como de hábito) – Vocês pensam que estou revoltado, triste ou indignado? Eu mantive a vida acesa de cigarro em cigarro. Amontoei cinzas e corpos, de quarto em quarto. Testei minha vitalidade forçando o peito aberto contra o destino, sempre duvidando. Entusiasta da queda-livre, experimentei vertigens deitado no fundo do poço, encarando o céu. Vivi sem me engajar à vida e estive sempre às margens das revoluções. Suas causas e estertores foram silenciados pelos meus vícios despóticos.
Quando estava na miséria, sem trabalho nem Casa de Chá; quando passava horas na frente de garrafas vazias dos botecos da cidade planejando um jeito de fugir; quando o resto da última cerveja estava quente, eu voltava pra casa a pé, mas na hora gastava o último centavo e completava o copo pra vê-lo fosco de novo; dourado e, via meu futuro se diluindo, como cigana lasciva dançando lá dentro.
Eu construí minha masmorra com os destroços da minha ruína e me abriguei de novo!
(As luzes do palco voltam à intensidade normal. Inácio destranca a porta, o Sargento Santana aparece e agradece ao Inácio. Paloma está sentada no chão conversando com Meus Meninos, que estão guardando seus instrumentos nos cases. Sérgio está de braços cruzados conversando com Nico atrás do balcão. Ana está abraçada com Marlene. Gunda e Inácio estão abraçados na frente dela. Ângelo ainda está no banheiro. O clima - evidentemente - é de funeral. Há silêncio pela primeira vez no palco. As conversas são em tom baixo.
Bira pressiona as têmporas com o polegar e o dedo médio, de uma das mãos, por um momento.)
Bira – Que dor de cabeça filha-da-puta! Eu sempre disse que um dia iria ter uma ressaca no inferno. Achava que seria assassinado por causa das merdas que eu fazia quando estava bêbado. Acho que essa é a ressaca da vida que eu levei...
Sgto. Santana – Que merda aconteceu aqui?!?! Pelo amor de Deus...!!!
(Nico aponta pro escritório e Santana entende tudo.)
Santana balbucia atônito– Não...!
Bira – Olha a autoridade aí. A personificação dos nossos delírios morais, o lado pusilânime dos mais fortes. Vai vendo...
Santana (manso) – Cacete, Marlene...! (Marlene confirma com a cabeça, pesarosa.) Por que vocês não ligaram pro um/nove/zero? Eu nunca quis atender essa ocorrência maldita! Puta-que-o-pariu! Não foi briga, eu sei.
Ana – Adivinha: entraram encapuzados, chamando pelos nomes...
Santana – Foi encomendado, eu sei. Que merda!!! (ele abaixa a cabeça, está de braços cruzados na frente de Marlene).
(Bira ainda está andando com o copo na mão e observando o que acontece por trás dele.)
Bira (irônico) – Depois de tanta evolução a morte ainda desperta o sentimento de perda nas pessoas. Esse é o problema: depois que a cabeça do rei foi cortada, agora que as pessoas se iludem com uma falsa liberdade, todos se acham importantes demais, se levam à sério demais. Acreditam em destino-manifesto, alma-gêmea, reencarnação... Sabe o que acontece? Crise de Personalidade, carência... Sabe que carência demais gera sede de poder, de fama?
(Bira passa a mão no furo em sua testa chupa o dedo ensangüentado, bebe um gole, põe o dedo no drinque e asperge um pouco de goró na platéia.)
Santana – Marlene, eu vou mandar tirar o corpo daqui. Senão isso vai virar tortura. (assume um tom imperativo) Ninguém entra na cena do crime!
Sabine – Demorou pra levar o corpo embora!
Santana – Ah, Sabine! Você também tá aqui, né?
Sabine – É. E não queria estar.
(Santana saca o celular e olha pro Nico um tempo. Nico está sozinho atrás do balcão agora.)
Bira – Não, eu ainda não vi a cara de Deus, nem de nenhum demiurgo. Não vi Krishna, Buda, as virgens de Alá e muito menos o capeta - ainda!!! Mas o que isso importa? O que vocês querem mais? Fala a verdade pro titio: quando vocês estão na salinha confortável da casinha de vocês, discutindo ética com a visita enquanto assistem telejornal, quando estão na fila dos bancos indignados e xingando o governo, ou estão decorando fórmulas para passar no vestibular, vocês não estão atrás da salvação, né? nem de respostas, muito menos de algum deus! Quando estão jogando o tempo fora, bebendo nos bares e se achando os “donos do galinheiro”, quando planejam o nascimento do primeiro filho ou uma forma de chamar a atenção ficando mais sensuais, quando estão na balada procurando sexo, do que é que vocês estão atrás?
Vocês ateus (Bira faz o lunático). Estão satisfeitos? O que faz vocês irem adiante? A necessidade? A curiosidade? Ou os dois – um tem a ver com o outro? Vocês dizem: “Eu preciso é de mais uma dose disso que eles chamam de vida, aqueles caretas!!!” Tô entendendo vocês... (bebe e asperge seus convivas que nem percebem).
(Santana está com o celular no ouvido esperando a chamada e tapando o bocal com a outra mão.)
Santana ao celular – Alô? ...espera um pouco (vira-se para Nico). Escuta, depois eu queria falar com você. Posso te levar pra casa hoje?
(Nico olha bem pra cara do Santana e põe a mão na boca pra ninguém escutar.)
Nico – Com todo o respeito: vai tomar no cu!
Santana (suplicante) – Ah, uma voltinha só...
Nico – Tenho coisa melhor pra fazer!
Santana – Depois a gente conversa... (volta a falar ao celular) Alô... preciso de uma viatura aqui... Houveram três homicídios... Oquei! (desliga).
(Bira dá um gole. Ângelo levanta-se e posta-se do lado direito e perto de Bira. Todos prestam atenção. Ele, Ângelo, está de olhos fechados. Bira olha
pra ele e asperge-o com o drinque.)
Ângelo – Estou sentindo!
Santana aponta para Ângelo e fala para Sérgio – Esse cara vai precisar de um sedativo e pelo jeito aqui não está faltando. (volta-se para Ângelo) Eles te agrediram também? (agora para Sérgio) Pede pra alguém levar esse cara a um hospital.
(Ângelo sem nem prestar atenção.)
Santana - Cacete! Tem dois estatelados ali no chão... (dá uma fungada) Que cheiro é esse? Jesus Cristo!!!
(Santana dá de ombros e volta para o escritório.)
Paloma – Ah! Ângelo, na boa, eu até sou meio chapada, mas não perde o respeito não! O cara acabou de morrer, velho!
(Damariz se posta ao lado esquerdo de Bira, meio afastada, olhando para Bira, que nem se dá conta. Santana entra no escritório.)
Ângelo e Bira – Necessidade física... (longa pausa) eles ganham dinheiro lá encima dos arranha-céus e vêm gastar aqui no submundo.
(Marlene pára de chorar imediatamente.)
Marlene estranha – Peraí...
Ana - Puta- que-o-pariu, ele não tá bem!
Inácio – É, o cara tá transtornado.
Gunda - Mais essa...!
Sérgio vai até Ângelo – Ângelo vamos sentar um pouco?
(Ângelo está hiperventilado e ofegante. Thomás se aproxima também.)
Thomás – Cara, vamos pra casa...
Bira e Ângelo - O que vocês esperam pregando valores que não têm mais valia desde que o malandro virou ícone nacional máximo? Honestidade?
Bira - ...e o que vocês dizem sobre a prosperidade? Quem não quer o máximo benefício pelo menor custo? Antes de 1888 era eticamente “da hora” ter um escravo... E o “Exército de Reserva”? Não tem nada de militar nesse termo. Quem não quer seu lugar ao sol, mesmo na Era das Superpopulações? Quem não quer o máximo do máximo do que nós podemos ter?
Bira e Ângelo – A plena satisfação, o supra-sumo... que intensidade de vida queremos sentir a todo momento? Se podemos tê-la, se os outros aceitam isso... é ou não é? Fala aí... (pausa. Bira dá um gole, olha pro chão. Vai para um lado, para o outro...)
Marlene – Ângelo, o que realmente está acontecendo? Você tem que me falar. Que sangue é esse na sua testa? O que é que você está falando?
Bira e Ângelo - Os juristas, confortáveis, dormindo sob as asas da Lei, eles querem a sociedade em paz ou sob controle?
Ângelo - “Eu não vim trazer a paz, vim trazer a espada...”.
Bira e Ângelo – E a paz, quem a quer? Os oportunistas da Igreja? E a liberdade? Quem???
Sgto. Santana – O cara tá doidão ou ele é filósofo?
Paloma sussurra– Esse é o Ângelo, ô besta! Não lembra dele? Bate cartão aqui.
Sgto. Santana – Ah...
Bira - ...São os artistas os detentores da liberdade? Os vanguardistas, guerreiros, guardiães de uma moral que, depois de tanto debaterem-se dentro das paredes dos seus crânios num parto angustiante não terão ao menos a chance de verem sua nova arte morrer ainda no útero infecundo e podre da nossa época?
E os conformistas intimamente perturbados, os masoquistas de plantão que temem a morte, o castigo e que vivem reclamando? Os eternos coitados e os eternos aprendizes frustrados, que nunca vão dar vazão à sua humanidade por não estarem preparados nunca?
Bira e Ângelo - Todos suas próprias platéias em sua peças trágicas...
Bira - Eu quero é que todos se fodam!
Bira e Ângelo - Ética, harmonia, liberdade, democracia, honestidade, saúde, felicidade, justiça e amor!!! Palavras desgastadas, tá?!?
Bira - ...vide o poetinha da confortável sala de estar.
(Todos estão em silêncio, inclusive Marlene, que ainda está com lágrimas nos olhos.)
Ângelo e Bira – É tudo questão de necessidade física? (pausa) Se não é útil é descartado? Quantas descobertas faríamos com aquilo que ninguém quer comprar, mas concebe, traz pra nossa dimensão e afunda no lago das idéias indiscriminadamente?
Bira - Sim, isso é questão de ética! Imaginar, delirar ou criar e não trazer à tona deveria ser visto com maus olhos.
Ângelo e Bira - O milagre é fazer algo a partir do nada. A cada dia o dízimo é mais caro... Cada real pesa mais quando gastamos com o invisível. (eles gritam) COM O IRREAL!!!
Ana – Ai, pára Ângelo. Você não tá muito legal...
Marlene – O Bira tá aí, sim! Ele dizia que poucos têm a chance de extrair ouro puro da vadiagem.
(Ângelo abre os olhos e se vira para as personagens.)
Ângelo (esfuziante) – É milagre! É milagre! É milagre! Eu ouço!!!
(Paloma ,crédula, vai e abraça Ângelo.)
Paloma – Fala, brô! Fala que eu tô aqui, tô te ouvindo! Eu acredito!! Sempre achei que os doidos tinham a razão. O cara tá aí, não tá?
(Bira dá risada. Ângelo volta-se para o público, fecha os olhos e se concentra de novo.)
Ângelo e Bira – Você sabe para onde vai seu filho não nascido quando você goza???
(Paloma simplesmente chapa com a idéia)
Paloma (aturdida) – Você me converteu. Nem sei que religião é essa mas você me converteu!
(Bira dá um tapa na nuca de Ângelo que parece nem sentir.)
Bira – Meu neófito, não é uma gracinha?
(Todos estão pasmos. Paloma, se ajoelha, abre os braços e, idiotizada, fita Ângelo.)
Ângelo – A energia do seu orgasmo, pra onde ele vai? Toda causa tem efeito. O seu sexo! Faz um desejo...
Paloma – Sim, eu desejo...
Bira – O teu desejo é sempre uma ordem. Você sabe, meu bem!
(Chega o IML. São dois agentes portando uma maca.)
Um dos agentes – Onde está o corpo?
Santana sai do escritório – Tá ali naquela sala.
Bira - O macaco diz: “a vida tem ferramentas de autocontrole e o assassinato é uma delas. Ingênuos! a vida continua apesar da morte e da extinção.” (asperge o público)
(O rádio do Santana começa a chamar.)
Santana para Marlene – Eu vou embora, isso é demais até pra mim.
Meus mais profundos sentimentos, Má.
Bira – O macaco diz: “quem não se enquadra está excluído do bando” (asperge as personagens).
Inácio – Sargento!
Santana – Nico vou te ligar, tá?
Nico – Isso, mas liga quando eu estiver entediado. Adoro brincar de demagogo com quem eu não gosto.
Bira – O macaco diz: “o embate é uma prática de intimidade entre os oponentes” (asperge...).
Sgto. Santana – Alguém cuida dele. Coitado...
(Inácio chama Santana que está quase saindo.)
Inácio – Sargento...
Santana – Pois não.
Inácio – Como faço pra encontrá-lo?
Santana – O Nico tem meu telefone.
Inácio – Ah, obrigado. Vou querer acompanhar esse caso.
(Santana sai de cena, os agentes do IML saem com a maca e Marlene volta a chorar.)
Bira - Sempre soube que tinha direito, quase uma obrigação, de ser um inútil na vida. De ser hedonista e só! Eu??? Ser julgado pelos porcos? Pelos idiotas desse mundo escroto?!? Nunca, tá maluco!!!
Bira e Ângelo – Como eu gostaria de ser lembrado? Peço licença pra ser lembrado - com orgulho! - como um bosta! Despojado e elegante - sim, eu me permiti. Vivi no deserto da alma, de prazeres efêmeros. Só desci aqui porque a casa das almas, onde quer que ela esteja – e se é que existe uma – estava lotada. Peguei minha senha e, quando me chamaram, desci. Vim pra preencher uma vaga na Terra. Tá, meu bem!
(Ana está boquiaberta. Gunda e Inácio também. Ângelo cai ajoelhado e vomita muito. Paloma e Thomás o estão ajudando.)
Marlene – Alguém me leva pra casa? Preciso de um sedativo.
Inácio – A gente te leva. (vira-se para Gunda) Vamos, meu bem?
Bira continua - Peço licença pra querer ter sido antiquado, ridículo, imprestável pra venda e imoral, algumas vezes. De ter ousado qualquer coisa gratuita e tê-la supervalorizado. Livre pra não ter sido bonito, rico, engraçado ou horrível o bastante. Ou tocante quando o toque era adorno, ou de esquerda quando era conveniente, ou do leste quando eram todos de lá ou ao norte sem necessariamente nortear ninguém, de oeste sem ter de morrer sempre. Eu peço licença pra ter sido curto e grosso.
Ângelo (ainda no chão) e Bira - Podem ter certeza de que se eu pudesse mudar o mundo eu NÃO O FARIA!!!
Bira - Acho que daqui vou direto pro limbo, passar uns três mil anos lá de castigo, pensando no que eu fiz... (ele ri)
(Bira dá o último trago, apaga o cigarro no copo, bochecha, cospe no chão e deixa o copo virado de cabeça pra baixo encima do balcão, com cigarro e tudo.)
Bira aponta para o chão – Quero ver como o santo bebe esse aqui! (e ri).
Bira olhando pra platéia- Aqui mesmo apago meu último cigarro, no fundo seco do copo onde bebi minha miséria e, quer saber, tô satisfeito!
(Ele percebe Damariz que está olhando diretamente pra ele.)
Bira (ousado) – Quê?!? Qué o quê, ô xereta? Faz algo coisa de útil, já que cê tá aí me olhando com essa cara de peixe morto. Fala pra Marlene doar meus órgãos e, o que sobrar da carcaça velha, queima e põe as cinzas no vinho da festa em minha homenagem, que eu sei que mereço. Fala pra ela que eu estou de olho nela, hein! Ah! Não esquece de informar que eu tenho um filho no Paraguai. Que é pra ajudar!
(Bira enfia a mão no bolso do paletó.)
Bira – Rá! sabe o que eu estou levando desse mundo? Um pouco de frango de coxinha no bolso do meu paletó.
(Ele observa os restos de frango.)
Bira - Eu sou o delírio coletivo mais real que eu já vi. (volta-se para Damariz) Tchau, babe. Até a próxima.
(Damariz responde com um aceno discreto. Bira vai até Ângelo que está ainda de joelhos.)
Bira – Se cuida, hein, moleque! Aquele braço!
(Despede-se da platéia com um aceno de dois dedos na testa e sai pela porta de saída da Casa (com a saída de Bira o telão volta a ficar escuro). Damariz, calada, acompanha-o com o olhar e depois vai ajudar Ângelo.
Paloma está com um braço no ombro de Ângelo, que passa muito mal ajoelhado no chão.
O truque para esta cena é que o ator, com as mãos nas costas, recebe de uma das duas atrizes, bolas de plástico com mingal dentro (que ele põe na boca no momento em que a leva à boca para limpá-la) e estoura, provocando o vômito falso.
Thomás e Ricardo ajudam a levantar Miguel que está completamente entorpecido.)
Thomás para Miguel – Você consegue andar, pelo menos, né?
Miguel – Depois de tudo isso fiquei careta até demais (vomita também).
Thomás – Vocês podem cuidar do Ângelo?
Nico – Vai em paz que eu e a Damariz cuidamos deles.
(Ana está chorando na poltrona, Nico está passando a mão em seus cabelos.)
Ana (aos prantos) com as mãos cobrindo o rosto – Que coisa horrível! Nunca mais volto pra noite... Meu Deus! Porque a vida tem que ser assim? Quanta desgraça...
Nico (terno) – Não fala assim. Amanhã tudo vai melhorar. Você vai ver.
(As luzes se apagam.)
QUINTO ATO
“Sublimação”
(O telão exibe o nome do ato depois o fogo que consome o corpo de Bira. Muita fumaça. Quando o fogo se apaga um foco de luz ilumina a urna funerária que está junto à foto de Bira, que está encima de uma pequena mesa coberta com um pano vermelho bordado com filigranas douradas. Também estão copos (dispostos em forma de meia-lua atrás da foto e da urna) contornando a mesa e duas garrafas de vinho; uma de cada lado da mesa, porém, não nas beiradas.
Alguns segundos decorrem até que outro foco de luz ilumina Damariz sentada sobre uma seda fina que agora cobre o balcão.)
(Damariz pondo o dedo na trepanação, fecha os olhos e se concentra.)
Damariz – Biramar? (pausa). Tem muita gente que vai ficar com saudades, viu?
(Marlene vem andando lentamente, olhando pro chão. Vem para o foco de luz da urna pelo lado esquerdo. Ela está de vestido, camisa meio aberta e véu. Está sem adorno nenhum.
Ela pega a foto e olha demoradamente. Enxuga as lágrimas, depois pega a urna e aperta contra o peito.)
Marlene (carinhosa) – Foi legal pra cacete!!!!
(Nesse momento o primeiro acorde do tango é dado. As luzes da ribalta se acendem iluminando todas as personagens que estão em meia-lua em volta da mesa – inclusive o Bira, que posiciona-se bem ao lado de Marlene olhando-a com ternura. Ela pega uma pequena colher e, lentamente, tira as cinzas que estão na urna e põe uma colherada em cada copo. Depois enche copo por copo com vinho. Vai até a frente da mesa e olha pro chão. Bira estende a mão à ela, os dois assumem o centro da cena e começam a dar os primeiros passos da dança.
O telão acompanha as previsões de Damariz com cenas reais.)
Damariz – Agora o Bira vai seguir o caminho do outro lado e, todo mundo sabe: ele não vai voltar pra assombrar ninguém. Quer dizer, ninguém sabe ao certo o que aconteceu com ele, nem com ninguém, que está lá do outro lado. Pelo menos até hoje...
Eu vejo a Marlene voltando pras ruas, mas por bem pouco tempo, afinal, mesmo no meio de toda a sujeira ela sempre encontrou amigos de verdade. Vejo-a solteira e feliz. Passou a beber bem mais e, depois da Casa de Chá, assume a velhice e resolve sossegar na vida. Com a ajuda de Inácio e Gunda ela acha o filho de Bira no Paraguai. Ela trará o moleque e sua mãe para morar no Brasil. O rabudinho, então com doze anos, ganhará duas mães. Imaginem se ele não vai seguir o caminho do pai?
(Os dois agradecem o público e saem do palco (Bira o faz pondo o dedo médio em seu furo de bala). Depois quem toma o centro é Graça e Sérgio.)
Damariz – Graça, gracinha! Nossa relação não vai dar certo. Infelizmente você vai ficar vegetativa e voltar pra casa dos seus pais, pra bem longe de São Paulo. Mas de alguma forma você vai ser feliz ao lado deles. Vão cuidar de você e isso vai proporcioná-los a oportunidade de te amar como ninguém. Teu corpo não vai mais falar, então, os olhos tomarão o lugar dos gestos.
Sua morte vai ser sossegada. Você vai estar lá, apreciando uma plácida tarde de verão, sentadinha numa cadeira de sol em uma varandinha silenciosa do interior de São Paulo, quando de repente, seu coração resolve descansar.
O Cláudio, esse sim vai continuar sendo o mesmo bosta superficial de sempre. Nunca vai se casar, nunca vai sair do ramo em que está. Vai ganhar dinheiro, perder outro tanto, mas vai passar despercebido por todo lugar em que for.
(Ela se despede fazendo uma reverência com o dedo médio na trepanação e, graciosamente, abaixando e jogando a mão pra trás. Ele apenas faz sua reverência normal.
Quem toma o centro agora é Paloma, Sabine e Ricardo. Ele dança com uma e depois com a outra.)
Damariz – O Ricardo vai se divertir um tempo morando com as duas num apartamentinho aqui no centro. Nunca terá dinheiro pra nada e, quando a brincadeira começar a perder a graça pras duas, vão mandá-lo pedalar rapidinho. Ele vai se dar bem, pelo menos por enquanto.
(Agora ele é deixado de lado pra que as duas dancem. Ele cruza os braços e fica só olhando.)
Damariz – A Seda e a Pomba montam uma banda de rock e passarão a tocar nas casas da Augusta. Logo serão vistas em vários festivais pelo Brasil. Depois que Sabine tem uma parada cardio-respiratória por ingestão de cocaína, ela faz uma tatuagem pra encobrir, mas sua “carreira” acabará por aí. Elas vão namorar por muito tempo. Hmmm, o futuro dessas duas é nebuloso...
(Fazem reverência e saem com Ricardinho abraçadas. Quem toma o centro agora é o Camargo com a Isabel.)
Damariz – Esse aí vai parar numa cama de hospital por conta de um derrame cerebral. Quando ver sua cara torta e algumas funções debilitadas, vai desistir da vida de empresário sem ética. Ele se pirulita pra Pindamonhangaba e vai viver numa comunidade Hare Krishna chamada “Nova Gokula.” Lá ele vai acordar cedo, plantar, meditar, estudar o Gita e o Shrimad Baghavatan.
A Belzinha nunca perdoará seus pais. Depois dessa noite ela nunca mais voltará a ver sua mãe. Dizem que Santana só não deu fim na vida da sua mãe porque devia uns favores a ela e ao pai da garota que, a essa hora, deve estar tocando algum boteco em Manaus.
A pequena cativou a todos na casa. Fará amizades sólidas, estudará, aproveitará normalmente o resto da sua adolescência e no final virará dentista - e das boas!
(Eles se despedem, fazem reverência e saem. No palco é a vez de Thomás e uma das meninas da massagem.)
Damariz – Naquela noite Thomás conheceu Fernanda. Eles ficaram e, o que era impossível vai se realizar: eles namorarão sério. Ela porá o cara na linha, e ele, por sua vez, entrará no Curso de Economia da USP. Deixará o cabelo crescer enquanto ela monta sua clínica de terapia holística. Não vai demorar muito pra nascer um fedozinho dessa união. Eles vão ser muito apaixonados.
Thomás vai continuar sendo um assíduo freqüentador de puteiros. Fernanda o acompanhará mesmo estando grávida, para os encontros com Miguel; que nesse momento também vai estar profundamente apaixonado pela a mulher mais especial da sua vida...
(Eles fazem reverência e saem. Agora a vez é de Sérgio e Nico.)
Damariz – Sérgio dá outro rumo pra sua vida depois da Casa de Chá. Resolve continuar com Rosália em um casamento aberto e bem saudável. Meio de fachada, mas servirá para abrir a cabeça da menina Rosália também. Ela vai experimentar as relações homossexuais, porém, vai preferir continuar só com homens. Ele também...
Um de seus filhos desenvolverá uma doença degenerativa obrigando-o a utilizar-se de toda a humanidade que outrora era apenas latente nele.
O Niquinho?!? Esse tem a liberdade tatuada no espírito! Vai pôr uma mochila nas costas e embarcar numa aventura transcendental. Mais tarde a última que vai vê-lo será Marlene, que o levará ao aeroporto de Guarulhos cheia de lágrimas no rosto, depois de inúmeras tentativas desesperadas para fazê-lo ficar. Já posso vê-la vindo até a gente com a cara inchada de tanto chorar.
(Nessa parte Damariz apenas olha pro telão, que exibe Marlene falando): “A última coisa que ouvi o Niquinho dizer foi: ‘Aponto minha proa para onde a juventude está e minha proa é inconstante, Má.’ antes de embarcar direto pra Ilha de Goa, na Índia.
Aquilo cortou meu coração, menina!.”
Eles se despedem com a reverência e saem. Ao centro Ana e Ângelo.)
Damariz – A Aninha sofrida...? Ela e o Ângelo nunca poderiam dar certo, pois o Ângelo largará tudo e irá pras ruas no maior teste de sobrevivência que se auto-imporá em nome de sua espiritualidade. Vai sair de casa dizendo pros pais (ela olha para o telão, como acontece na citação de Marlene): “se eu sou tão necessário pra esse mundo mesmo, vou sair dessa vivo e bem mais forte.”
Vai ser visto na mendicância entre os milhões da megalópole, bem mais magro, sem alguns dentes, cheio de piolhos, irreconhecível... Não declinou de seu intento espiritual nem quando quase morreu de tanto apanhar daqueles que promovem a “limpeza social”. Vai parar no hospício depois de ser pego nu numa grande avenida, delirando e com uma faca enferrujada na mão.
A Aninha linda, depois que seu filhinho mais frágil morrer de pneumonia, vai fazer faculdade de Enfermagem e dedicar-se ao outro filho. Este vai dar muito orgulho.
Ela vai voltar a ser a Géssica e vai sofrer um pouco mais. Tem dom nato pra isso! Vai se viciar em morfina e passar o resto da vida de clínica em clínica, até poder ser salva.
(Ângelo faz a reverência com o dedo na testa e Ana o faz como os atores fazem por hábito, depois saem.
Quem toma o palco agora é Inácio e Gunda.)
Damariz – Depois da festa eles resolverão, a todo custo, validar seu lindo casamento homenageando a Casa de Chá com um museu exatamente onde ele funcionou. Inácio tinha um dinheiro da venda do circo guardado, queria investir em alguma coisa em que sentisse que fosse importante e em menos de um ano o Museu do Sexo de São Paulo estará em funcionamento.
Vai ser um ótimo negociador e um mantenedor dedicado. Além de manter a decoração original do lugar, que satisfez tudo quanto é tipo de gente da cidade por muito tempo, ele vai adquirir toda a sorte de curiosidades para fazer da Casa de Chá um museu pra ninguém botar defeito.
O destino da Casa de Chá vai ser como a de qualquer ancião que foi bem sucedido e, uma hora, resolve se aposentar com estilo. Sabe o impensável, inimaginável, o que ninguém conta nos livros de história, tudo o que está além do imaginário e aquém do que foi realizado? Então... No MSCC poderão ser encontrados artefatos de fantasia sexual dos membros da aristocracia brasileira da época da colônia. Como um chicote de seda verde, por exemplo, que alisava as nádegas da Vossa Magestade, Dom Pedro I, pela Marquesa de Santos. Ou uma das cartas que enviou a ela contendo alguns dos pentelhos “reais”. Também lá poderão ser vistos originais em papel vegetal dos “catecismos” de Zéfiro, ou manuscritos raros de Nelson Rodrigues; negativos e fotos não publicadas de Antônio Guerreiro, fantasias picantes de carnavais; roteiros, roupas e até objetos cenográficos de pornochanchadas brasileiras. Aliás, quem visitar o lugar vai se deliciar na seção de réplicas de cera dos nus mais clássicos das musas da Playboy, em tamanho natural.
(Nesse momento aparece no telão a fachada do museu com Gunda, Marlene e Inácio na frente numa foto.)
Damariz – É claro que chamarão a Marlene para ser um documento vivo de lá...
(Gunda e Inácio se despedem com reverência e saem.
O tango chega ao final e a luz abaixa um pouco em intensidade. Damariz pára de falar e olha maternalmente para Miguel, que está sozinho. Silêncio... Então ele dirige o olhar pra Damariz e seu semblante se ilumina.)
Damariz (calma, sem pressa) – Eu achei minha felicidade na potência avassaladora de um coração acossado pela paixão não correspondida pela alma humana. Um amor incondicional, sem valor monetário e sem interesses vulgares atrelados. Tão intenso e certeiro como se nada fosse resultar em conseqüências negativas quando os motivos são puros.
Acabo de sair das esquinas e dos momentos mesquinhos das outras pessoas. Sem medo vou me lançar de novo ao sabor dos vagalhões da vida. Vou submergir no âmago das emoções, pois vou descobrir que durante todo esse tempo tive acesso ao universo das pessoas e nunca tive a consciência de que precisava pô-lo no papel. Alguém vai despertar isso em mim...
Com Miguel vou montar um sebo e escrever sobre as histórias dessas alcovas habitadas pela solidão e pela esperança estéril; sobre os bastidores do palco injusto das ruas no submundo. Onde um carente inevitavelmente desenvolve suas performances dramáticas para outro carente, sempre esperando mais dele, quando nosso problema exige muletas para se continuar caminhando pela superfície da sanidade sem tropeçarmos em nós mesmos. Onde a angústia e a desilusão impõem a Lei do Latão sobre as relações; aquela que versa que “você tem de fazer aos outros antes que façam a você”.
Nossa obra “à quatro mãos” não vai fazer sucesso, porém, juntos vamos estar a salvo.
Ele nem imaginava que pudesse se apaixonar por alguém. Achava que as relações sempre geravam sentimentos infecundos e egoístas, que limitavam os membros de um casal aos problemas das quatro paredes.
Miguel e eu vamos juntar os panos daqui dois meses, ele ainda não sabe disso (ela fala como se estivesse contando um segredo para a platéia).
Ele nem imagina que quem iniciou nosso romance fui eu. Deixa ele pensar que foi ele...
(Depois que Damariz conta a história Miguel vai até ela, oferece sua mão direita ajudando-a a descer do palco. Eles saem abraçados do palco.
As luzes abaixam mais ainda sua intensidade e começa a tocar “Metrópole Insone”. Nesse momento todos os atores (sem exceção) voltam ao palco e agradecem ao público. Depois os letreiros começam a subir.
A sequência do final exibido no telão é composta de cenas de depoimentos dos atores – suas próprias opiniões – sobre sexo, drogas, paixão, crime, atualidade... O tema e o conteúdo dos depoimentos são escolhidos pelos atores, porém, deverá haver algo a ver com a peça (claro!).
Entre um e outro depoimento aparecem várias cenas em fast dos carros à noite em São Paulo.)
(VERSÃO ORGINAL DE “a MatilhA”)
Aqui a noite é nuclear e tensa
E o horizonte é bem maior.
Eu vivo nos fios elétricos,
Nos raios da luz de mercúrio.
Metrópole insone!
Eu posso me guiar pelo sentido atômico
Da mariposa alucinada.
Sua freqüência desvairada vai
Distorcendo a cena.
Metrópole insone!
FIM