Alquimista urbano



No meio da selva da novissíma era
há o alquimista urbano e em seu cadinho mágico
Mistura ao crepúsculo, cânticos ancestrais,
Faz cessar as torturas do mundo por apenas um segundo.
Seu nome é ignorado
e seu labor consagrado.
E ao ruir das estruturas

Ele vai ascender.
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Alquimista urbano by Octávio Brandão is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
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Arde-me a saudade...



Beijo o desastre em cada cruzamento,
Com a língua cortada
E o que rubro goteja é a morna melancolia dos meus dias perdidos.
Nasci tarde demais e me arde o não ter de esperar
Mas o que se me escapou e ainda o vislumbro.
Arde-me a falta e a saudade,

Como braseiro de fotos cujo fogo caprichoso consome devagar….
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Porquê escrevo



Por que é que eu escrevo?!?
Você tem uma vida
E eu estou quase lá,
Aprendendo a morrer
Eu vejo a alvorada
Aprendendo a sangrar como um homem
Sorvendo saúde onde ninguém vê.
No ponto onde todos evitam chegar
Por temer a paixão.
Ali é que eu abro picadas
Escrevo para me esconder da incoerência do mundo
Como quem tapa os ouvidos.
Escrevo como quem chora pra dentro
Essa lamúria, esse soluço num ritmo penoso e vegetal,
Escrevo como um fugitivo cego.
Escrevo porque vi minha geração emudecer e definhar
Então decidi viver for a de mim.

(...)

Vivi longe da civilização, cara-pálida!
Sou os olhos que espreitam da mata,
A única testemunha do embate convulso,
Genuíno da natureza.
Deixei a segurança há tempos
E já não há como voltar.
Hoje a verdade é desnuda,
Hoje sou imortal,
Os raios do sol,
Queimando retinas
Incinerando neocórtex.
Sou as mãos em oferta
de todas as conexões subterrâneas
de toda mentação
que este universo contém.

Minhas veias forjadas para jorrar.
O coração, não não pulsa, estronda
Dita o compasso do dia -
Sístole, diástole/espasmo, frêmito.
Minha mente é baderna de vândalos
Que vociferam impropérios insanos,
Clamor sem sentido
Num caos orquestrado -
O maquinário sombrio de uma razão ocultada.
Minhas células são logaritmos,
Seguem desordenados
Ao som do susto e do sacrifício.
Arrastando esta carcaça rumo ao descanso final (???)
Mas não há, porém, abrigo no reino do sofrimento entrelaçado!

Vejo atônito a morte avançar
E falta-me força para resistir.
Renego a beleza em um manifesto de amor perdido
Meu ser supera o abismo
Delineia delicado sua imensidão.
Meus versos são mansos, não-lineares
Rumo à perdição do espaço cósmico,
Como mancha energética
Cuja substância desconhecida se dilui mas reluta
Então mantém sua unidade primordial.
Ironicamente conectadas, todas minhas personalidades
São como amantes perfeitos fadados a nunca se conhecerem.
Sou sua busca eterna,
Sua ânsia insaciável.
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Sem paixão: Auckland

Os círios queimam dentro de mim, porém, não há paixão em Auckland.
Um dia acordo pêgo pela doença e ainda deixo você!
Não pague pra ver de quânticos ratos compõem a música de meu corpo semi-etéreo.
Não pague pra ver de quantos becos fugi,
Em quantas galerias de esgoto dormi
Com a lua escorrendo seu leite por sobre o limo e o concreto, que sorvi por noite à fio
Em minha maldita terçã.
Não queira saber…
Não! Da minha fome eterna!
De coisas fantasmas,
De meu miasma que não me mata
e me judia.

Hoje acordei doente, Auckland.
E não há sacra salvação, descobri,
Quando sou rei de minha solidão e aqui sou o Santo dos Viciados,
O Esquecido! (????????????????????)
E comigo padecem ignominiosos outros pagãos,
Como pôsteres em meu quarto
- Um panteão -
Que descolam com o tempo
levando consigo pedaços da parede coronariana
Desse coração leviano, antiquado, piegas.

Hoje acordei ao seu lado, doente, rangendo os dentes.
Arfava e ouvia a gaita inflamada
em meu peito onírico.
Com fôlego raso de poesia – Auckland, você não me inspira!
Suas noites sem rock, coleira ou correntes que rasgam a pele;
Suas noites zumbis perambulando ao som estridente da superfície do céu,
essa voz solitária que vem dos fones de ouvido.
Orgástica! Destoa da sua candura fingida, - ninfeta!
Meu agouro vai se decompor em seus banheiros públicos
Com lâminas e agulhas
Como cadáver ocultado, inocente por algum paranoico.
Malditos sejam os anos que me deixaste a esperar,
Como urubus que sobrevoam o moribundo infante na praia ao primeiro respiro da alvorada.


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18 de março


Quantas vezes já não me sentei na beira da cama, ao lado do criado-mudo, cansado de tanto aborrecimento e tristeza, querendo apenas ser para o resto da vida. Sentindo-me prostrado, com intentos de parar o mundo, saltar para a glória à força, realizar uma utopia, lançar-se ao que chamam missão pessoal, projetar-me ao fantástico súbito, arrebatador e derradeiro; ou mais precisamente, para o final feliz.
Meus braços sem vida repousam na côxa retesada, extenuada. Hoje não fui trabalhar por conta das dores nas costas. (Machuquei-a em uma das vértebras ao carregar correndo um cara nos ombros no treinamento de Krav Maga.)
Minha alma, sinto-a uma casa da qual querem abandonar sem motivo, pelo simples ímpeto de fugir. Esta, de estrutura frágil, de rachaduras extensas nas paredes, preenchidas de mofo, vigas que estalam por detrás do teto, como fantasmas que outrora estavam adormecidos e que agora reclamam seu território.
A solitude me oprime e meus jardins da infância, com estátuas de mármore que eram dóceis e festejavam à brisa da primavera, contavam fábulas à noitinha; as fadas de verde cintilante, as plácidas pontes japonesas sobre as carpas soberbas, hoje são os mesmos mas não me reconhecem mais. São os mesmos mas só outros jardins, estrangeiros, sem encantos, desenhados por paisagistas burocráticos, escolados, gabaritados, meticulosos, milimetrados, registrados e comprovados, que têm esposas e casos com meninos. Com plantas plantadas por jardineiros cujas mãos grossas foram talhadas para a descarregar e carregar pás e coifas do Chevete mas que foram também moldadas pelos anos com copo que mata o espaço da consciência com cachaça, música alta e carinho fácil.
Do menino franzino com espírito valente, fronte erigida em vislumbre de nebulosas, berços de estrelas, errou tanto que fragilizou-se e, já velho, hoje é só um guerreiro sem técnica, apenas com experiência e dura resignação. Hoje minha maça e minha flauta são o martelo e a caneta lamuriosa que escreve este diário sobre lágrimas ressecadas.
Nos dias de folga chove aqui dentro porém não saio ao sol do passeio público pois doem-me as pernas e preciso guardá-las para o treino de amanhã.

Dos enlevos artísticos, inspirações poéticas e a força do improviso transcendental, de algum espaço, por uma via diferente que tomaram, vieram a se tornar a paixão pela dor física como único meio de sobrevivência. Os dentes cerrados são a renúncia ao impulso primal e a esperança só mais uma porcelana na estante, lembrança arqueológica, presente de uma criança que em uma era foi especial.
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O que quis eu fazer da vida? Escolhi não me acorrentar ao sistema, perpetuando sua crueldade, sendo massa de manobra, exército de reserva, tudo isso para ironicamente não me escravizar. Preferi escrever por escrever e publicar apenas algo de meu universo de ideias esparsas e desconexas. Na internet ainda! Em um blog escondido, assim os apenas conhecidos não têm acesso ao podre profundo de meu espírito. Aparte disso alheio-me com narcóticos ou embebedo-me em endorfinas e serotoninas.
Hoje sou o homem do recolhimento, o do cobertor vermelho e do sofá de frente pra sacada (a vertigem sedutora…). Sou aquele que ouve os carros atemporais de quem teve uma longa vida curta e imagina como seria este momento na rotina das charretes e bondes.

Hoje sou o abstêmio que toma antidepressivo e diazepam pela manhã para esquecer que é falho, incompleto, malformado, fracassado, e divagar sobre o dia em que sentiu tesão e vergonha de sentir tesão ante uma jovem médica sob um clima romântico no fim-de-tarde do porto e não ter feito nada, pois havia pressão sobre ele, pois ela tem o direito de negar até quando e onde quiser mas ele não pode ter o direito de se sentir acanhado. Eu sou um suicida social. Talvez nem isso! Menos que isso, talvez seja não mais que apenas um suicida, o que se retirou do espetáculo pelas portas dos fundos do teatro pois nesse concerto ele foi o faxineiro, o que limpou sozinho o banheiro fazendo companhia para si e sorvendo das paredes a alegria do evento que passou.