Sonho sem visões



Na noite sem fim
que ecoa nos ladrilhos suados que
                        mantém mofo prisioneiro
                        do silêncio careta.
Eu ouso e desejo abrir chagas na
                         terra como faço incansável
Em meu simulacro viciado, o único que me suporta
Noites a fio
                definhando confortavelmente.
               Refém na vida
               Em cativeiro amoroso.
Masco o chiclete da desilusão
                Atentando contra o dia iminente,
Mas ele é carne fibrosa
-
Trôpego pelas vielas do labirinto conhecido
Sou o inevitável, o meio do caminho sem volta,
Fluxo maldito
Condenado e julgado nessa e em outras eras simultaneamente.
Como um sonho sem visões
             perturbador
Não há alvorada invadindo este meu túnel
                                        TUNÊÔFAGO
          Fagocitando estrelas
flatulando energia de deus depois.
Ouço o barulho confortável de
quase todos os potes que contém estrelas Nija.
Não me desconecte desse jogo!
Há abalos sísmicos em meu suor.
Há sofrimento demais neste plano
preciso alcançar o próximo ainda
Antes que toquem meu sino
E dói demais despertar.

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Então segue a mosca...


ouça Segue a Mosca no Youtube

© 2010 Octávio Brandão All Rights Reserved

“Segue a Mosca”
Segue a mosca na insônia
Aonde ela vai desovar?
A noite hoje está tão morna,
Essa é a última, não dá pra esperar.

Quem trouxe esse gosto doce
Invade orgia e funeral.
O segredo da sua fechadura
Não pé difícil adivinhar.

Rá, rá, rá rá! (4x)
Então segue a mosca!(4x)

Mosca de cianureto
Deixa nódoas roxas no ar.
Descreve o vazio do quarto
- Cadáver em carpete listrado!

Mas o seu dia está chegando,
As larvas crescem nesse corpo estranho.
Enquanto todo o resto apodrece,
Você só quer sobrevoar!

Rá, rá, rá rá! (4x)
Então segue a mosca!(4x)

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suicídio diário


 Não há nada além desse suicídio diário morno. Nada podeira ser significativo e que sobreviva entre observações ao espelho de que a franja, outrora farta e com um redemoinho vigoroso, está escasseando e dentro em breve se tornará uma testa árida. Desse desespêro de acordar de ressaca sem saber o que fiz na noite passada, mesmo sabendo que nem ébrio o espírito ainda nem guarde mais nem um pouco da juventude indômita. Há apenas uma rebeldia opaca, já doutrinada, amansada pela sensatez religiosa.
“Doc, i've been drinking in a suicidal fashion so... I know I am not a doctor but according to what I've seen could be steatohepatitis as my liver is not processing fat and there are pieces of it in my feces...” Esse despertar para voltar a dormir acordado, e olhar o travesseiro já com saudades, sabendo o dia ter sido programado previamente para ser uma merda, saber de antemão que vou me frustrar, amaldiçoar a Humanidade, querer fugir de tanta encheção de saco e de tudo que potencialmente pode me prejudicar para o resto dos meus dias, dessa hipocrisia, esse circo perigoso na qual se organizou a sociedade
Sentir remorso de tantas vezes ter gritado minha verdade ao microfone e a voz soar engraçada, fugir ao controle, e então, já nu, (mais tantas outras vezes) forçar a natureza para ver o limite membranoso e terminar num hotel sujo, deitado perto do encanamento mofado. Quantas vezes não marquei a alma como alguém que machuca a madeira com faca no mesmo lugar incessantemente, - alusões ao meu descontrole hedonista - e, alcunhado pederasta, tarado, marginal, besta social, nessa ferida incicatrizável que me acorda e me nina.
Quão arrebanhável e feliz seria eu se não houvesse a empatia com quem sofre, como o animal que mesmo chutado e tumorado, adoecido, sangrado em nome de Alá, cujo fumos de sua carne agradam a um louco deus fanático e caprichoso e, ainda assim possa olhar seu verdugo com amor e incompreensão, misturado ao medo e à tristeza de se saber condenado mesmo antes de nascer. Acorrentado eternamente e sem descanso a maldade criada à Sua imagem e semelhança e que a mim tem só desprezo e preconceito. Eu que no momento crucial fui chamado à sua presença e preferi a eternidade de um gozo momentâneo ao gôzo incerto de um futuro sempre ausente. Eu que tenho sentido gosto de esperma em copos de chá de camomila e achado engraçado, mas tenho sido maldito e maculado a inocência. Que tenho visto a infância agonizando, minguando, morrendo de inanição.
Eu que tenho buscado a droga aceitável nas mídias sociais para me engajar à minha época. Que tenho me masturbado de forma criminosa, que não fui aceito no clube da Humanidade, tendo meu título sido negado.

Não há nada além dessa falta de tempo para se viver, essa vontade de encher a cara, essa ameaça rotineira de um dia pegar a carcaça e me perder entre a prostituição e drogas das noites da Tailândia - me perder eternamente - , porém sendo restringido pelo amor de minha mãe, ao sentimento de amargura de tê-la feito sofrer tanto, ter-me internado, perdido noites de sono, tardes de trabalho duro indo a psiquiatras, e agora sentir que devo deixá-la ir primeiro à condená-la com o saber-me eternamente ausente. E assim mais uma vez espero consternado pela minha vez...
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Zeitgeist

Não ao capital simbólico!
Não ao valor agregado!
este silêncio de fones de ouvido
este desmesurado senso estético,
esta escola televisiva
este barulho que não deixa pensar, criar, esta corrente atando-me a ti
que te faz não me querer
este maquinário sóbrio e esses guardas do nariz torcido.

Você me quer de que jeito? Que sou tão inútil quanto um monolito não amoldável
Ocupo espaço nas víceras do sistema
Como nódulo inoportuno.

eu sou a ânsia pela abominação e não apenas morna recusa
instigo asco ao mero nojinho
a morte venérea à pornografia polida, ensaiada, de atos premeditados
vendida como trangressão.
Aliás a transgressão, a estampada em lancheiras, - antecessores das marmitas - de superfície, e tudo aquilo faz barreira, o sagrado e a glória de viés oportunista,
a estes mendigos de significância,
a eles o torpe inominável,
a eles nem mesmo os antônimos, carregados de potência mas de inverso valor,
a eles a nulidade à revelia.
Pois é chegado tempo dos últimos,
Os que apagam a luz,
As testemunhas do breu,
Glosando suas visões entre a profecia e o delírio!

Eu só tenho, aos tais apocalipses amenos,
Os cataclismos suavizados do espírito,
a eterna sentença a proclamar,
pautada em seus erros em pontuar o tempo,
como em todo crime, pela inocência de se pensar separado:
sejam condenadados não pela massa conduzida,
não pela ideia de espírito da indignação, - vinculado ao ente solitário, à composição vulgar;
que não queimem pelo fogo da emoção que anima a justiça tão carente de amor,
mas a serem a marca indelével da negação e do erro.



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Madrugada na Estação


ouça a poesia Madrugada na Estação

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Nota sobre gratidão e comunhão


“O Universo criou em seu seio o som, a palavra, o ouvido e a gratidão; então o som, a palavra. O ouvido e a gratidão não são estranhos ao Universo e, de alguma forma, este entende quando, em comunhão, ouvindo os passarinhhos numa manhã auspiciosa e ensolarada, eu dizer 'obrigado'. Nesse dia sei que a gratidão necessariamente tem endereço certo.” - Auckland/September - 2015

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neurotic simple quote

Photo by Stéphanie De Prekel

"Arrependo-me com amargura de todas as minhas paixões avassaladoras na falta de apenas uma que me prostrasse." - Auckland/November 2015

o tempo angustiado


Deve haver alguma mágica de anular o tempo quando nos sentimos mal. Quando se levanta da cama desejando não o fazer, e ansiando o momento da volta, depois de um dia pressentidamente de merda. Ou quando a semana passa como se fossem vividos apenas dois dias, que são são as horas contadas a partir de quando se chega do serviço até a hora de despertar, aqueles sentidos no segundo plano mesmo, pela bebedeira.
Puxando pelo fio este fenômeno e transcendendo o mero fator neurológico (sublimando a ciência), poderíamos chegar à senda do oculto e, uma vez lá, usurpar este segredo de deuses e neutrinos para o alívio dos homens e - quem sabe - um dia poder curar de vez a adicção e o alcoolismo.
(por continuar)

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Morte na embarcação (Dive in me)


"Pelagic-Chevron", by Bill Hayes

Senti um calafrio quando ele trouxe aquela espécie de serpente para dentro da embarcação. À princípio parecia confiar na gente – decerto nunca havia visto um humano antes.

Movia-se com elegância, como se ainda nadasse escorregava macia pelo assoalho, parecendo estar testando este novo ambiente cheio de gravidade.
Correndo longitudinal sobre seu torso brilhante e musculoso, duas faixas – uma azul e a outra rosa, contrastavam com o corpo metálico e a barriga amarela. Duas barbatanas escapavam de dentro de sua boca e moviam-se independentemente.
Vítor, apavorado, procurou algo para fustigar o bicho depois de já estar trepado no banco de couro marrom. Achou uma barra de ferro e com ela segurou o rabo do animal com força, para ver qual era a reação. O bicho abriu a boca desesperado e se enrolou. O estúpido sorriu como um demente.
- Bicho feio da porra!
Babou e limpou com as costas da mão. Depois começou um jogo sádico, pressionando o pescoço do bicho. Pedi para ele parar e ele riu. Alexandre e Márcio só olhavam.
Foi quando Márcio achou o garfo do almoço e tacou-o no olho do pobre peixe. Em seguida no flanco, tirando um pouco de intestino grosso para fora. Ele tremia, esganiçava e berrava surdamente. Aquele animal nunca mais teria chance.
- Olha isso, que escroto!
Nesse momento, com um empurrão, tomei a barra da mão de Vítor e, num rompante, passei a golpear a cabeça do animal com o mais primal de mim. Golpeava e eram eles ali no chão rosa de sangue e água do mar. Sentia a fibra rija daquele ser que insistia em viver, arfando brutalmente.
Eu havia ultrapassado o estágio do controle da força ou de medir e manejar meus recursos e ganhara o estágio da completa obsessão.
  Quando percebi que o que unicamente animava aquele corpo eram as forças ao redor, suspirei angustiado, soltei um grunhido seguido de um urro e taquei o ferro no chão,  já sem forças.
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Up in the ass


- Vocês são uma cambada de ignorantes!
- É, eu não nasci em berço de ouro, meu pai não é magnata!
- O meu também não, ô estúpido!!!
O pessoal sentado nos degraus da escada ficou me olhando de pé ali com uma certa indignação. O café estava morno e dulcíssimo, como sempre. Uma bosta!
- Agora como é que você quer que eu explique os benefícios de se fazer meditação na empresa e assinarem?
- Ah, ficar fazendo “oooooooooooohm” não vai me fazer ficar mais rico. Tem é que trabalhar, isso sim! Não vem com esse papo de “força da mente”, “reza”, “mandiga”... O que importa é estar ali, ó, no batente! Eu não assino e pronto!
- Imagino que nem em Deus você deve acreditar, né?
- Eu acredito é em mim!
- Mas você sabe que sozinho nessa empresa você não ia ganhar porra nenhuma, né?
- Não, porra eu não quero ganhar não.
Todos riem. Fui pego de novo no embuste de significado. Justo por esse povo que prefere não pensar no significado de muitas coisas.
- Tudo bem, mas e aí, espertão? Você não acha que seu sustento depende de algo superior a você?
- Mais ou menos...
- “Mais ou menos”?
- Eu posso ser profissional autônomo!
- E vai vender pra quem, besta?
- Pros clientes, oras! Pra quem mais?
- Então você entrega seu sustento nas mãos de algo maior que você?
Os peões riem de novo.
- Mano, você tá cantando de galo mas é igual a nóis! Você acha que alguém lá encima vai dar atenção pra gente?
Nem ligo. Continuo.
- Tá, então você precisa dos clientes?
- Eu “podia” plantar.
- ...na terra que vai comer teu corpo e que está por aí há alguns milhões de anos antes de você e que é constituída de milhares de microorganismos e organelas que ajudam a SUA comida a se constituir?!?!
O grandão solta um “hmm” vencido.
- Mas vamos deixar mais simples pra vocês, chucros, que adoram ficar tirando um barato da minha cara com piadas sexistas.
- Ê, maluco, vai ficar tirando uma com a nossa cara, só porque nóis é humilde e não tivemos chance? – disse outro.
- É, essa atitude agressiva é bem humilde mesmo. Me faz pensar em Jesus chicoteando os fariseus fazendo comércio no templo. Mas me explica, você entrega o seu sustento nas mãos de algo maior que você? A sua clientela é algo maior que você?
- Tá, é! – contrariado.
- E a tua vida? Entrega a quem?
- A minha via a ninguém, dela eu cuido.
- E se você ficar doente?
- Aí eu vou no médico, oras!
- Esse é seu erro, mas do jeito que vai sua evolução, você só vai descobrir isso em algumas encarnações.
- Esse maluco tá tirando, mano... – disse um lá atrás.
- Bom, eu vou trabalhar que minha vida não tá ganha ainda... – disse um mais velho se levantando e limpando as migalhas de pão do avental.
- Continuando. O cara que vai cuidar de você depende de uma infra-estrutura maior que ele próprio, de uma ciência atualizada todos os dias por um grupo enorme de pessoas no mundo todo – quiçá no Universo...
- Oia! “quiçá”... – sarcástico.
- ...de estudos de várias gerações de médicos antes dele, que escreveram cartilhas com sangue e de muitos outros fatores bem maiores que aquele serzinho arrogante e sádico de jaleco, que olha exames dispostos no seu leito, certo?
Silêncio.
- Já te convenci que tua vida depende de algo maior? Ainda não? Quando você viaja de avião você entrega a tua vida nas mãos de controladores de vôo, comissários, do piloto, dos agentes da manutenção que checaram todo o equipamento antes dele decolar, dos seguranças que garantiram que nenhuma arma iria entrar no avião por a tua vida em risco, da comissaria que garantiu uma barra de cereais pra que você prestasse atenção em algo ao invés de ficar com medo e pura e simplesmente tivesse um ataque de pânico dentro do avião...
- Tá, mas e Deus a ver com isso?
- Deus não, meu querido! Ainda não, primeiro reconheça e entregue a tua vida a algo maior que você, vai! E que você não sabe o que ou quem é. Mas o lance pra você é o dinheiro, né? Fala aí!
- Agora nem tanto.
- Bom, pra mim é a meditação antes do expediente. Isso é o que vai nos conectar com Deus , com o médico, a empresa, o dinheiro e a nós mesmos de forma amorosa. Então, quem vai assinar esse abaixo-assinado pra gente mandar a Diretoria?
Ninguém se deu por vencido, porém, todos assinaram e voltaram a seus postos.

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A peste lírica


Temos seguido os preceitos da carne, Hedoné! Voluptas!
Copulando, alheando-se, enganando, indignando...
Temos sido hólons nulos, fantasmas ocupando espaço em assentos do transporte
[público,
Ruminado as horas frente às novidades, tecnologias infalíveis a aniquilar a alma à
[curto prazo, em pequenas prestações.

Todavia, pairando sobre nós, ela adimensional, é como luz neste quarto escuro – a
[peste lírica.
E é como fome!
Por ela sou como a carne podre espalhando veneno para quem de mim é a
[saciedade débil, apenas.
Se o céu dessa mágoa eterna pesa em minha carcaça com este sol malsão,
E as horas estéreis, com sua linearidade vertical e infinita, prendem-se aos meus
[rins como argolas e bolas de ferro,
Se os cérberos da angústia imperene a mastigar meus intestinos com dentes do
[retrocesso pleno; 
Meu ato desesperado é abrigar-me em ventre morno, torpe e úmido,
Como a depressão na rocha - parede marítma colossal -, que abriga da tempestade
[o albratroz ferido mortalmente.
O túmulo gentil acha seu inquilino previamente.
A peste lírica é como ter a contínua epifania da morte,
E tê-la por companheira é maldição dicotômica.

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A indizível



Qual motivação teria alguém para continuar levando essa ressaca contínua?
Parece que em um momento nós ríamos, bebíamos, dançávamos, fazíamos planos, transávamos, ouvíamos rock, fazíamos sacanagens, poesia, rituais místicos, pactos de sangue com vinho e cocaína. Aí então todos se foram, parece, permaneci neste apartamento alugado que foi ficando cada vez mais escuro e mofado, juntando talheres sujos e comida estragada, vivendo entre lençois manchados de molho e roupas íntimas puídas. Com gente estranha entrando e saindo com suas manias, obsessões, traumas e ressentimentos e suas opiniões políticas que não servem para o coletivo; suas taras, seus trejeitos e desajustes, seus pêlos, pedaços de unhas, cheiros e secreções...
Enquanto tudo isso acontecia algo em mim despertou sem que eu soubesse. Uma ideia nascida da monótona ladainha da cidade, veio como um estranho insight, - iluminação às avessas. E cortejando essa estrada insone ao pé da janela, que traz a desgraça e a estagnação em seu alforje indecente, senti algo em mim revirar a cada gota de esgoto sorvida pela alma.
Vi-me velho e feio, desajustado e à margem. Vi meus atos, tentáculos, alcançarem religiões obscuras-sorridentes como que em propagandas infantis em outdoors. Vi pessoas doentes por detrás de balcões, segurando firme no corrimão para não enlouquecerem, vi inocentes impassíveis em seus ofícios de matar,
É disso que a vida é feita, sonhos frustrados e decepções, na maior parte do tempo. É sobre tolerância. aborrecimentos, chateação, coisas pra resolver e prazer pavloviano pra compensar.
Quando me vi atravessando de novo a mesma realidade, o jogo rodar de novo, com apenas algumas variações por todo o trajeto, preso e condenado, sem alívio, no fractal cosmológico, desesperei-me da pior forma - existencial. Era o suicídio apenas o gatilho para que a próxima condenação começasse, desta vez com o fim fora do meu controle e visões de víceras sobre o chão e carne chamuscada?
Não há romantismo fora do suicídio, onde se pode preparar o leito com as flores de preferência, lambusar de mel e bálsamo a lâmina, perfumar a corda, lamber a bala, em namorar a altura... Há um torpor em vislumbrar este anti-aniversário, uma tontura quase sexual em escolher a trilha sonora apoteótica e há também o desprezo por tudo isso, o desejo que tudo siga o mais rápido e indolor possível.
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Ligação horrorosa

- oiiiiiiii! 8:47am
Fara cumiguru (“fala comigo” em dialeto particular) 8:47am
Acho que vou trocar de nome, nessa país dá pra trocar de nome, sabia? 8:48am 
Acho que quero ser chamada de Bala de Goma 8:49am 
(Screenshot do CandyCrush com nossa foto) 8:49am 
Olha meu joguinho 8:49am 
(Mais duas fotos) 8:51am
- WTF? 1:18pm
- kkkkk 2:23pm gostou? 2:23pm
- Coisa fina 2:24pm
- Tô demiasse 2:24pm  
*Deitada 2:25pm
Tô deprê 2:25pm
- Eu tambem... 2:25pm
To com uma fuckn ressaca de novo 2:26pm
- Sério, eu tô trabalhando com a solidão e agora antes de sair recebi uma ligação horrorosa aqui no escritório. Nem passei pra advogada ainda 2:29pm
- Q ligacao? 2:20pm
- De uma mãe cujo filho de 14 anos dez sexo com a irmã de 12 2:32pm
*fez 2:32pm 
Ele foi preso e ela Ta em custódia longe da família 2:32pm
- Poutz! 2:32pm
- moram no brooklin 2:32pm
Foi pro juvenil 2:33pm
- Pq fez sexo com a irmã? 2:33pm
- Sim 2:33pm
Aqui é crime 2:33pm
- Caralho, que historia! 2:33pm
- Fiquei malzaça 2:33pm
- Nao fica mal não 2:34pm
Voce acha que o moleque merece? 2:35pm
- A mãe gritando chorando no tel 2:35pm
- Puts, eu não tinha visto o lado da mae 2:35pm
- Eu acho que é normal até um limite (...) 2:35pm
Ele sentir atração pela irmã, os hormônios 2:35pm
- Nossa, a vida desses dois foi manchada 2:35pm
- (…) mas chegar ao ponto de enfiar o pinto na irmã! 2:36pm  
Aí eu acho que é doença 2:36pm
Ele precisa de ajuda 2:36pm
Ter bom-senso, sabe? 2:36pm
- Nossa, que pesado! 2:36pm
- Tipo é irmã né? E a menina tem 12 anos, meu 2:36pm
Ele já tem malícia, ela é uma menina 2:37pm
- Como assim “ele já tem malicia”? 2:37pm
- 14 anos os hormônios já tão fervendo 2:37pm
Eu sei pq eu perdi a virigindade com 14 2:37pm
Mas com 12 anos eu era um bb 2:38pm
- vc sabe o q e ser um moleque de 14 anos? 2:38pm
- sei, meu filho 2:38pm
Inocente 2:38pm
- seila e foda 2:38pm
- Foda mesmo 2:39pm
- Eu sei 2:39pm
- Mas tiraram a menina da mãe 2:39pm
Ela perdeu 2:39pm
Aqui se a criança Ta empertigo 2:40pm
Em perigo, eles arrancam da família e somem 2:40pm
Dão pra outra família 2:40pm
Adotar 2:40pm
E foda 2:40pm
- Que porra de Sistema do caralho!!! 2:40pm
- E fala que é em prol da criança 2:41pm
- E como foi que a policia ficou sabendo? 2:41pm
- Ainda foram mó racistas com os pais 2:41pm
Então, a menina foi pra escola e contou que teve sexo com irmão 2:41pm
Aí a amiga contou pra professora e a professora contou pro diretor e o professor contou pra polícia 2:41pm
A menina tá fazendo teste de DNA e o cacete 2:42pm
- Que merda! 2:42pm
- É, aqui tem um teste que chama Rape Kit 2:43pm
O menino de 14 anos foi algemado e levado pro escritório do detetive e depois pra cadeia 2:43pm
Foi assim as crianças voltaram da escola 2:43pm
- Que teatro a polícia faz 2:44pm
- A
mãe cozinhando e a polícia ligou pra ela e pediu que todos comparecessem no escritóri 2:44pm
Ela tava cozinhando, com o feijão no fogo 2:44pm 
Até me falou 2:44pm
Falaram pra ela “seu filho estuprou sua filha pq vc deixa os dois sozinhos” 2:45pm
- PORRA! 2:45pm
- Ela falou “eu não deixo ela sozinhas!!!” 2:45pm
Aí ele falou que eles não fossem iriam prender o menino pq o menino é criminoso   2:45pm
Aí eles foram. o pai a mãe e os irmãos 2:45pm
A menina não falava nada 2:45pm
O menino tipo assustado 2:46pm
Eles chegaram lá e os caras ferraram com a menina 2:46pm
O DFC Department Of Children and Family pegou a menina pq ela confirmou 2:46pm
E o detetive algemou o menino, leu os direitos e o pai interrompeu dizendo que eles não iam prender o filho 2:47pm
O detetive perguntou se ele tinha um advogado 2:48pm
Eles falaram que não 2:48pm
Aí levaram o menino 2:48pm
O menino ligou pra mãe e disse que jogaram ele pelado numa cela com ar-condicionado 2:48pm
Que ele congelou a noite toda! Gritaram com ele e empurraram ele na hora de fichar 2:49pm
- Affff 2:49pm
- Condenado pela inocencia. To boquiaberto, serio 2:49pm
Qual o nome do moleque? 2:49pm
- Reynhardt 2:51pm
- De que? 2:51pm
- E a menina e Riva 2:51pm
Rina 2:51pm
Rita 2:51pm
- Qual é o sobrenome? 2:51pm
- Tô tentando lembrar 2:51pm
É complicate 2:52pm
- Tudo bem 2:52pm
Eu lembro amanhã e te falo 2:52pm
(…)
- To numa puta ressaca, depre. A casa ta um lixo. No meu quarto tem dois caras, um dorme no chao 2:53pm
Sao duas da tarde. Garrafa por todo lado, a casa fede 2:53pm
- Nossa, sério? 2:53pm
Pq vc não mora sozinho? 2:54pm
Q bosta 2:54pm
- Tao roubando a comida q eu levo pro trabalho 2:54pm
Eu tenho nojo da humanidade 2:54pm
- Eu também... 2:54pm

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Poppersy



toda exuberância do reino do estranho urbano figurava-se ali, não só pelos que exibiam novas matizes sexuais no palco mas pelo público também. Era a extrema interação.
Noite de segunda. Apenas a porta de saída da balada gay Family Bar da K. Road em Auckland estava aberta. Aquela rua era o reduto da marginália kiwi na semi-capital da Nova Zelândia.
O que me fez crer que havia movimentação no bar àquela hora foi a menina de saia-cinto, breaca, com o nariz de chafariz sangrento (desculpa o mal-gosto...) e blusa furta-cor, que com o corpo descalso, investiu contra mim: “what are you lookin at, bitch?!” As duas capangas ao lado cantavam “yeah!” comprimindo os lábios.
Os olhos do segurança sorriam por entre a porta cerrada. Perguntei quanto era para entrar. Ele descerrou um pouco, olhou-me bem com brilho esmeralda e indagou com forte sotaque maori “how drunk are you today?” abrindo a porta e liberando a passagem com sorriso de ouro. Eu disse “not much. Not as much as I wanted”.
Na escadaria esfumaçada senti penetrar agressivamente as narinas o odor de bálsamo nítrico - entrara no globo de acrílico. Kap Bambino urrava “Dead Lasers” nos falantes.
Integrei-me imediatamente à massa uniforme que fazia pulsar o lugar. Uma russa de coque com botas azul, branco e vermelho, longas até o joelho e shorts minúsculo de vinil pulava e conversava com o holofote. Um grupo de gays maoris seminus faziam posições de yoga e mostravam a língua ameaçadoramente.
Eu dançava alucinado, alcoolizado, como se não houvesse amanhã na terra da grande nuvem branca. Tocava e era tocado por homens e mulheres coloridos. Cheiro de popppers estava no ar, evaporando pelos buraquinhos. Via-se um ente dançando e em outro momento simplesmente fechando os olhos e derretendo.
No canto do olho, no colo daqueles répteis feéricos, eu via flashes. Aquela casa dançante era a floresta enclausurada. Totens gigantes de chiclete distribuíam sexo em pastilhas.
“Resistence Alpha” me sugava e me cuspia violentamente. Eu era parte da massa, pertencia a eles e estava seminu!!!
Alguém me disse: “a polícia não vem”, então escorri pelo chão.
Pêlos e pele fluídos e toda a descarga selvagem. Dos poros galhos perfuravam, escandalizavam, trasbordavam sorrisos suados. Mesmo o segurança ostentava, por trás da porta, um sorriso canastra.
Sinto que sou o único quando a face do balconista se desconstruiu privativamente para mim ofertando-me blood-mary por conta da casa. De alguma maneira alguém quer mesmo que a gente pire por estas paragens.
O sol nasce e se põe por trás das luzes diminutas que flutuam no teto xadrez gotejante sob o som de delay.
Raios rosa-pink e amarelos sorriem de seu estandarte imaculado incitando-me à ascenção. Tudo é angélico e puro em sua natureza pagã.
Reparo em bromélias nas paredes e que ilumino quando foco. Elas crescem devagar... É devagar que o corpo na máscara do Pacífico me convida ao banheiro (e só quem manja de poppers sabe). Ali presencio a abertura do buraco negro de onde vim.

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cerveja matinal

Digam o que quiserem, mas cerveja forte de manhã é estranhamente doce.
Os que beijam seu lixo, atrofiados, infantes que sangram e sem gangrena, prosseguem languidamente
batendo a cabeça já mole, descalcificada, em pôsteres de desgraça sem se dar conta.
Esse devaneio, esse esquecimento, esse torpor
é a vontade ativa de se alhear, de ser objetivo na fuga, certeiro em localizar lugar nenhum do mapa, com a mente turva.
É escuro o caminho por onde meu único olho percorre até o ponto de luz,
é longo, e os nervos desse meu único olho expandem o cansaço pelo resto da face.

Ouço uma flauta tímida no apartamento do lado,
Tímida flauta no meio da megalópole dos fones de ouvido,
cheia de consciência de sua extinção, de seus dias de multa pelo atentado ao mal-gosto,
como um animal noturno obrigado a morar no porão da boate
desafia o dia impelido pela necessidade, de pouco em pouco vai morrendo.

Algumas viagens ao banheiro, viagens perdidas, flash-devaneios e olhadas ao espelho, então, depois de perder a poesia, me apaixono e perco a identidade.

Continuo o mesmo vadio a te chamar pelo interfone nas tardes cinzas tediosas, sem-futuro...
Hoje ainda imagino cobras em encanamentos, delirante, non-sense, trancado em quartos de backpackers, clichê de mim e dos outros, pedante, mas e daí? Não suponho ser algo vendável preso a requerimentos, enforcado pelos altos sonhos, em rodas de aviões que voam sem se dar conta de sua carga-viva. Aquela parte de mim dorme sem-remorso - quisera!
Vida louca! Já longe dela vejo Eistein e Marilyn Monroe pairando como bandeiras, como propagandas, como sínteses. Sorriem como
Que meus mais importantes amigos de viagem (que como eu estão sempre indo) possam entender as mensagens de minhas músicas favoritas, a eles minhas paisagens, lembranças e esperanças.
A raiva hoje é gratuita, há correspondência desde o objeto até o infinito, queimando todo o caminho até o fim desse universo, cumpro meu papel como redentor de mim mesmo, me consumindo,

2014 em Auckland (BK HOstel)

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18 de março (manhã no trem)


"No final você só quer alguém para odiar, né? Posso ser essa pessoa pra você, só que eu cobro pelo serviço. Quero tua energia vital, sugar tua seiva, tirar teu sono e tua serenidade.
Na empoeirada fiação, no quarto escuro, na casa-das-máquinas do seu ser - surpresa quando vê meus olhos te espreitando e descobrir que sempre co-habitamos ali.
Sou responsável pelos seus atos-falhos. Seus enganos e acessos de loucura no meio das manhãs na megalópole infernal são rastros meus. Meus vestígios, meus pêlos grossos, são a nojeira de ser você. Seus desejos ocultos, asquerosos, são meu hálito putrefato, carregado de sentido obceno, a queimar ao pé-do-seu ouvido. E o melhor lado de seu caráter ainda é mácula de meu esperma apodrecido. Eu sou o fruto estéril, algo que nasce em vão e sem razão, ocupo espaço entre tuas costelas, dreno tua vida. Eu cobro caro, cara!" - ele disse
"Eu sou a miragem da beleza inalcançável!" - berrava. Sua voz remedava o estertor de outrém.
"A estrela escura a nortear teu rumo
destinado a te perder até o fim
e a cada recomeço
Eternamente.
Eu sou a constante no
jogo das possibilidades
Longe de ser mito ou invenção,
fantasia.
Os universos em que você subsiste
são selados com
minha assinatura,
Sou teus grilhões e sou atado aos teus rins! Bhàààààààààààà!!!"
____________________________________________________
O neófito descobriu que está em um estágio intermediário no meio do espiral infinito. Que este mundo de energia densa faz parte do sustentáculo de toda uma estrutura maior.
Ele vislumbra a espécie no qual se tornará como o cão que vislumbra o humano.
"Como fundir e erigir o elo perdido?!?!?" - angustia-se e clama pela chave mágica. Seu EU profundo miraculosamente acorda do quase-coma. Então o neófito toma um choque de 500 volts.
"Espere a morte em paz. Não evolua!"
whaddafuck?!?! How come?
(Tudo isso se deu dentro de um trem lotado na hora do rush da manhã.)
Não posso perder essa encarnação e certamente renascer nesse estágio ainda. Tenho algumas pistas envolvendo a paz, o amor, o pensamento sistêmico... Mas não é tudo. Preciso de um caminho prático e respostas precisas. Um destino objetivo. 10 dias de meditação devem resolver...
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O que importa?

- Quanto tempo! O que anda ouvindo?
- "O Amor Entre Nós Dois"
- Mas que coisa obtusa, antiga!
- SIm....
- Como está tua alma?
- Jesus...
- Claro! Você está alheia ao que importa!
- Foda-se. E você, parou de beber?
- fODAM-SE TODOS OS DIAS

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Considerações sobre modernas relações



Você vem na minha cozinha,
Pega a minha faca, meu pão,
Usa a minha manteiga e
E pra mim apenas migalhas.

Eu e este cara (que por uma questão de respeito não vou divulgar sua identidade) dividíamos o quarto sem janelas num hostel em Auckland e numa tarde de primavera, ao som de rock, ele me solta esta ideia. Eu só fiz organizar as palavras e pô-las neste formato. Eu achei a ideia genial. 



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“O Pecado Paga a Conta do Bar”



O centro está (tão) iluminado
De um vermelho tão ambíguo
E tantas poses pra colecionar,
São Paulo é uma jaula freak.

Cheiro de perfume barato,
Alguém quer me eliminar,
Eu ando em prédio abandonado
E durmo em escombros no meu sofá. Porquê...


Por quê?
Por quê?
Porque
o pecado paga a conta do bar!


As ruas passam e eu distraído
Filosofias de banheiro de bar,
A dose antes do imprevisível
Que se prepara pra vir me pegar

Quanto você quer pela alma
Eu sou o louco do gás neon!
Tem concurso pra modelo com câncer,
Pra virar capa de cigarro forte. Porquê...


Por quê?
Por quê?
Porque
o pecado paga a conta do bar!


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