Morte na embarcação (Dive in me)


"Pelagic-Chevron", by Bill Hayes

Senti um calafrio quando ele trouxe aquela espécie de serpente para dentro da embarcação. À princípio parecia confiar na gente – decerto nunca havia visto um humano antes.

Movia-se com elegância, como se ainda nadasse escorregava macia pelo assoalho, parecendo estar testando este novo ambiente cheio de gravidade.
Correndo longitudinal sobre seu torso brilhante e musculoso, duas faixas – uma azul e a outra rosa, contrastavam com o corpo metálico e a barriga amarela. Duas barbatanas escapavam de dentro de sua boca e moviam-se independentemente.
Vítor, apavorado, procurou algo para fustigar o bicho depois de já estar trepado no banco de couro marrom. Achou uma barra de ferro e com ela segurou o rabo do animal com força, para ver qual era a reação. O bicho abriu a boca desesperado e se enrolou. O estúpido sorriu como um demente.
- Bicho feio da porra!
Babou e limpou com as costas da mão. Depois começou um jogo sádico, pressionando o pescoço do bicho. Pedi para ele parar e ele riu. Alexandre e Márcio só olhavam.
Foi quando Márcio achou o garfo do almoço e tacou-o no olho do pobre peixe. Em seguida no flanco, tirando um pouco de intestino grosso para fora. Ele tremia, esganiçava e berrava surdamente. Aquele animal nunca mais teria chance.
- Olha isso, que escroto!
Nesse momento, com um empurrão, tomei a barra da mão de Vítor e, num rompante, passei a golpear a cabeça do animal com o mais primal de mim. Golpeava e eram eles ali no chão rosa de sangue e água do mar. Sentia a fibra rija daquele ser que insistia em viver, arfando brutalmente.
Eu havia ultrapassado o estágio do controle da força ou de medir e manejar meus recursos e ganhara o estágio da completa obsessão.
  Quando percebi que o que unicamente animava aquele corpo eram as forças ao redor, suspirei angustiado, soltei um grunhido seguido de um urro e taquei o ferro no chão,  já sem forças.
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Up in the ass


- Vocês são uma cambada de ignorantes!
- É, eu não nasci em berço de ouro, meu pai não é magnata!
- O meu também não, ô estúpido!!!
O pessoal sentado nos degraus da escada ficou me olhando de pé ali com uma certa indignação. O café estava morno e dulcíssimo, como sempre. Uma bosta!
- Agora como é que você quer que eu explique os benefícios de se fazer meditação na empresa e assinarem?
- Ah, ficar fazendo “oooooooooooohm” não vai me fazer ficar mais rico. Tem é que trabalhar, isso sim! Não vem com esse papo de “força da mente”, “reza”, “mandiga”... O que importa é estar ali, ó, no batente! Eu não assino e pronto!
- Imagino que nem em Deus você deve acreditar, né?
- Eu acredito é em mim!
- Mas você sabe que sozinho nessa empresa você não ia ganhar porra nenhuma, né?
- Não, porra eu não quero ganhar não.
Todos riem. Fui pego de novo no embuste de significado. Justo por esse povo que prefere não pensar no significado de muitas coisas.
- Tudo bem, mas e aí, espertão? Você não acha que seu sustento depende de algo superior a você?
- Mais ou menos...
- “Mais ou menos”?
- Eu posso ser profissional autônomo!
- E vai vender pra quem, besta?
- Pros clientes, oras! Pra quem mais?
- Então você entrega seu sustento nas mãos de algo maior que você?
Os peões riem de novo.
- Mano, você tá cantando de galo mas é igual a nóis! Você acha que alguém lá encima vai dar atenção pra gente?
Nem ligo. Continuo.
- Tá, então você precisa dos clientes?
- Eu “podia” plantar.
- ...na terra que vai comer teu corpo e que está por aí há alguns milhões de anos antes de você e que é constituída de milhares de microorganismos e organelas que ajudam a SUA comida a se constituir?!?!
O grandão solta um “hmm” vencido.
- Mas vamos deixar mais simples pra vocês, chucros, que adoram ficar tirando um barato da minha cara com piadas sexistas.
- Ê, maluco, vai ficar tirando uma com a nossa cara, só porque nóis é humilde e não tivemos chance? – disse outro.
- É, essa atitude agressiva é bem humilde mesmo. Me faz pensar em Jesus chicoteando os fariseus fazendo comércio no templo. Mas me explica, você entrega o seu sustento nas mãos de algo maior que você? A sua clientela é algo maior que você?
- Tá, é! – contrariado.
- E a tua vida? Entrega a quem?
- A minha via a ninguém, dela eu cuido.
- E se você ficar doente?
- Aí eu vou no médico, oras!
- Esse é seu erro, mas do jeito que vai sua evolução, você só vai descobrir isso em algumas encarnações.
- Esse maluco tá tirando, mano... – disse um lá atrás.
- Bom, eu vou trabalhar que minha vida não tá ganha ainda... – disse um mais velho se levantando e limpando as migalhas de pão do avental.
- Continuando. O cara que vai cuidar de você depende de uma infra-estrutura maior que ele próprio, de uma ciência atualizada todos os dias por um grupo enorme de pessoas no mundo todo – quiçá no Universo...
- Oia! “quiçá”... – sarcástico.
- ...de estudos de várias gerações de médicos antes dele, que escreveram cartilhas com sangue e de muitos outros fatores bem maiores que aquele serzinho arrogante e sádico de jaleco, que olha exames dispostos no seu leito, certo?
Silêncio.
- Já te convenci que tua vida depende de algo maior? Ainda não? Quando você viaja de avião você entrega a tua vida nas mãos de controladores de vôo, comissários, do piloto, dos agentes da manutenção que checaram todo o equipamento antes dele decolar, dos seguranças que garantiram que nenhuma arma iria entrar no avião por a tua vida em risco, da comissaria que garantiu uma barra de cereais pra que você prestasse atenção em algo ao invés de ficar com medo e pura e simplesmente tivesse um ataque de pânico dentro do avião...
- Tá, mas e Deus a ver com isso?
- Deus não, meu querido! Ainda não, primeiro reconheça e entregue a tua vida a algo maior que você, vai! E que você não sabe o que ou quem é. Mas o lance pra você é o dinheiro, né? Fala aí!
- Agora nem tanto.
- Bom, pra mim é a meditação antes do expediente. Isso é o que vai nos conectar com Deus , com o médico, a empresa, o dinheiro e a nós mesmos de forma amorosa. Então, quem vai assinar esse abaixo-assinado pra gente mandar a Diretoria?
Ninguém se deu por vencido, porém, todos assinaram e voltaram a seus postos.

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A peste lírica


Temos seguido os preceitos da carne, Hedoné! Voluptas!
Copulando, alheando-se, enganando, indignando...
Temos sido hólons nulos, fantasmas ocupando espaço em assentos do transporte
[público,
Ruminado as horas frente às novidades, tecnologias infalíveis a aniquilar a alma à
[curto prazo, em pequenas prestações.

Todavia, pairando sobre nós, ela adimensional, é como luz neste quarto escuro – a
[peste lírica.
E é como fome!
Por ela sou como a carne podre espalhando veneno para quem de mim é a
[saciedade débil, apenas.
Se o céu dessa mágoa eterna pesa em minha carcaça com este sol malsão,
E as horas estéreis, com sua linearidade vertical e infinita, prendem-se aos meus
[rins como argolas e bolas de ferro,
Se os cérberos da angústia imperene a mastigar meus intestinos com dentes do
[retrocesso pleno; 
Meu ato desesperado é abrigar-me em ventre morno, torpe e úmido,
Como a depressão na rocha - parede marítma colossal -, que abriga da tempestade
[o albratroz ferido mortalmente.
O túmulo gentil acha seu inquilino previamente.
A peste lírica é como ter a contínua epifania da morte,
E tê-la por companheira é maldição dicotômica.

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