12 de Setembro de 2019




12 de Setembro de 2019

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O Dia da Morte

Texto de Fernando Thomazi narrado por mim

Ligação desesperada














O telefone toca interrompendo a
solidão abissal.

Whatsapp
call
- Primo, eu vou fazer, primo. Tá
foda!

- Tá locão já
né?

- Eu tô encima da janela,
tá cheio de gente lá embaixo!
Alguém atende o
telefone. Sua voz está enfraquecida e ofegante.
- Oi, eu sou o Ney. Tava
passando lá embaixo e vi ele aqui. Eu sou ex-policial...
- Cadê o Fábio?
...policiais não podem
salvar a vida dele. Policiais matam mentes como a dele.
- Ele tá bem? Deixa eu
falar com ele.
- Primo falo com você
depois.

- Pelo amor de deus, se você
se matar você vai foder é comigo! A gente não
sabe o que tem do outro lado, mas aqui você pode ter certeza do
estrago que vai deixar pra todos nós. Isso é mais real
que deus!
- Tá, eu prometo.
Lágrimas.
- Tá, então vou
ficar esperando a sua ligação.
- Ok, tá tudo bem.
Entre outras pessoas, a mãe
atravessava a rua com a terapeuta do filho. Conversavam sobre como o
reiki poderia salvar vidas. Fora a cena mais horrível que ela
haveria de presenciar. Ela então na casa dos cinquenta, quando
imaginou que o mundo não teria mais criatividade para foder
com ela... Ele imaginando o mesmo. Muitas ironias da vida.

Quer usar droga usa mas
segura a onda
23:42
Mano me promete que vc vai
esperar o efeito passar e vai dormir
23:45
Eu preciso ter certeza que vc
nao vai meter o louco
23:46
Mano atende o telefone. Evita
mais prpblema
23:50
(25
September 2018)
Abro outra cerveja. Ando para
lá e para cá. Abaixo o Chet Baker do computador.
Você está no
controle
00:04
Velho, vc tem diazepam ai?
00:07
Vc precisa diminuir a
dopamina
00:07
Mano, minha meta agora é
fazer um som com vc na inglaterra
00:24
viado
00:39
Massa
00:39
Verdade
00:39
- Alô
- Oi
- Eles vão me internar.
Peraí.

Reconheço a voz de meu
outro primo e da mãe deles.
- O que vocês falaram
dele? Repete pra ele ouvir.
Rogério ao fundo repete:
- Os conselhos do Rubens estão
errados. Você vai pra internação de um jeito ou
de outro. Você vai de boa ou à força? Você
escolhe.
Fábio volta ao telefone
com a voz embargada pelo choro.
- Eles disseram que vão
me internar.
- Não! Como assim?
- Já falo com você.
Me desespero ao ouvir a ligação
cair outra vez.
Ok
00:39
Velho
01:30
Nao se interna
01:31
Nao deu certo das ultimas
vezes e nao vai dar certo agora
01:32
Vc precisa de motivacao
01:32
Primo
01:38
Sim
01:39
Verdade
01:39
Ouvir aquele que outrora era um
garoto singelo e que nunca deixou de ser amável e inocente.
Mesmo quando assumiu seu amor pelo rock e começou a tocar
depois de ter tomado ácido comigo no aniversário de São
Paulo no show dos Mutantes, quando vimos a vida acontecer como
acontece um filme.
Ouvir aquele moleque, que
dissera que eu era seu ídolo, dizer que vai se matar, me corta
e o coração - aquele que era um dos meus! - faz eu me
sentir um pouco culpado, um pouco mais monstro. Uma coisa é se
sentir um monstro. Outra é o mundo te mostrar que você
é.
Vc pode falar?
01:39



Só um pouco
01:39
Tá de fone?
01:40
Nao
01:40
Poe o fone, please
01:40
Ow
01:41
Ow
01:41
Fábio
01:42
To subinso em casa
01:43
ok
01:43
Tava tomando um cafe
01:43
Com o Ney
01:43
Eu te espero
01:44
Que é marido da minha
psicologa
01:44
Policia e internacao nao vao
te salvar
01:44
Vc e movido a sonho
01:44
Que nem eu
01:44
Eu sei a cor do sangue que
seu coracao bombeia
01:44
Cara verdade
01:45
Vem comigo
01:45
Que lindo ler isso
01:45
Sao duas da manha. To
escrevendo. Vou abrir outra cerveja, foda-se o amanha
01:46
Mano ainda bem que vc
terminou com essa mina. Vc nao tem filho nem nada. Nada mais pode
segurar seu espirito livre
01:51
Neste exato momento olho a
cortina esfiapada da janela ao lado da cama de casal no trailer onde
moro e ela chacoalha com um terremoto. Meu coração
pula. São uma e cinquenta e um da manhã em Queenstown,
Nova Zelândia; onze da manhã em Curitiba, donde se
originou a chamada.

Aqui dentro, garrafas vazias de
cerveja tilintam por todos os lados. Eu urino em uma de "Just
Juice" de dois litros e quatrocentos de quando em quando sob o
calor do aquecedor. A claraboia condensa e pinga irremediável
e incessantemente em meu carpete colado ao chão com "silver
tape". Lá fora a lua cheia alta brilha sob o angustiante
frio de três graus centígrados.

Cara
01:58
Vao me internar
01:58
Como assim? Nao vai adiantar!
01:59
Se vc for segura a onda. Vou
estar te esperando
02:01
Tua mae falou que ate te
ajuda mas vc precisa optar por viajar
02:01
Precisa tomar esta decisao
02:01
Eles vao me internar
02:12
Eu sei. Segura esta onda.
02:12
O lugar mais seguro que vc
vai encontrar e dentro de vc
02:12
Por todo esse tempo
02:13
As vezes e isso que o
unioverso quer te mostrar
02:13
Nao entra em desespero
02:13
Aceita e relaxa
02:13
Eu to te esperando
02:14
Essa historia ta so comecando
02:14
Eu juro que a gente vai fazer
algo muito legal juntos
02:15
Vc me jurou que vai ficar
vivo.
02:15
Eu confio em vc
02:15
Eles podem bater mas a gente
nao enverga. A gente nao morre
02:16
Ow, escreve algo enquanto
wstiver la
02:25
Obrigado primo
02:31
Vei eu fico imaginando oq se
passa na cabeca deles tambem. Imagina o q sua sentiu qdo te viu na
janela
02:31
Agora vc vai precisar
aguentar o resultado dos seus atos
02:32
Ela deve estar desesperada.
Ela nao te entende como eu te entendo. Cara, amadurece essa ideia e
sai do pais. Isso e o que ta te fazendo mal
02:33
E TIRA ESSA MERDA DE IDEIA DE
SE MATAR DA CABECA CARALHO!!!!
02:34
Sim
02:34
Ve se le uns livros. Poesia
eleva almas como as nossas
02:35
Beijo primo
03:06
Te amo
03:06
Vou sair daqui mais forte
03:06
Mano vc precisa de motivo pra
viver. Qdo vc ve as coisas que sonhou realizadas na sua vida pensa no
tamanho da besteira que ia fazer
(Delivered
25 September, 12:02pm)




Pérola

Pérola
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solitudine

Quando pulo quase, que abortado, da cama, ela muito já está desperta.
Sorri de olhos fechados e se aninha em meus braços.
Está sempre a dois passos a minha frente, mas cuida do vácuo atras de mim.
No silêncio, numa quietude escura, sólida, maciça.
Ela é a minha solitude.
ela olha por mim, cuida pra que eu não seja enganado, que eu não me machuque.
é seu interesse me ter inviolado,
Mas me tem como escravo, senhora altiva, filha-da-puta.!
Drena minhas energias, vampira!
Mas quando chego do trabalho cansado ela é tudo o que quero encontrar.
E ela está nua, morna, e pálida no divã, a me esperar com uma cerveja aberta, um baseado enrolado, a luz do abajour ligada...

Ela é a viúva de veludo.
Jurei que cometeríamos o suicídio juntos.
Numa banheira morna, eu e ela.
Uísque, heroína...
Ou mesmo no trailer sujo.
Às vezes me confundo com ela e vice-versa.
Mas não, ela é só a minha solitude e minha solidão.

Quando não estou com ela sou outra pessoa:
Alegre, falante, realizado... todos aqueles adjetivos do homem moderno, sabe?
Mas quando encontro com ela minha alma é despida.
Seu olhar atravessa tudo o que pode ser considerado eu.
Eu, esse ponto no fluxo.
Ela, meu vampiro privado, minha solitude,
Que segura por dentro da minha mão gelada.
Que me consola quando o mundo é demais,
Quando o mundo é algo insólito e absurdo e bizarro
Ela está lá para me trazer familiaridade com as coisas.

Ela é meu círio eterno na escuridão abissal.
Ela, navalha sempre afiada
Cujo corte é indolor e eficientemente mortal.
E mortal porque indolor.
Ela, que corta essas amarras que tenho com essa terra de gente má,
Essas amarras que estrangulam todas as partes do meu corpo.

Ela é um véu a roçar meu rosto
E ela é tudo o que eu tenho
- Mais até do que minha própria vida!!! -
E acho que no fim ela será a única a restar, como ponto magnético e vibrante no vácuo universal.
Por isso preciso cultivar os laços com essa minha solidão.
Porque ela vai dissolver todo o desespero em solidão. Em silêncio. Solitude.
Minha solitude será a coroação de uma existência!
(Da minha existência)

E quando o barulho da sirene se aproximar, o derradeiro, vou estar dentro dela.
Com meu membro rijo dentro dela.
Dois corpos nus com mensagens de rancor gravadas ao fio da navalha.
Estaremos serenos, porém, em um caso de amor anormal - um homem e sua própria solitude,
A única que o aceitou integralmente.
A única a quem ele aceita!

Em sua forma humana ela é a mais bela das mulheres,
Corpo possante, sorriso enternecedor, capaz de quebrar a mais dura das almas, a alma fria de diamante.
(Alma fria de concreto, na verdade. O meu coração é que é de diamante! Foi ele que sofreu pressões e calor ilimitados no começo das eras.
Foi ele que de tanta pressão se solidificou.
Agora eternamente duro)

Ela, o avião que está sempre decolando, parada no ar, estática.
A doce saudade das pessoas que se tornaram eternas, das pessoas que se tornaram imortais, que nunca mais mudaram,
Ela que tem o dom de paralizar o momento em paixão quando tudo o que paraliza o momento é dor, pois o prazer é flutuação.....
Ela é a minha memória flutuante.
Em seu ventre se fecundaram tudo o que vale a pena em minha vida,
Toda flor que entreguei, que me entregaram....
Toda vida que salvei.
Ela é a violinista que não está mais lá,
A violinista viajante pela qual me apaixonei num domingo de tarde
E que deixou sua lacuna musical No lugar onde abriu seu case de moedas.

Mas se eu sou feliz com ela?!?!?
Ah, a felicidade é outra coisa.
Eu sou um homem que, na hora da tormenta, parou de nadar.
Simplesmente deixou seu corpo à deriva. Sou ao sabor das vagas.
Por enquanto ainda respiro e olho o céu bem daqui do fundo das águas turvas, ainda vejo um pedaço de sol.
Um dia serei tragado por estas águas e vou virar oceano
Numa louca pedra que viaja pelo espaço.
Essa louca pedra viva

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Essa gente

Gente rasa, razoável, me cansa.
Gente que não sabe a importância do inútil (eu sou inútil)
Grandiloquente, cheia de valores
Tipo o cara que pôs carniça no lago que nadei quando moleque!
Gente barulhenta, com motor dentro do peito,
de quebrar pedra, deixar surdo,
que faz destruição necessária,
que desbasta a vida aos seus moldes e morre, como quem cospe e foge. Covarde.

Essa gente inútil vive pelos cantos da casa
Experimentando com as sombras e com o sol.
Perto das janelas
Perto das manhãs.
Sabem ser netos
Crianças caçadoras de vassoura na mão,
Navegam em barcos de colchões velhos que eram cabanas
E cobertores de pele de urso
E cujos herois eram avôs.
Essa gente sou eu

O seu paraíso fodeu meu rolê

O desespêro da noite nao é para os rasos.
Gente-padrão, cristã.
O desespêro da noite não é para quem tem esperança.
Essa é a minha calçada.

Luzes esparsas de tontura
Me pergunto se este estado é o único e inventado.
Se alguém já chegou tão baixo.

Meu corpo, meu escravo, meu refém. Vítima.
Bode-expiatório das massas.

Se tudo já foi falado
De que vale a vastidão?
Se a alma se limita, adequa-se à solidão,
E me olho no espelho e não me reconheço.
- Sou fruto estéril da poeira do espaço que freme...

(Um ente extradimensional vem à floresta.
Espreita pela claraboia do trailer,
Sou bicho, mas não acuado
Acendo um cigarro e ganho o palácio das luzes,
De copo em copo me contorço como minhoca decepada e seca ao sol
No seu paraíso de cristal