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o tempo angustiado

Deve haver alguma mágica de anular o tempo quando nos sentimos mal. Quando se levanta da cama desejando não o fazer, e ansiando o momento da volta, depois de um dia pressentidamente de merda. Ou quando a semana passa como se fossem vividos apenas dois dias, que são são as horas contadas a partir de quando se chega do serviço até a hora de despertar, aqueles sentidos no segundo plano mesmo, pela bebedeira. Puxando pelo fio este fenômeno e transcendendo o mero fator neurológico (sublimando a ciência), poderíamos chegar à senda do oculto e, uma vez lá, usurpar este segredo de deuses e neutrinos para o alívio dos homens e - quem sabe - um dia poder curar de vez a adicção e o alcoolismo. (por continuar) o tempo angustiado by Octávio Brandão is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License . Based on a work at http://tavernadaamnesia.blogspot.co.nz/ . Permissions beyond the scope of this license may be available at http://ta...

Morte na embarcação (Dive in me)

"Pelagic-Chevron", by Bill Hayes Senti um calafrio quando ele trouxe aquela espécie de serpente para dentro da embarcação. À princípio parecia confiar na gente – decerto nunca havia visto um humano antes. Movia-se com elegância, como se ainda nadasse escorregava macia pelo assoalho, parecendo estar testando este novo ambiente cheio de gravidade. Correndo longitudinal sobre seu torso brilhante e musculoso, duas faixas – uma azul e a outra rosa, contrastavam com o corpo metálico e a barriga amarela. Duas barbatanas escapavam de dentro de sua boca e moviam-se independentemente. Vítor, apavorado, procurou algo para fustigar o bicho depois de já estar trepado no banco de couro marrom. Achou uma barra de ferro e com ela segurou o rabo do animal com força, para ver qual era a reação. O bicho abriu a boca desesperado e se enrolou. O estúpido sorriu como um demente. - Bicho feio da porra! Babou e limpou com as costas da mão. Depois começou um jogo sádico, pressionando o pes...

Up in the ass

- Vocês são uma cambada de ignorantes! - É, eu não nasci em berço de ouro, meu pai não é magnata! - O meu também não, ô estúpido!!! O pessoal sentado nos degraus da escada ficou me olhando de pé ali com uma certa indignação. O café estava morno e dulcíssimo, como sempre. Uma bosta! - Agora como é que você quer que eu explique os benefícios de se fazer meditação na empresa e assinarem? - Ah, ficar fazendo “oooooooooooohm” não vai me fazer ficar mais rico. Tem é que trabalhar, isso sim! Não vem com esse papo de “força da mente”, “reza”, “mandiga”... O que importa é estar ali, ó, no batente! Eu não assino e pronto! - Imagino que nem em Deus você deve acreditar, né? - Eu acredito é em mim! - Mas você sabe que sozinho nessa empresa você não ia ganhar porra nenhuma, né? - Não, porra eu não quero ganhar não. Todos riem. Fui pego de novo no embuste de significado. Justo por esse povo que prefere não pensar no significado de muitas coisas. - Tudo bem, mas e aí, espertão? Você não ...

A peste lírica

Temos seguido os preceitos da carne, Hedoné! Voluptas! Copulando, alheando-se, enganando, indignando... Temos sido hólons nulos, fantasmas ocupando espaço em assentos do transporte [público, Ruminado as horas frente às novidades, tecnologias infalíveis a aniquilar a alma à [curto prazo, em pequenas prestações. Todavia, pairando sobre nós, ela adimensional, é como luz neste quarto escuro – a [peste lírica. E é como fome! Por ela sou como a carne podre espalhando veneno para quem de mim é a [saciedade débil, apenas. Se o céu dessa mágoa eterna pesa em minha carcaça com este sol malsão, E as horas estéreis, com sua linearidade vertical e infinita, prendem-se aos meus [rins como argolas e bolas de ferro, Se os cérberos da angústia imperene a mastigar meus intestinos com dentes do [retrocesso pleno;  Meu ato desesperado é abrigar-me em ventre morno, torpe e úmido, Como a depressão na rocha - parede marítma colossal -, que abriga da tempestade [o albratroz fe...

A indizível

Qual motivação teria alguém para continuar levando essa ressaca contínua? Parece que em um momento nós ríamos, bebíamos, dançávamos, fazíamos planos, transávamos, ouvíamos rock, fazíamos sacanagens, poesia, rituais místicos, pactos de sangue com vinho e cocaína. Aí então todos se foram, parece, permaneci neste apartamento alugado que foi ficando cada vez mais escuro e mofado, juntando talheres sujos e comida estragada, vivendo entre lençois manchados de molho e roupas íntimas puídas. Com gente estranha entrando e saindo com suas manias, obsessões, traumas e ressentimentos e suas opiniões políticas que não servem para o coletivo; suas taras, seus trejeitos e desajustes, seus pêlos, pedaços de unhas, cheiros e secreções... Enquanto tudo isso acontecia algo em mim despertou sem que eu soubesse. Uma ideia nascida da monótona ladainha da cidade, veio como um estranho insight, - iluminação às avessas. E cortejando essa estrada insone ao pé da janela, que traz a desgraça e a estagnação em...

Ligação horrorosa

- oiiiiiiii! 8:47am Fara cumiguru (“fala comigo” em dialeto particular) 8:47am Acho que vou trocar de nome, nessa país dá pra trocar de nome, sabia? 8:48am   Acho que quero ser chamada de Bala de Goma 8:49am   (Screenshot do CandyCrush com nossa foto) 8:49am   Olha meu joguinho 8:49am   (Mais duas fotos) 8:51am - WTF? 1:18pm - kkkkk 2:23pm gostou? 2:23pm - Coisa fina 2:24pm - Tô demiasse 2:24pm   *Deitada 2:25pm Tô deprê 2:25pm - Eu tambem... 2:25pm To com uma fuckn ressaca de novo 2:26pm - Sério, eu tô trabalhando com a solidão e agora antes de sair recebi uma ligação horrorosa aqui no escritório. Nem passei pra advogada ainda 2:29pm - Q ligacao? 2:20pm - De uma mãe cujo filho de 14 anos dez sexo com a irmã de 12 2:32pm *fez 2:32pm   Ele foi preso e ela Ta em custódia longe da família 2:32pm - Poutz! 2:32pm - moram no brooklin 2:32pm Foi pro juvenil 2:33pm - Pq fez sexo com a irmã? 2:33pm - Sim 2:33p...

Poppersy

toda exuberância do reino do estranho urbano figurava-se ali, não só pelos que exibiam novas matizes sexuais no palco mas pelo público também. Era a extrema interação. Noite de segunda. Apenas a porta de saída da balada gay Family Bar da K. Road em Auckland estava aberta. Aquela rua era o reduto da marginália kiwi na semi-capital da Nova Zelândia. O que me fez crer que havia movimentação no bar àquela hora foi a menina de saia-cinto, breaca, com o nariz de chafariz sangrento (desculpa o mal-gosto...) e blusa furta-cor, que com o corpo descalso, investiu contra mim: “what are you lookin at, bitch?!” As duas capangas ao lado cantavam “yeah!” comprimindo os lábios. Os olhos do segurança sorriam por entre a porta cerrada. Perguntei quanto era para entrar. Ele descerrou um pouco, olhou-me bem com brilho esmeralda e indagou com forte sotaque maori “how drunk are you today?” abrindo a porta e liberando a passagem com sorriso de ouro. Eu disse “not much. Not as much as I wanted”. Na ...